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Artigo Original

 
Santos MES, Ogando T, Fonseca BP, Junior CEG, Barçante JMP.Ocorrência de enteroparasitos em crianças atendidas no programa de saúde da família de uma area de abrangência do município de Vespasiano, Minas Gerais, Brasil. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2006;8(1):25-9. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/revista8_1/original_03.htm.
 

Ocorrência de enteroparasitos em crianças atendidas no programa de saúde da família de uma area de abrangência do município de Vespasiano, Minas Gerais, Brasil

 

Occurrence of parasitic diseases in children assisted at the family health program of a Vespasiano city district, Minas Gerais, Brazil

 

Ocurrencia de enfermedades parásitas en niños atendidos en el programa de la salud de la familia, en area de abrangencia del municipio de Vespasiano, Minas Gerais, Brasil

 

 

Moisés E. S. SantoI, Thaia OgandoI, Bruna P. V. FonsecaI, Carmelino E. G. JúniorI, Joziana M. P. BarçanteI, II

IFASEH/Faculdade da Saúde e Ecologia Humana; Vespasiano – MG; Rua São Paulo, 958, Bairro Jardim Alterosa. Vespasiano-MG. Curso de Enfermagem

IIDepartamento de Parasitologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). jozithales@hotmail.com; jozithales@yahoo.com.br.

 

 


RESUMO

No Brasil, os grandes inquéritos coproparasitológicos foram realizados até a década de 70. Apesar disto, as parasitoses intestinais são de grande importância, uma vez que constituem graves problemas de saúde pública, contribuindo para o agravamento de problemas econômicos, sociais e médicos. Por esta razão, o presente trabalho objetivou verificar a ocorrência dos enteroparasitos mais freqüentes entre cianças (0-10 anos) cadastradas e residentes na área de abrangência do Programa de Saúde da Família (PSF) do bairro Morro Alto em Vespasiano, estado de Minas Gerais, Brasil. Foram analisados 3250 prontuários de três unidades de PSF. A ocorrência geral de enteroparasitoses foi de 18,4%, sendo que algumas crianças se apresentavam poliparasitadas. Os enteroparasitos mais frequentes foram Giardia lamblia (43%), Ascaris lumbricoides (34%) e Entamoeba coli (13%). A faixa etária de 6 a 8 anos foi a que apresentou um maior número de indivíduos parasitados. A coleta de dados para este projeto evidenciou que o município não possui levantamentos sobre a ocorrência de parasitoses, justificando com isso a importância desse estudo uma vez que seus resultados oferecem subsídios para a elaboração de políticas municipais de saúde pública voltados à infância e juventude.

Palavras-chave: Parasitoses; Saúde da Criança; Programa Saúde da Família.


ABSTRACT

The greatest copro-parasitological researches were developed until the 70´s in Brazil. In despite of the intestinal parasites are very important, because constitutes a severe problem to public health, contributing to the aggravation of the social, economical and medical problems. Thus, the objective of this study was to verify the occurrence of the most frequent enteroparasites among children (0-10 years old), in the Health Family Program (PSF) area situated in the district of Morro Alto in Vespasiano city, state of Minas Gerais,Brazil. It was analyzed 3250 handbook indexes of three PSF units. The general occurrence was 18.4% positive and some children have more than one parasite. The most founded enteroparasitos was Giardia lamblia (43%), Ascaris lumbricoides (34%) and Entamoeba coli (13%). The 6 to 8 ages shows the highest incidence of children with parasites. The data collected to this project evidenced that Vespasiano-city doesn’t have related researches to parasites, justifying the importance of this study and its results offers subsidies for elaboration of municipal public health policies for childhood and youth.

Keywords: Parasitic Diseases; Child Health (Public Health); Family Health Program.


RESUMEN

Los más extensas investigaciones de enfermedades parasitarias fueron realizadas en el Brasil hasta los años 70. Sin embargo, los parásitos intestinales son muy importantes, una vez constituyen un severo problema de Salud Pública, contribuyendo al agravamiento de los problemas sociales, económicos y médicos. Así, el objetivo de este estudio fue verificar la ocurrencia de los enfermedades parasitarias más frecuentes entre los niños (0-10 años), en el área del programa de Salud de la Familia (PSF) situada en el barrio de Morro Alto en la ciudad de Vespasiano, estado de Minas Gerais, Brasil. Fuera analizado 3250 prontuarios de tres unidades de PSF. La ocurrencia general era 18.4% positivos y algunos niños tienen más de un parásito. Los parasitas intestinales encontrados fueran Giardia lamblia (43%), Ascaris lumbricoides (34%) y Entamoeba coli (13%). Las edades de 6 a 8 años demostraron la más alta incidencia de niños con los parásitos. Los datos colectados en esto proyecto evidenciaron que la ciudad de Vespasiano no tiene estudios relacionado a los parasitas, justificando así, la importancia de este estudio y de sus resultados ofrecen subsidios para la elaboración de políticas municipales de salud pública para la niñez y la juventud.

Palabras-clave: Enfermedades Parasitarias; Salud del Niño; Programa Salud de la Familia.


 

 

INTRODUÇÃO

Parasitismo é a associação entre seres vivos, na qual existe uma unilateralidade de benefícios, sendo um dos associados prejudicado nessa relação. Desse modo, surge o parasito, agente agressor e o hospedeiro, agente que abriga o parasito (NEVES, et al, 2005).

No momento em que surge essa relação, é relevante estudar os aspectos envolvidos entre o parasito e o hospedeiro. Entre estes, a ocorrência de más instalações sanitárias e maus hábitos de higiene favorecem a ocorrência de parasitoses em determinadas regiões. Portanto, para estudar adequadamente essa distribuição geográfica, utiliza-se a epidemiologia, que é a ciência que estuda a distribuição de doenças ou enfermidades e de seus determinantes na população humana, chamados de fatores de risco, tendo como objetivo principal a explicitação de que as doenças não ocorrem por acaso ou de forma aleatória em uma comunidade (ROBBINS et al, 1996).

Com relação a estes fatores de predisposição às doenças, sabe-se que os grupos sociais economicamente privilegiados são pouco sujeitos a certos tipos de enfermidades, cuja incidência é acintosamente elevada nos grupos economicamente desprivilegiados. Os enteroparasitos, por exemplo, em sua maioria, estão associados a locais sujos, como os esgotos a céu aberto, córregos, lagoas e riachos contaminados, que podem acumular grande quantidade de dejetos e fezes eliminados por pessoas enfermas, bem como o lixo que costuma atrair numerosos insetos e roedores (NEVES et al, 2005).

Em nosso país, o número de indivíduos com algum tipo de enteroparasitose é sabidamente elevado, principalmente na população pediátrica (0-5anos) e crianças em idade escolar. Tal fato tem sido fonte de novos estudos, principalmente no campo da saúde, sob o enfoque de grupo de risco. A imaturidade imunitária deste segmento etário, sua dependência de cuidados alheios, entre outros fatores, torna-o mais suscetível a agravos de qualquer espécie (PUFFER & SERRANO, 1973). Dentro deste contexto, as infecções por parasitos intestinais são de grande importância não só pela morbidade resultante, mas também pela freqüência com que produzem déficits, que podem comprometer o desenvolvimento físico e cognitivo das crianças (FERREIRA et al, 1997; MACHADO et al, 1999; DIAS & COPELMAN, 2000; PRADO et al, 2001; SILVA & SANTOS, 2001). Desta forma, as doenças parasitárias são causas e conseqüências do subdesenvolvimento e estão normalmente ligadas ao analfabetismo, subnutrição, alienação do povo, corrupção e irresponsabilidade de políticos e empresários (ROBBINS et al, 1996).

Pesquisas populacionais sobre parasitos intestinais foram realizadas em diversas regiões do Brasil e mostram freqüências bastante diferentes, de acordo com as condições locais de saneamento e características da amostra analisada.

Segundo dados da OMS, as doenças infecciosas e parasitárias continuam a figurar entre as principais causas de morte, sendo responsáveis por 2 a 3 milhões de óbitos por ano, em todo mundo. Grande parte dessas complicações poderia ser evitada se as investigações parasitológicas não fossem tão negligenciadas em nosso país. No município de Vespasiano, por exemplo, não se conhece o perfil parasitológico da população, tampouco é sabido sobre a real prevalência de parasitos intestinais na região. A escolha do tema dessa pesquisa teve como justificativa, dois aspectos importantes, a gravidade que assumem as parasitoses intestinais na infância e o escasso estudo sobre a situação atual das enteroparasitoses.

Tendo exposto um dos principais problemas de saúde pública que acomete a população, principalmente a infantil, esta pesquisa teve o objetivo de estabelecer a ocorrência de crianças parasitadas menores de 10 anos de idade, atendidas pelo Programa de Saúde da Família Morro Alto, no município de Vespasiano, Minas Gerais.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Pesquisa descritiva na qual foram examinadas 3.250 fichas utilizadas pelos profissionais de saúde para anotação da consulta, arquivadas em prontuários de famílias cadastradas e residentes na área de abrangência do Programa de Saúde da Família do Morro Alto da Policlínica Municipal Gonçalo de Moura.

Foram coletados dados referentes às crianças com idade entre 0 e 10 anos, que consultaram em uma das três unidades do PSF Morro Alto, no período de janeiro de 2000 a janeiro de 2005. Os dados coletados foram separados e organizados de acordo com a idade das crianças (0-2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 anos).

Vespasiano localiza-se a 22 Km de Belo Horizonte e ocupa uma área de 69 Km2 e 90.000 habitantes. A rede de saúde é composta por uma policlínica central, nove unidades básicas de saúde (PSF), um centro oftalmológico, centro de referência em adolescência, Fundação Vespasianense de Saúde (Hospital-maternidade) e um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

O presente trabalho foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, da Faculdade da Saúde e Ecologia Humana (FASEH), Curso de Enfermagem.

 

RESULTADOS

O PSF Morro Alto em sua área de abrangência possui três áreas de risco (esgoto a céu aberto, sem coleta de lixo e sem água tratada) (Figura 1). Conforme estatísticas do Sistema de Informação da Atenção Básica de 2004 (SIAB-2004) da Secretaria de Saúde do Município de Vespasiano, 8,44% da população do Morro Alto não têm saneamento básico, 1,38% não fazem uso de água tratada, e 13,19% nunca freqüentaram a escola, 3,99% não tem coleta de lixo e 87,46% não possuem plano de saúde. O Morro Alto é uma área bastante carente, onde a renda da população na maioria dos casos não chega a um salário mínimo por família.

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Das 3.250 fichas existentes nas três unidades do PSF Morro Alto, foram coletadas informações de 537 fichas que faziam referência à suspeita de enteroparasitoses . A partir destas 537 fichas obteve-se uma amostra igual a 100 diagnósticos positivos, 178 crianças vermifugadas sem solicitação ou resultado de exames parasitológicos de fezes e 259 diagnósticos negativos (Tabela 1).

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A ocorrência geral neste período foi de 18,4% positivos sendo que algumas crianças se apresentavam poliparasitadas. Os enteroparasitos de maior ocorrência foram Giardia lamblia (43%), Ascaris lumbricoides (34%) e Entamoeba coli (13%) (Figura 2).

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DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

As parasitoses intestinais ainda são, infelizmente, muito comuns no Brasil e em outros países onde vigoram semelhantes condições favorecedoras, representadas, sobretudo por deficiente saneamento básico e má educação para a saúde (CORRÊA & NETO, 1990).

Para o diagnóstico dessas infecções parasitárias o exame de fezes é fundamental, de baixo custo e eficiente para a grande maioria dos enteroparasitos. O coproparasitológico suplanta os méritos pertinentes a outras táticas, calçados em subsídios imunológicos, por exemplo, devendo ser satisfatoriamente estimulado e divulgado (CORRÊA & NETO, 1990). Apesar disto, é curioso reconhecer que, apesar dessas ponderações, o exame parasitológico de fezes não tem a devida atenção merecida.

Os resultados do presente trabalho assemelham-se aos encontrados por SILVA & SANTOS (2001), na área de abrangência do Centro de Saúde Cícero Idelfonso em Belo Horizonte, onde os mesmos verificaram uma maior freqüência de parasitismo por G. lamblia (19%) e A. lumbricoides (17%).Esses parasitos são os mais fáceis de se transmitir (via oral) e os mais encontrados nas investigações de populações urbanas residentes em áreas faveladas SILVA & SANTOS (2001).

A realização deste trabalho permitiu verificar que, muitas vezes, os profissionais da saúde têm uma conduta, considerada como não sendo a mais adequada, no que tange ao procedimento de vermifugarem as crianças antes da realização do exame coproparasitológico. Esta prática, pouco correta, acaba sendo um reflexo das altas de parasitismo da população. Na tentativa de eliminar o sofrimento humano, de forma rápida, a vermifugação é feita sem o conhecimento do agente etiológico causador da enfermidade. Desta forma, o parasito pode ser eliminado com o vermífugo sem que se saiba por qual parasito as crianças estão infectadas. Esse desconhecimento a respeito da freqüência das principais parasitoses ocorrentes no município dificulta a adoação de medidas de controle específicas, fazendo com que se perpetue à presença de indivíduos parasitados.

Apesar das dificuldades encontradas, verificou-se que na área de abrangência do PSF Morro Alto existe uma maior prevalência da infecção por G. lamblia. A giárdiase é uma das causas mais comuns de diarréia entre crianças, que, em conseqüência da infecção muitas vezes apresentam problemas de má nutrição e retardo no desenvolvimento. O estreito relacionamento de crianças portadoras e crianças suscetíveis no peridomicílio, aliado ao fato de que seus folguedos são na terra e que levam a mão à boca constante mente, faz com que a faixa etária de um a dez anos apresente a prevalência muito alta (NEVES et al, 2005).

Em termos de perspectivas futuras, a avaliação desta população alvo é de suma importância para o conhecimento da real situação das enteroparasitoses no município. Além disso, a correlação entre a ocorrência de parasitos intestinais e a situação sobre o saneamento básico na área de abrangência do PSF Morro Alto, possibilitará a avaliação e a proposição de medidas adequadas de manejo e controle dos parasitos mais freqüentes na região. Somado a isto, o envio dos resultados obtidos para a Secretaria de Saúde do Município poderá contribuir para um maior engajamento entre a comunidade e o sistema local de saúde.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORRÊA, L.L; NETO, V.A. Exame Parasitológico das fezes. 5º Edição. São Paulo. Editora Sarvier .1990.

DIAS, R.M.G; COPELMAN, H. Enteroparasitoses em indivíduos de classes sociais A e B da cidade de Foz do Iguaçu – PR. IV Semana do Aparelho Digestivo: Foz do Iguaçu, PR, 08 a 12 de outubro de 2000.

FERREIRA, C.B; MARÇAL JUNIOR, O. Enteroparasitoses em escolares do distrito de Martinésia, Uberlândia – MG: Estudo Piloto. Rev. Soc. Bras. Med. Tropical. v. 30, n. 5, p. 373-377. 1997.

MACHADO, R.C et al. Giardíase e helmintíase em crianças de creches e escolas de 1º e 2º graus (pública e privada) da cidade de Mirassol – SP. Rev. Soc. Bras. Med. Tropical. v. 32, n. 6, P. 697-704. 1999.

NEVES, D.P et al. Parasitologia humana. – 11ª ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2005.

PRADO, M.S et al. Prevalência e intensidade da infecção por parasitas intestinais em crianças em idade escolar na cidade de Salvador. Rev. Soc. Med. Tropical. v. 34, n. 1, p. 99-101. 2001.

PUFFER R.R; SERRANO, C.V. Caracteristicas de la mortalidad en la niñez. Informe de la investigación interamericana de mortalidad en la niñez. Washington (DC): OPAS; 1973.

ROBBINS, S.L; COTRAN, R.S; VINAY, K; SCHOEN, F.J. Patologia Estrutural e Funcional. 5ª edição. Rio de Janeiro. Editora Guanabara Koogan, 1996.

SILVA, C.G; SANTOS, H.A. Ocorrência de parasitoses intestinais da área de abrangência do Centro de Saúde Cícero Idelfonso da Regional Oeste da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Minas Gerais. Rev. Biol. Cien. da Terra, v. 1, n.1, 2001 Disponível em: http://www.uepb.edu.br/eduep/rbct/sumarios/sumario_v1_n1.htm [Acesso em: 25 fevereiro 2006].

 

 

Texto original recebido em 25/03/2006

Aprovado para publicação em 30/04/2006

 
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