Artigo Original
 

Gomes VLO. A construção do feminino e do masculino no processo de cuidar crianças em creches. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2008;10(1):145-151. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v10/n1/v10n1a13.htm

 

A construção do feminino e do masculino no processo de cuidar crianças em creches

 

The construction of the feminine and masculine in the process of taking care of children in day-care centers

 

La construcción de género femenino y masculino en el proceso del cuidar a los niños en las guarderías

 

 

Vera Lúcia de Oliveira GomesI

IEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Rio Grande/RS. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Enfermagem, Gênero e Sociedade (GEPEGS). Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Criança e o Adolescente GEPESCA. E-mail: vlogomes@terra.com.br.

 

 


RESUMO

Neste estudo, com abordagem qualitativa, fundamentado na concepção de habitus do sociólogo Pierre Bourdieu, objetivou-se investigar como se constrói o feminino e o masculino no processo de cuidar crianças em uma creche do Rio Grande/RS. Após aprovação do projeto pelo comitê de ética, colheram-se os dados, nos meses de março e abril de 2006, por meio de observação registrada em diário de campo, fotografias e entrevistas com as cuidadoras. Pela análise de conteúdo, apreendeu-se que elas são afetuosas e solícitas tanto com meninos quanto com meninas. Acreditam que o cuidado de crianças é atribuição instintivamente feminina e que homens, ao quererem desempenhá-la, necessitam de aprendizado. Evidenciou-se, pelas seções observacionais e fotografias que, de forma ora evidente, ora velada, os estereótipos de gênero são inculcados nas crianças e que o processo de cuidar é constantemente por eles permeado.

Palavras chave: Cuidado à criança; Identidade de gênero; Educação infantil; Enfermagem em saúde comunitária.


ABSTRACT

In this study, which has a qualitative approach and is based on Pierre Bourdieu's conception of habitus, was aimed to investigate how the feminine and masculine genders are built in the process of taking care of children in a day-care center located in Rio Grande/RS. After submittion and approval of the project by the Ethics Committee, the data were collected during the months March and April from 2006 by observation registered in a field diary, as well as photographs and interviews with caretakers. The content analysis showed that these people are affectionate and solicitous with both girls and boys. They believe that children care is an instinctively feminine attribute, and that men need apprenticeship for this. Observations and photographs showed up that, apparently or not, gender stereotypes are fixed in children's minds, and that care process is constantly permeated by them.

Key words: Child care; Gender identity; Child Education; Community health nursing. 


RESUMEN

En este estudio, con abordaje cualitativo, fundamentado en la concepción de habitus del sociólogo Pierre Bourdieu, tuvo por objetivo investigar como se construye el género femenino y masculino en el proceso de cuidar niños en una guardería de Río Grande/RS. Después de la aprobación del proyecto por el comité de ética, se colectó los datos durante los meses de marzo y abril de 2006, por medio de observación registrada en diario de campo, fotografías y entrevistas con las cuidadoras. Por el análisis de contenido, se aprendió que ellas son afectuosas y solícitas tanto con niños cuanto con niñas. Se cree que el cuidado de niños es atribución instintivamente femenina y que los hombres, al querer desempeñarla, necesitan aprendizaje. Se evidenció, por las secciones de observación y fotográficas que de forma ora evidente, ora velada, los estereotipos de género son inculcados en los niños  y el proceso de cuidar es constantemente por ellos influenciado.

Palabras clave: Cuidando del niño; Identidad de género; Educación infantil; Enfermería en la salud comunitaria.


 

 

INTRODUÇÃO

Em conseqüência do movimento de mulheres, iniciado na década de setenta, as creches foram regulamentadas. Inicialmente vinculadas a órgãos governamentais de serviço social, realizavam, na maioria das situações, uma educação compensatória e assistencialista; dessa forma, limitavam-se a suprir a necessidade da mãe enquanto trabalhadora(1-2). Na Constituição Federal de 1988(3), o item creche, pela primeira vez, figurou no capítulo referente à Educação, ficando legalmente definida sua função educativa.

Atualmente, as creches estão normalizadas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDBEN/96, sendo apontadas como instituições que complementam a ação da família e da comunidade e têm como finalidade o desenvolvimento integral das crianças com até três anos de idade(4). Assim, estão cada vez mais tênues os limites entre a socialização primária, que ocorre na família, e a socialização secundária, que ocorre nas creches(5).

No que se refere à legislação concernente à educação infantil, cabe às Secretarias Municipais de Educação o credenciamento, a supervisão e a orientação das creches; porém, para garantir um atendimento educativo e qualificado, é necessária uma ação conjunta dos sistemas de educação, saúde e assistência social(6). A reflexão sobre a necessidade de uma educação com qualidade torna-se premente, quando se considera que, entre outras funções, “a educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum”(7).

Certamente, para se vislumbrar a possibilidade de renovação deste mundo permeado por estigmas e preconceitos que, perpetuados geração após geração, vêm cultivando iniqüidades, é necessário investir maciçamente na educação infantil com vistas a possibilitar que cada criança desenvolva plenamente seu potencial. Para tanto, é indispensável que família e Estado garantam, de fato, o direito à proteção integral definido no Estatuto da Criança e do Adolescente(8). Entre os aspectos indispensáveis à referida proteção, figura o dever do Estado em assegurar às crianças, com até três nos de idade, atendimento em creches por profissionais com formação mínima na modalidade normal(4).

No entanto, dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/IBGE em 2004 evidenciam que apenas 11,7% das crianças brasileiras nessa faixa etária freqüentam tais instituições, embora a meta estabelecida no Plano Nacional de Educação seja de que até o ano de 2011 metade dos meninos e meninas deverá freqüentá-las(9). No que se refere às(aos) profissionais que atuam em creches, entre as(os) 75.275 cadastrada(os) em 2004 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, havia 2,21% que nem sequer tinham completado o ensino fundamental(9). Tais discrepâncias permitem inferir que o cuidado às crianças em creches vem ocorrendo de forma inadequada e desigual, privilegiando, certamente, as que têm melhores condições socioeconômicas. Esse dado assume maior relevância quando se considera que “os primeiros anos da infância correspondem ao período de maior sensibilidade, quando o cérebro precisa de estímulos para criar ou fortalecer estruturas mentais, cognitivas e emocionais”(9).

Para referir-se ao aprendizado decorrente do processo de cuidar, que se efetiva nos primeiros anos de vida e talvez até mesmo desde antes do nascimento, o sociólogo francês Pierre Bourdieu utiliza a noção de habitus. Para o autor, o habitus tende “a conformar e a orientar a ação, mas, na medida em que é produto das relações sociais, ele tende a assegurar a reprodução dessas mesmas relações objetivas que o engendram”(10).

Assim, significativas diferenças na maneira de cuidar e de ser cuidada (o), constituem as estruturas da formação do habitus e tendem “a mostrar que ele é um dos fatores mais eficazes de conservação social, pois fornece a aparência de legitimidade às desigualdades sociais, e sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom natural”(11). O habitus expressa, particularmente, uma disposição, uma tendência, uma inclinação, uma propensão, uma predisposição, ou seja, uma maneira de ser, um estado habitual. De modo geral, expressa uma ação organizadora, tendo o sentido semelhante ao de uma estrutura. Assim, o habitus se constitui numa “disposição regrada para gerar condutas regradas e regulares, à margem de qualquer referência a regras; nas sociedades onde o trabalho de codificação não é muito avançado, o habitus é o princípio da maior parte das práticas”(12). Com essa concepção, pode-se apreender que por meio de condutas regradas e regulares, as crianças apreendem quase que “naturalmente”, os valores e crenças que permeiam tanto sua socialização em nível familiar quanto nas creches, inclusive aqueles marcados por estigmas e preconceitos.

Dessa forma, entre aprovações, censuras, lições de moral ou elogios, convivendo com a harmonia ou a discórdia; com a carência ou a fartura; com o conhecimento ou o desconhecimento; com o preconceito ou a cultura da tolerância, entre tantos outros extremos, a criança vai delineando suas preferências, seus valores, seus jeitos e trejeitos, enfim, seus gostos mais íntimos. Dizendo de outra forma, é no e pelo compartilhar do cuidado que família e creche transmitem, mais por vias indiretas do que diretas, o substrato para a gênese do habitus, que estará, “no princípio da percepção e da apreciação de toda a experiência ulterior”(13).

A magnitude do tempo de permanência das crianças nas creches, em muitos casos até dez horas por dia, permite avaliar seu significado na transmissão e perpetuação dos habitus. É importante reconhecer que sobre esse tempo incide ainda o projeto político-pedagógico de cada instituição, a formação pessoal e profissional dos membros da equipe, a relação creche, família e comunidade, entre outros menos relevantes.

À semelhança dos extremos que ocorrem no convívio familiar, as creches também podem desenvolver propostas educativas polarizadas. Enquanto umas inculcam em seus pequenos agentes sociais a base para a liberdade de ações, percepções e apreciações, incitando o comprometimento social e a cidadania, outras estruturam o habitus dominado, ou seja, aqueles precursores de estigmas e preconceitos como gênero, etnia e cultura(14)

Embora família e creche exerçam significativo papel na perpetuação da ordem dos gêneros, é no ambiente familiar que tem início a interiorização da divisão sexual do trabalho e que os estereótipos vão sendo inculcados. A creche contribui com a reprodução desses estereótipos, ao propiciar a inculcação de um padrão de comportamento “considerado culturalmente correto”, ou seja, de inculcar nas crianças um jeito de ser masculino e um jeito de ser feminino(15). Nesse sentido, inúmeras são as manifestações infantis relacionadas a papeis de gênero ou mesmo à sexualidade, que desencadeiam reações precipitadas e moralistas por parte dos adultos, evidenciando que esse assunto ainda é pouco trabalhado(16-17).

Num sentido mais amplo, pode-se dizer que o mundo social constrói os corpos por meio de um trabalho permanente de inculcação e nele imprime um programa de percepções, de apreciações e de ações. Nesse processo, as diferenças socialmente construídas acabam sendo consideradas naturais e, como tal, inscritas no biológico e legitimadoras de uma relação de dominação(14). Com o presente estudo pretende-se investigar como se constrói o feminino e o masculino no processo de cuidar crianças em uma creche do município do Rio Grande/RS.

 

PERCURSO METODOLÓGICO

Trata-se de um estudo exploratório descritivo, com abordagem qualitativa, realizado, durante os meses de março e abril de 2006, em uma creche da periferia do município do Rio Grande/RS.

Escolheu-se esta instituição, pois desde 1997, com ela o Curso de Graduação em Enfermagem, da Fundação Universidade Federal do Rio Grande mantém parceria para realização de atividades de ensino, pesquisa e extensão universitárias. Trata-se de uma entidade filantrópica que atende aproximadamente quarenta crianças com idades entre três e quarenta e sete meses na creche, e sessenta crianças com idades entre quatro e seis anos na pré-escola. Cabe esclarecer que há momentos em que crianças de diferentes faixas etárias compartilham o mesmo espaço físico.

Foram sujeitos do estudo três cuidadoras, identificadas por números de um a três, e todas as crianças que compareceram à creche nos dias em que se efetuou a coleta de dados, pois suas mães manifestaram concordância, assinando ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Para a coleta de dados, empregaram-se as técnicas de observação e entrevista. Para observação, optou-se pela Amostragem de Evento. Assim, observaram-se na íntegra, momentos específicos como: a troca de fraldas, a alimentação, atividades lúdicas, entre outros do cotidiano interacional de crianças e cuidadoras.

O registro das observações foi efetuado por meio de fotografias e diário de campo, elaborado ao final de cada seção observacional.

A opção por realizar entrevistas apenas com as cuidadoras decorreu da constatação de que são elas as agentes sociais que mais interagem com as crianças e, presumivelmente, exercem maior influência na formação de habitus. Como roteiro utilizaram-se questões semi-estruturadas, previamente testadas que versaram sobre as possíveis diferenças no processo de cuidar meninos e meninas, bem como da possibilidade de inclusão de homens, como cuidadores de crianças com até três anos de idade. As entrevistas foram gravadas e transcritas na íntegra.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Universidade Federal do Rio Grande pelo parecer número 23116.006632/2004-17.

A análise de conteúdo foi a técnica analítica escolhida para o tratamento dos dados, operacionalizada por meio das etapas de ordenação, classificação e análise final(18).

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Para apresentação dos resultados deste estudo, os dados foram analisados em três grupos: entrevistas, observações e fotografias. Com as entrevistas procurou-se apreender as percepções e apreciações das cuidadoras. Das observações do processo de cuidar, buscou-se identificar as ações tipificadoras de masculinidades e feminilidades. Com a análise das fotografias procurou-se selecionar dados que evidenciassem tais diferenças.

No sentido amplo, foi fácil perceber que as cuidadoras são afetuosas e solícitas tanto com meninos quanto com meninas. Questionadas sobre a possibilidade de contratação de um funcionário do sexo masculino para cuidar das crianças, uma das informantes demonstrou estranheza e mencionou:

Não é comum né?...É um tabu né?... Parece que homem não pode cuidar de criança!(Cuidadora 1)

Outra demonstrou ter interiorizado que o cuidado de crianças é atribuição nata da mulher e que o homem precisa querer desempenhar tal função. Nas concepções dessa informante, enquanto as mulheres nascem com o instinto de cuidar, os homens precisam de aprendizado e motivação.

Não é comum né? Eu acho porque a mulher já nasce com este instinto de cuidar né!...O homem não... Eu acho que até poderia ter um caso de homem cuidar de criança, mas é estranho... É diferente... Vem deles quere tomá essa posição. Eu acho que eles não procuram esse trabalho porque não têm experiência nem vontade de ficar com crianças eles acham coisa de mulher. (Cuidadora 2).

Representação semelhante pode ser apreendida de um resgate histórico acerca da inserção das mulheres no magistério. A corrente favorável apregoava que “as mulheres têm ‘por natureza’, uma inclinação para o trato com as crianças, que elas são as primeiras e ‘naturais’ educadoras. Se a maternidade é, de facto, o seu destino primordial, o magistério passa a ser representado também como uma forma extensiva de maternidade”(19). Assim, geração após geração vem se inculcando nas crianças que o cuidar é uma atividade “naturalmente” feminina.

Outra informante associa a possibilidade de homens cuidarem de crianças em creche com homossexualidade ao referir:

Na escola que eu trabalho à tarde, no ano passado tinha um estagiário e algumas pessoas rotulavam ele... Ah! um homem cuidando criança!...Não sei qual era a opção sexual dele, mas ele tinha um jeito mais delicado de ser e as pessoas já... né...De repente nem era né?... Era o jeito dele mesmo, mas as pessoas já tinham preconceito com ele. (Cuidadora 3).

A análise das seções observacionais permitiu apreender que, no processo de cuidar crianças com idade inferior a três anos, já há regras sociais que visam a preservar o culturalmente definido como adequado para meninos e adequado para meninas. Tais regras são mantidas de forma irrefletida e inquestionável. Nas situações em que não é possível adotá-las, pelo menos um comentário em tom de censura é emitido.

