CASTRO SANTOS, L. A. A Enfermagem Moderna: a experiência internacional (Disciplina de Pós Graduação). Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 5 n. 1, 2003. Disponível em http:/www.fen.ufg.br/revista

RELATO DE EXPERIÊNCIA

A ENFERMAGEM MODERNA: A EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL (Disciplina de Pós Graduação)

A POST-GRADUATE SEMINAR ON MODERN NURSING AND THE INTERNATIONAL EXPERIENCE.

UN SEMINARIO DE POST-GRADUACIÓN SOBRE LA ENFERMERÍA MODERNA Y EXPERIENCIA INTERNACIONAL

Luiz Antônio de Castro SANTOS1

CONSIDERAÇÕES GERAIS
BIBLIOGRAFIA
AUTOR


RESUMO:  Relato de uma experiência pedagógica interdisciplinar, realizada no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 2002 e 2003. Alunos e docentes de diversas áreas das Ciências da Saúde e das Ciências Humanas puderam trocar vivências, concepções, perspectivas teóricas e pontos de vista, a partir  do estudo da riquíssima trajetória institucional da Enfermagem no mundo contemporâneo.
PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem moderna; Ensino em Enfermagem; História da Enfermagem

ABSTRACT: A note on a cross-disciplinary teaching experience, which took place in 2002/2003, at the Institute of Social Medicine of the State University of Rio de Janeiro (UERJ). Students and faculty from many fields in the Health Sciences and the Human Sciences were able to exchange individual experiences, conceptions, theoretical perspectives and personal viewpoints, based on the study of the beautiful institutionalization processes of Nursing in the contemporary world.
KEYWORDS: Modern nursing; Nursing Education; History of Nursing.

RESUMEN: Informe de una experiencia pedagógica interdisciplinaria, realizada en el Instituto de Medicina Social de la Universidad del Estado de Rio de Janeiro en 2002 y 2003. Alumnos y docentes de diversas áreas de las Ciencias de la Salud y Ciencias Humanas pudieran intercambiar vivencias, concepciones, propuestas teóricas y puntos de vista, desde el estudio de la riquísima trayectoria institucional de la Enfermería en el mundo contemporáneo.
PALABRAS-CLAVES: Enfermería moderna; Educación en Enfermería; Historia de la Enfermeria

CONSIDERAÇÕES GERAIS

No segundo semestre de 2002, tivemos a oportunidade de viver, com resultados auspiciosos, uma experiência de cunho pedagógico interdisciplinar, no Programa de Mestrado e Doutorado em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da UERJ, no Rio de Janeiro. Trata-se da criação, em caráter experimental, de uma disciplina de dois semestres (um por ano), voltada para a discussão histórico-sociológica e comparativa do campo da Enfermagem.

Nossas pesquisas sobre a Reforma Sanitária brasileira revelaram a enorme importância da formação da enfermagem no país. Em primeiro lugar, por constituir um exemplo excepcional de profissão que surge num encontro/desencontro entre valores e sistemas pedagógicos nacionais e internacionais (notadamente norte-americanos, por meio da Fundação Rockefeller).  Nessa confluência e confronto de orientações reside um convite ao estudo dos paradigmas de ensino no campo médico-hospitalar no início do século passado e da emergência da enfermagem de saúde pública -- esta, por sua vez, fruto da proposta conjunta de sanitaristas brasileiros e da enfermagem norte-americana e que resultou na criação da pioneira Escola Anna Nery, no Rio de Janeiro. Em segundo lugar, a importância da história da enfermagem – particularmente após a emergência da AIDS, que projetou os cuidados da enfermagem para o centro do cenário médico com uma legitimidade até então pouco reconhecida – não se resume apenas aos momentos embrionários e à sua institucionalização na década de 20, pois a consolidação da profissão no Brasil passa por diversos momentos decisivos em décadas posteriores, com a criação de escolas de enfermagem em inúmeros pontos do país. Desse ponto de vista, o resgate da história de outros cursos superiores de enfermagem torna-se imperativo, se se quiser entender a formação desse campo profissional, na conhecida acepção de Pierre Bourdieu.

Essa discussão sugere, desde já, como montamos o curso. Na primeira parte, trata-se de resgatar a experiência internacional. Esta foi a temática do Curso ministrado em 2002. Em 2003, voltaremos nossa atenção ao panorama nacional – trata-se de quase um século de progresso do campo no Brasil, progresso esse atestado igualmente por escolas mais “novas”, como os cursos superiores de enfermagem de Natal e Mossoró, no Rio Grande do Norte, para citarmos dois exemplos bem recentes. O presente Relato de Experiência, desdobra-se, portanto, em duas fases, a primeira das quais, conforme a Ementa que se segue, atraiu para o nosso Curso alunos e jovens colegas de várias áreas, egressos da própria Enfermagem, da Saúde Coletiva, da Medicina, da História e das Ciências Sociais, da Educação, da Odontologia. O Professor Dr. Osnir Claudiano da Silva Júnior, que atualmente realiza seu programa de pós-doutorado no IMS/Uerj, sob nossa orientação, dividiu conosco os encargos, responsabilidades e o sucesso da iniciativa interdisciplinar.


UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Instituto de Medicina Social
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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA
MESTRADO E DOUTORADO - 2002/2
DISCIPLINA:  TÓPICOS ESPECIAIS EM CIÊNCIAS HUMANAS E SAÚDE
"A Enfermagem em Perspectiva Histórico-Comparada"
CRÉDITOS –   3 - TURMA:  Especial
PROFs.:  LUIZ A. DE CASTRO SANTOS e  OSNIR CLAUDIANO DA SILVA JUNIOR (PROFESSOR CONVIDADO, Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, UNIRIO)
INÍCIO: 9 de agosto de 2002 - DIA DA SEMANA:  SEXTA-FEIRA - HORÁRIO:  13h às 16h
EMENTA E COMENTÁRIO: A enfermagem em perspectiva histórico-comparada

A formação da enfermagem no Brasil, além de constituir tema de importância para profissionais preocupados em conhecer as raízes de sua própria identidade social e auto-estima,  envolve questões que estão no centro das reflexões historiográficas, antropológicas e sociológicas atuais.  Conhecer a enfermagem brasileira é, ao mesmo tempo, conhecer um capítulo de uma história mais ampla, que é a própria história da formação do campo em escala mundial, particularmente durante o século XX. O presente curso é um esforço na direção de apreender alguns aspectos deste grande painel histórico, focalizando em particular  os exemplos da França, Grã-Bretanha e Estados Unidos.

A pesquisa histórica e sociológica em enfermagem enfrenta, hoje, um tipo de obstáculo que se poderia chamar epistemológico: a pouca familiaridade do corpo discente com a pesquisa, em primeiro lugar, e, particularmente,  com a pesquisa histórica. Em segundo lugar, o campo se ressente da falta de estudos comparativos, feitos por pesquisadores de enfermagem. É notória, na literatura disponível, particularmente nos estudos pioneiros publicados por editoras como a Cortez, a ausência de um olhar comparativo não somente para a formação de outras áreas biomédicas, como a medicina, a psiquiatria e a odontologia, mas, surpreendentemente,  para a própria enfermagem em outros países. Há clichés que se reproduzem na literatura acriticamente, como, por exemplo, a suposta existência de modelos rígidos de profissionalização da enfermagem: anglo-americano, francês, etc. sem que possamos tomar tais modelos como hipóteses de trabalho, que só a leitura da bibliografia internacional permite aprofundar. Por exemplo, hoje se sabe que há clivagens profundas entre a proposta nightingaliana e o modo como o “modelo inglês” difundiu-se nos Estados Unidos, ainda no final do século 19. Mais ainda, sabe-se que, mesmo na Inglaterra, havia fissuras entre as líderes do movimento inglês no tocante às propostas defendidas por Florence Nightingale. Um exemplo importante: a Associação Britânica de Enfermeiras, criada em 1887, resultou de um grito de independência em relação à grande Dama. Tudo indica que há muito que pesquisar e muito a rever.  A própria historiografia sobre a formação da enfermagem moderna no Brasil, que trata as primeiras enfermeiras de padrão Anna Nery como cópias-fiéis de um padrão criado pela Fundação Rockefeller, terá de ser revista à luz do debate recente sobre as diversas tendências existentes à época, na enfermagem norte-americana. Nos Estados Unidos, haveria um padrão cristalizado ou, por outra, tendências ainda em processo de cristalização? No Brasil,  revelou-se uma cópia-fiel ou uma incorporação seletiva – por vezes, negociada – das propostas pedagógicas do Hospital Geral  de Filadélfia, do Teachers College da Universidade de Columbia, ou da Escola de Enfermagem da Universidade de Toronto, no Canadá? 

O Curso destina-se a todos os interessados, desde que sejam docentes ou alunos de pós-graduação nas áreas de Enfermagem, Saúde Coletiva, Medicina, História, Ciências Sociais e Educação. Apresentamos  um convite à reflexão sobre a experiência de vários países. Procuraremos, juntos, aprofundar o aprendizado da pesquisa sociológica e histórica sobre o campo, com vistas à compreensão dos processos de formação da Enfermagem brasileira. Não existe exigência quanto ao domínio de outros idiomas, ainda que seja recomendável certa familiaridade com a leitura de textos em francês ou inglês. O curso se abre, igualmente, para docentes, particularmente (mas não exclusivamente) se interessados em realizar conosco um programa de pós-doutorado ou de estágio-sênior.  No segundo semestre de 2003 pretendemos focalizar especificamente a experiência brasileira, tema que será tratado em outra disciplina a ser  por nós oferecida no Instituto de Medicina Social da UERJ.
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BIBLIOGRAFIA

Celia Davies, “Professionalizing Strategies as Time- and Culture-Bound: American and British Nursing, Circa 1893”, in Ellen C. Lagemann (ed.), Nursing History: New Perspectives, New Possibilities, North Tarrytown: Rockefeller Archive Center & New York: Teachers College Press, 1983.

Geneviève Paicheler, “Présentation: Les professions de soins: territoires et empiètements”, Sciences Sociales et Santé, (13) 3, Septembre 1995, pp. 5-11.

I. Feroni e A. Kober, “L’autonomie des infirmières: Une comparaison France/Grande Bretagne”, Sciences Sociales et Santé, (13) 3, Septembre 1995, pp. 35-68.

Katrin Schultheiss, Bodies and souls: Politics and the professionalization of nursing in France. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 2001.

Philippe Adam e Claudine Herzlich, Sociologie de la Maladie et de la Medicine, Paris, Ed. Nathan, 1994. (VER Cap. 1, “Les maladies dans l’histoire des sociétés”, cap. 2, “L’émergence de la médicine moderne et son rôle dans la prise em charge de la maladie”, cap. 7, “L’expérience de la maladie dans tous les lieux de la vie sociale”).

Renée C. Fox, Linda Aiken e Carla Messikomer, “The culture of caring: AIDS and the nursing profession”, in D. Nelkin, D. P. Willis & S. Parris (eds.), A disease of society: Cultural and institutional responses to AIDS, Cambridge University Press, 1991.
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Texto original recebido em: 06/03/2003;
Publicação aprovada em: 27/06/2003.

AUTOR

1 Professor e pesquisador do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro