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Artigo Original

 

Fonseca KC, Barbosa MA, Silva DG, Fonseca KV, Siqueira KM, Souza MA. Credibilidade e efeitos da música como modalidade terapêutica em saúde. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2006;8(3):398-403. Available from:http://www.fen.ufg.br/revista/revista8_3/v8n3a10.htm

 

Credibilidade e efeitos da música como modalidade terapêutica em saúde

 

Credibility and music´s effect as therapeutic kind in health

 

Credibilidad y efectos de la música como modalidad terapeutica en salud

 

 

Karyne Cristine da FonsecaI, Maria Alves BarbosaII, Daniela Gonçalves SilvaIII, Keylla Virgínia da FonsecaIV, Karina Machado SiqueiraV, Marcus Antônio de SouzaVI

IAcadêmica do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás. Bolsista de iniciação científica (PIBIC / CNPq). Goiânia/GO Email: karynefonseca@gmail.com

IIEnfermeira. Professora Doutora da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás. Goiânia/GO Email: maria.malves@gmail.com

IIIAcadêmica do curso de Nutrição da Universidade Federal de Goiás. Bolsista de iniciação científica (PIBIC/CNPq). Goiânia/GO Email: danut2006@yahoo.com.br

VIMédica. Graduada pela Universidade Federal de Goiás, residente em Pediatria no Hospital Materno Infantil/GO. Goiânia/GO. Email: keymed@terra.com.br

VEnfermeira. Mestre. Professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás. Goiânia/GO. Email: karinams@fen.ufg.br

VIAcadêmico do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás. Voluntário do Núcleo de Estudos em Paradigmas Assistenciais e Terapias Alternativas – NEPATA da Faculdade de Enfermagem/UFG. Goiânia/GO.

 

 


RESUMO

Esse estudo objetivou analisar a percepção dos profissionais musicoterapeutas sobre a credibilidade e aceitação da musicoterapia por seus clientes. Trata-se de pesquisa qualitativa, desenvolvida entre agosto de 2003 e junho de 2004, em Goiânia-GO. Verificou-se que a maioria dos profissionais percebe a credibilidade de seus clientes quanto à capacidade da música em transmitir sensações agradáveis e ainda atuar de forma bastante eficaz no processo de cura de algumas enfermidades. Evidenciaram também que a musicoterapia necessita ser divulgada com maior eficácia para a população.

Palavras chave: Música; Musicoterapia; Medicina holística; Terapias alternativas; Assistência Integral à Saúde.


ABSTRACT

This article has as purpose to analise the professional´s music therapist´s perception about the credibility and approval of music therapy by their clients. It´s a qualitative research, developed in Goiânia-GO, between 2003, august and 2004, june. We verified that the professional´s majority noted their client´s credibility related to music capacity in transmitting pleasant sensations and its capacity to act in a efficient way on the healing process of some diseases. They too evidence that the music therapy needs to be published with more effectiveness for the population.

Key words: Music; Music therapy; Holistic medicine; Alternative therapies; Comprehensive health care.


RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivo analizar la percepción de los profesionales musicoterapeutas sobre la credibilidad y aceptación de la musicoterapia por sus clientes. Se trata de investigación cualitativa, desarrollada entre agosto de 2003 y junio de 2004, en Goiania – GO. Se verificó que la mayoría de los profesionales perciben la credibilidad de sus clientes cuanto a la capacidad de la música en transmitir sensaciones agradables y además actuar de forma bastante eficaz en el proceso de cura de algunas enfermedades. Se evidenciaron también que la musicoterapia necesita ser divulgada con mayor eficacia para la población.

Palabras clave: Música; Musicoterapia; Medicina holística; Terapias alternativas; Atención integral de salud.


 

 

INTRODUÇÃO

A procura por causas para as enfermidades faz parte da história humana. Na tentativa de justificar os processos patológicos, diversas teorias surgiram ao longo dos tempos e, apesar dos avanços obtidos, essas questões continuam inquietando pesquisadores e profissionais de saúde.

O binômio saúde e doença sempre desafiou a medicina em seus estudos e pesquisas. Esta que, na maioria das vezes, contentou-se em simplesmente cumprir a função de apaziguadora dos males, sem conseguir extingui-los por completo, não se deu por vencida. Em busca de mudanças, inovações e descobertas a atenção em saúde caminha ao encontro de subsídios que permitam ao ser humano viver bem, completo em si mesmo, protegido de riscos e malefícios externos (LUZ, 1997; QUEIROZ, 1991).

Atualmente, observam-se algumas discordâncias entre a Medicina denominada Clássica (ciência mais utilizada no ocidente) e a Medicina Holística (amplamente utilizada no oriente), como se fossem ciências excludentes. No entanto, a história mostra que ambas são frutos de um mesmo processo e buscam o mesmo objetivo – curar ou amenizar os males da humanidade que se diferenciam pelos contextos histórico, cultural e ideológico, nos quais estão inseridas. A medicina holística é muito mais uma redescoberta do passado do que uma abordagem inovadora. Logo, pode perfeitamente caminhar junto à medicina oficial (BARBOSA et al, 2004; QUEIROZ, 1991).

Dentre as práticas vinculadas à medicina holística, pode-se destacar a musicoterapia, que tem suas raízes na sabedoria cujas origens se perderam no tempo. É uma terapia que vem sendo utilizada há séculos, entretanto, apenas nas últimas décadas, entendida como ciência e profissão. BENENZON (1985) considera que a musicoterapia possui fundamentos científicos clínico-terapêuticos, que possibilitam estabelecer de forma clara uma metodologia de trabalho e definir técnicas possíveis de ser desenvolvidas.

Entre os estudiosos em musicoterapia podem ser destacados os argentinos Diego Schapira, que foi membro do Conselho Diretor da Federação Mundial de Musicoterapia e Rolando Benenzon, formado em Psiquiatria na Universidade de Buenos Aires, que representa a autoridade máxima em musicoterapia e sua aplicação em pacientes com autismo, coma, Alzheimer e na formação profissional. As professoras Inge Nygaard Pederson da Universidade de Alborg e também Bárbara Wheeler que veio da Universidade de Louisville tendo lecionado na Montclair State University in New Jersey. No Brasil, destaca-se a atuação de Ronaldo Pomponet Millecco na Associação de Musicoterapia do Estado do Rio de Janeiro e Lia Rejane Mendes Barcellos que foi membro do Conselho Diretor da Federação Mundial de Musicoterapia e Coordenadora da Comissão de Prática Clínica dessa Federação por dois mandatos. Bruscia descobriu a terapia da música, criando o Curso de Musicoterapia na Temple University na Filadélfia sendo atualmente uma autoridade reconhecida nesse campo de conhecimento. Even Ruud, professor do Instituto de Música e Teatro da Universidade de Oslo, destaca-se por seu trabalho interdisciplinar com musicologia e musicoterapia relacionada à Teoria didática, Educação Especial, Psicologia e Teoria Cultural. Também pode ser citada Katrina Mcferran, com doutorado na University of Melbourne, cujo interesse está dirigido à pesquisa sobre música e adolescentes, focando principalmente cuidados paliativos e desordens da alimentação (CONSERVATÓRIO BRASILEIRO DE MÚSICA, 2007).

A musicoterapia é uma terapêutica que não apenas contribui na humanização dos cuidados em saúde, mas também constitui uma forma inovadora, simples e criativa para alivio da dor, tratamento de distúrbios psicossomáticos, físicos e espirituais. Para os adeptos da musicoterapia, evidencia-se uma sensação de paz, alegria, tranqüilidade, descontração e bem estar (BACKES et al, 2003).

Os profissionais musicoterapeutas recebem uma formação diferenciada, não somente conhecimentos relacionados à teoria e performance musical, mas também em psicologia, anatomia, técnicas de pesquisa, entre outras disciplinas (ZARATE & DIAZ, 2001). Desse modo, a musicoterapia pode se tornar uma opção interessante dentro do processo de restabelecimento da saúde humana, pois interfere de forma positiva nos mecanismos biológicos, possibilitando melhor qualidade de vida para aqueles que se encontram em situação de fragilidade ou sofrimento.

“A musicoterapia é a utilização da música e/ou instrumentos musicais (som, ritmo, melodia e harmonia) pelo musicoterapeuta e pelo cliente ou grupo em um processo estruturado para facilitar e promover a comunicação, o relacionamento, a aprendizagem, a mobilização, a expressão e a organização (física, emocional, mental, social e cognitiva) para desenvolver potenciais ou recuperar funções do indivíduo de forma que ele possa alcançar uma melhor integração intra e interpessoal e consequentemente uma melhor qualidade de vida” (BACKES et al, 2003,p.39).

Atualmente, muitos trabalhos têm sido realizados no mundo inteiro sobre a utilização da musicoterapia. Essa terapia é aplicada através de métodos e técnicas musicoterápicas e suas indicações específicas, comumente presente nas pessoas portadoras de problemas de ordem mental, física, sensorial e outros. As razões de sua indicação residem no fato de que o processo musicoterápico permite o reviver de fases arcaicas do desenvolvimento da personalidade (SYDENSTRICKER,1991).

No Brasil, o trabalho da Musicoterapia vem sendo desenvolvido especialmente em escolas especiais, clínicas e hospitais psiquiátricos, centros de reabilitação, hospitais clínicos, onde profissionais musicoterapeutas têm sido requisitados para terapia de apoio, auxiliando na recuperação e manutenção do indivíduo no seu sentido amplo (BACKES et al, 2003; CHICYBAN, 1991; GALLICCHIO, 2002; LEÃO & SILVA, 2004).

Também existem pesquisas sobre a atuação da música no tratamento de doenças neurológicas como Alzheimer, Parkinson, dentre outras. Além disso, alguns estudos indicam que “ouvir música afeta a liberação de substâncias químicas cerebrais poderosas que podem regular o humor, reduzir a agressividade e a depressão e melhorar o sono” (GIANNOTTI & PIZZOLI, 2004, p.36). Na área da saúde mental, por exemplo, a utilização da música como elemento facilitador na interação do profissional de saúde junto ao cliente em sofrimento psíquico é bastante eficaz (MATEUS,1998).

Entende-se, portanto, que o estudo sobre o poder da música tem se tornado um desafio bastante relevante no meio científico e pode inferir em resultados importantes para a assistência à saúde, pois apesar desses avanços, a musicoterapia parece ainda ser contestada, por parcela da população, quanto às suas ações terapêuticas e cientificidade de seus métodos. Percebe-se ainda a falta de reconhecimento e investimentos na implantação desta modalidade terapêutica nos serviços de saúde. De acordo com (DOBRO,1998, p.02) “trata-se de um assunto controverso, com resultados ainda pouco estabelecidos em nossa população”.

Considerando esses aspectos, este estudo foi desenvolvido com o objetivo de conhecer a percepção dos profissionais musicoterapeutas sobre a credibilidade e aceitação do seu trabalho em musicoterapia junto aos usuários do serviço público de saúde.

 

METODOLOGIA

O presente estudo é de natureza descritivo-exploratória, com abordagem qualitativa, e foi desenvolvido no município de Goiânia-GO, junto a 15 musicoterapeutas. Os locais selecionados para a realização do estudo incluem quatro hospitais da rede pública de saúde, pois nestas instituições o profissional musicoterapeuta atua como voluntário ou integra o quadro de funcionários. Adotou-se como critério de inclusão dos sujeitos no estudo, a graduação do mesmo em musicoterapia, ser maior de 18 anos e dar o seu consentimento e disponibilidade em participar da pesquisa.

A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista gravada, direcionada por um roteiro com questões abertas referentes à temática em estudo. As questões voltadas aos usuários foram as seguintes: 1) Você acredita que a musicoterapia é uma modalidade terapêutica que recebe credibilidade por parte da população? 2) De acordo com sua experiência, você acha que a musicoterapia vem adquirindo maior aceitação pelas pessoas nos últimos tempos? 3) Quais os principais efeitos relatados pela população adepta a essa terapia? 4) Segundo suas percepções, de que forma a musicoterapia pode contribuir para o alcance de níveis satisfatórios de saúde?

Esse tipo de entrevista se caracteriza por qualidades tais como, enumerar de forma mais abrangente possível as questões que o pesquisador quer abordar no campo, a partir de suas hipóteses ou pressupostos, advindos, obviamente, da definição do objeto de investigação (MINAYO, 1993).

Os dados coletados foram transcritos e analisados à luz do referencial metodológico da Análise de Conteúdo, modalidade temática, proposta por (BARDIN,1977). Segundo essa autora, o tema é a unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia à leitura.

Quanto aos aspectos éticos, o projeto foi apreciado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Materno Infantil de Goiânia e recebeu parecer favorável. Além disso, todos os sujeitos do estudo foram esclarecidos quanto aos objetivos, riscos e benefícios da pesquisa e assinaram o "Termo de Consentimento Livre e Esclarecido", conforme recomendações da Resolução 196 / 96 (BRASIL, 1996).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A identificação dos temas mais incidentes nos discursos permitiu a identificação de categorias que evidenciaram, segundo a percepção de músicos e musicoterapeutas, o significado da musicoterapia, seus efeitos, credibilidade e aceitação, junto aos clientes que procuram os serviços de saúde. Essas categorias receberam as seguintes denominações: Efeitos da Música como Terapia em Saúde; Aceitação e Credibilidade; e Musicoterapia: divulgação x conhecimento.

Efeitos da Música como Terapia em Saúde

Os profissionais que promovem a terapêutica por meio da música referem efeitos interessantes sobre essa forma de aliviar ou amenizar problemas de saúde. Demonstram inclusive, a credibilidade pessoal nesta terapia ao afirmarem que membros da própria família também são usuários. Segundo BENENZON (1988), a terapia é o objetivo fundamental da Musicoterapia. Os relatos a seguir demonstram alguns dos diversos efeitos proporcionados:

“Tenho uma irmã excepcional que se trata com musicoterapia. Em particular, noto a importância dessa atividade para ela. A música lhe dá a capacidade de desenvolver o pensamento, contribui na memorização, no aprendizado da língua, além de trabalhar com a criatividade e expressão. Ela, que por suas limitações não consegue se alfabetizar, tem grande facilidade de memorizar letras de dezenas de músicas”. (E8)

“Acredito que a música é capaz de aflorar a sensibilidade, de transmitir a paz interior, e principalmente de se sentir útil. Pois a música o faz criativo e quando você cria, você se encontra. Automaticamente, encontra-se com Deus”. (E10).

A musicoterapia pode proporcionar sensações diversas no organismo humano e agir não somente de forma curativa, mas também contribuir nos processos de aprendizagem e interação. Especialmente no caso de crianças, por representar um ato criativo, a música propicia um estado de serenidade, que geralmente se manifesta mesmo quando ela se encontra em estado terminal. (GALLICCHIO, 2002)

A intervenção por meio da música pode refletir na instituição de saúde de forma positiva, proporcionado a instauração de um ambiente terapêutico, onde o cliente se sente valorizado em dimensões que normalmente não são abordadas no sistema convencional de assistência à saúde. Proporciona um clima agradável, onde os sentimentos podem ser compartilhados e questões relativas ao estado psíquico podem ser trabalhadas.

Alguns profissionais referem que a existência desse ambiente é fundamental para o cuidado humanizado em saúde, assim como, para o estabelecimento de vínculos de confiança entre o cliente, o profissional e a instituição de saúde.

“O atendimento é uma bênção, o lugar que trabalhamos é de acolhida, fica bem claro isso. A confiança que os pacientes depositam na gente, no fim é refletida de forma benéfica para a instituição". (E3)

“É uma terapia sem dor, que se inicia na aceitação, no prazer e através de momento vivido na música, estabelecendo novas formas de comunicação e vínculo, criando novas possibilidades de expressão, relacionamento e confiança” (E15).

Desse modo, entende-se que a influência da música é positiva no ambiente e contribui de forma eficaz para que as relações interpessoais estabelecidas entre profissionais e clientes se desenvolvam de forma mais saudável. “A música é uma preciosa alternativa terapêutica, capaz de modificar atitudes e comportamentos, estados de ânimo e, sobretudo, as relações interpessoais” (BACKES et al, 2003, p.42)

A musicoterapia pode ser um importante instrumento na promoção de intervenções mais humanizadas em saúde, inclusive no que diz respeito à assistência de enfermagem. “A música como terapia complementar, constitui uma forma peculiar de intervenção de enfermagem e favorece a emersão da dimensão espiritual humana negligenciada ou pouco compreendida” (DOBRO, 1998, p.134). O trecho a seguir demonstra a importância dos profissionais de saúde também valorizarem esse terapêutica:

“O fato de o profissional da enfermagem e medicina poder contar com a gente, já faz diferença para os clientes. A enfermagem pede ajuda... Isso porque têm consciência da importância da nossa ajuda....” (E6)

O interesse da enfermagem pela música enquanto um recurso para o cuidado tem aumentado, sendo constatado nos diversos estudos que demonstram suas diversas contribuições junto ao cliente como melhora na comunicação e relação enfermeiro-cliente, conforto e redução da dor (BACKES et al, 2003; BERGOLD et al, 2006; GALLICCHIO, 2002; LEÃO & SILVA, 2004).

No entanto, DOBRO (1998, p.133) refere que “a música, enquanto intervenção de enfermagem merece ser alvo de investigações futuras, pois muito ainda há por ser desvelado...”. Esse posicionamento mostra o quanto é essencial uma aproximação dos profissionais na condução desse tipo de trabalho. Os demais profissionais de saúde ao conhecer os fundamentos da musicoterapia no convívio com o musicoterapeuta, podem além de valorizar a terapêutica, aprimorar seus conhecimentos e diferenciar a utilização da música em situações específicas e pontuais, da intervenção musicoterápica propriamente dita do profissional da área.

Aceitação e Credibilidade

Foram ressaltados alguns aspectos importantes por parte dos sujeitos, no que concerne à aceitação e credibilidade da musicoterapia como modalidade terapêutica em saúde. Referem que a maioria dos usuários dos serviços de saúde é favorável à aplicação dessa terapêutica:

"Quanto à aceitação, é ótima! A gente não teve problema algum... Aliás, muito ao contrário, porque a gente não consegue cobrir o lugar que querem a gente..." (E4).

“A musicoterapia é cada dia mais aceita pela população, mesmo porque a música sempre esteve presente em nossas vidas...” (E11).

A música, aplicada como terapia em saúde, possibilita uma assistência diferenciada ao cliente, que passa a ser entendido como sujeito ativo dentro do processo saúde-doença. Além disso, a música pode proporcionar a recomposição do ser humano como um ser integral, não apenas um mecanismo biológico composto por diferentes partes. Neste sentido, BENENZON (1988) considera a musicoterapia como a técnica em saúde mais voltada à totalidade do indivíduo. BACKES et al (2003 p. 41) destaca ainda que a música pode ser “um excelente subsídio para os tempos modernos em que somos marcados pela busca de alternativas que contemplem a pessoa na sua integralidade”.

Foi possível verificar que a clientela atendida pelos profissionais participantes do estudo não recusa a musicoterapia, pois acredita que a música pode trazer benefícios tanto ao corpo, quanto à mente. Como relatado:

“A aceitação por parte de quem recebe o atendimento é 100%, a gente não foi recusado hora nenhuma. A gente nunca foi recusado por alguém que o atendimento foi proposto... E as crianças não precisam nem convidar, basta pôr o material de trabalho, o convite já é a exposição do material..." (E3)

“Todas as pessoas as quais eu atendo, possuem uma boa aceitação pela musicoterapia. Mesmo àquelas que não acreditam muito.... Sempre pensam que se não fizer bem, mal também não fará.... E acabam se divertindo e, conseqüentemente, voltando para terapia....” (E7)

Ao contrário do que acontece nas terapêuticas oferecidas pelo modelo biomédico de saúde, os benefícios provenientes da ação da musicoterapia no organismo vão além das dimensões físicas. Dessa forma, essa terapia torna-se bastante positiva, especialmente para o cliente que se encontra hospitalizado e em estado de fragilidade emocional. “A música é capaz de chamar a atenção para longe dos pensamentos que produzem a depressão e, uma vez a impressão deixada na consciência, o humor deprimido pode ser substituído” (GIANNOTTI & PIZZOLI, 2004, p.36)

Musicoterapia: Divulgação x Conhecimento

Apesar da boa aceitação demonstrada pela população que recebe alguma intervenção terapêutica por meio da música, os profissionais acreditam que ainda é necessário se divulgar melhor as teorias e mecanismos de ação que fundamentam a musicoterapia. As informações ainda são escassas junto à população, por isso se desconhece os efeitos e os possíveis benefícios que podem ser proporcionados aos usuários desta terapia.

”A população ainda não dá o devido valor terapêutico à musicoterapia. Não conhecem ainda como funciona, em que se baseia e como são os profissionais. Talvez pela pouca divulgação e esclarecimento” (E5)

“Parece até estranho, mas mesmo na faculdade a gente não vê muita divulgação do curso e sua importância. Dá uma impressão que os próprios professores não acreditam tanto na eficiência que a música tem...” (E9).

Mesmo sabendo que a musicoterapia vem se destacando na área da saúde como um importante elemento na assistência ao cliente, inclusive no processo curativo de determinadas enfermidades, alguns profissionais relatam a dificuldade de encontrarem instituições de saúde que preconizam o uso dessa terapia. Eles acreditam que a falta esclarecimento e divulgação do trabalho dos profissionais musicoterapeutas, seja relevante para dificultar o processo de expansão da terapia musical.

Diante disso, entende-se que a inserção do musicoterapeuta nas equipes multidisciplinares de saúde é algo que ainda se encontra distante da realidade da maioria das instituições. Alguns estudos relacionados a essa temática vêm sendo desenvolvidos e demonstram a necessidade da atuação desse profissional junto à equipe de saúde multidisciplinar (VON BARANOW, 2001).

A maior parte dos entrevistados sugere a inclusão da música no tratamento dos pacientes em hospitais, e refere que a universidade deve compartilhar com os profissionais a responsabilidade de divulgar informações precisas e verdadeiras sobre a musicoterapia:

“A própria graduação pode divulgar mais o trabalho oferecendo-o de forma voluntária aos mais carentes. Dessa forma, estaria ajudando a propagar a terapia e levando mais alento àqueles que tanto precisam”. (E10)

“Só o fato de estar no hospital, já é um indício para o paciente se estressar... por isso uma música que o paciente gosta, vai fazer pelo menos, ele lembrar de coisas boas. A gerência do hospital precisa entender isso!” (E1)

Apesar de serem cientificamente fundamentadas, as ações terapêuticas da musicoterapia ainda são vistas de forma duvidosa junto à população leiga. Desse modo, entende-se necessário expandir as informações sobre a cientificidade desta terapia, e, nesse processo, a participação do meio acadêmico torna-se essencial para o fortalecimento da musicoterapia.

 

CONSIDERAÇÔES FINAIS

Considerando os relatos feitos pelos profissionais musicoterapeutas que se dispuseram a participar deste estudo, foi possível verificar aspectos importantes relacionados à utilização da música como terapia complementar em saúde. Compreendemos que, a música é capaz de proporcionar ao cliente sensações de conforto, paz, tranqüilidade, confiança e amizade para com os profissionais de saúde e ainda diminuição do nervosismo, devido ao tempo de internação.

Mesmo que a musicoterapia não receba a credibilidade de alguns pacientes e parte da população leiga, a recusa pela mesma não acontece, pois, segundo os profissionais musicoterapeutas, é uma terapia sem dor e que só depende da vontade do paciente em aceitá-la ou não. Parte dos profissionais musicoterapeutas acredita que a terapia com a música necessita ser divulgada com maior consistência, permitindo que a população entenda sua verdadeira importância.

É interessante ressaltar que a falta de conhecimento da forma como a música age no organismo pode dificultar a ação dos musicoterapeutas. No entanto, os relatos dos profissionais demonstram que os usuários desta terapia vivenciam os efeitos positivos, referindo um bem-estar proporcionado pela terapia musical.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÀFICAS

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Artigo recebido em 22.09.2006

Aprovado para publicação em 29.12.2006

 
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