Menino de aproximadamente seis meses foi trazido para a creche com as unhas das mãos pintadas. Cuidadora providenciou material e, sem solicitar autorização da mãe, removeu o esmalte. Poder-se-ia pensar que tal atitude tinha como objetivo evitar a ingestão involuntária do esmalte, pois crianças nessa faixa etária freqüentemente põem a mão na boca. No entanto, inúmeras meninas em idade semelhante estavam e permaneceram com unhas pintadas.

Menino de aproximadamente 18 meses usava brincos.

Uma cuidadora, apontando discretamente para a criança, dirigiu-se para outra e mencionou:

- “Olha só..., coitadinho... Para que fazerem uma coisa dessas com a criança...”

Outra responde:

- “Ah!...Já vi...O pai dele também usa”.

É pertinente destacar que a maior parte das meninas dessa turma usava brincos e esse fato não foi sequer comentado. Certamente, porque está instituído que usar brincos “é coisa de mulher”. Assim, o questionamento acerca dos valores da família desta criança, dos critérios de beleza por eles mantido, são completamente desconsiderados, bem como é ignorado o desejo de a criança imitar pai. Nessa situação, prevalece o padrão comportamental socialmente construído, de forma que é ele que direciona as percepções, apreciações e ações das cuidadoras, ou seja, os habitus que, de forma irrefletida vão sendo inculcados nas crianças.

Por outro lado, foi possível apreender ainda que, desde os primeiros anos de vida, a divisão sexual de trabalho começa a ser inculcada nas crianças e que a creche contribui significativamente para isso.

Um menino com pouco mais de um ano de idade senta-se no chão, pega uma boneca junto ao peito e começa balançar-se ninando-a. A cuidadora comenta em tom de censura:

- “Olha só!... É assim que começa...”

Todas essas atitudes e apreciações das cuidadoras servem para ilustrar a afirmação de que “embora o mundo de hoje se apresente semeado de indícios e de signos que designam as coisas a serem feitas, ou não factíveis, desenhando, como que em pontilhado, os movimentos e deslocamentos possíveis prováveis ou impossíveis, os ‘por fazer’ ou os ‘por vir’ propostos por um universo a partir daí social e economicamente diferenciado, tais indícios ou signos não se dirigem a um agente qualquer, [...] eles se apresentam como coisas a serem feitas, naturais ou impensáveis, normais ou extraordinárias, para tal ou qual categoria, isto é, particularmente para um homem ou para uma mulher”(15).

Em relação às fotografias do cotidiano, poucos foram os aspectos referentes à construção social de gênero que puderam ser apreendidos. As manifestações de alegria ou choro, o envolvimento com as atividades propostas e até mesmo o tipo de vestuário, incluindo o colorido das roupas, são comuns a meninos e meninas. No que se refere aos adornos, os meninos são enfeitados com chaveiros em forma de corrente presa na calça e bonés, e as meninas com incontáveis bijuterias, jóias, passadores e fitas. Observa-se que alguns meninos têm a cabeça raspada quando acometidos por pediculose, o que não acontece com as meninas.

As fotografias que registraram datas festivas e eventos promovidos na instituição evidenciaram algumas tipificações de gênero. Em um desfile de fantasias, no qual as crianças escolheram as que desejaram usar, os meninos optaram por fantasiar-se de jogador de futebol, índio ou palhaço; entre as meninas observaram-se as mais diversificadas escolhas. Outro aspecto que chamou atenção foi que apenas os meninos fantasiados de índio e palhaço foram maquiados: dessa forma, a maquiagem foi o complemento da fantasia. As meninas, por sua vez, tomaram a iniciativa de fazer a própria maquiagem e mesmo aquelas sem fantasia a utilizaram.

Assim foi possível compreender que de forma ora evidente, ora velada, os estereótipos de gênero vão sendo inculcados nas crianças e que o processo de cuidar é por eles permeado. Torna-se então, indispensável uma reflexão sobre a função das creches como formadoras de habitus, pois é inegável que a trajetória de vida de inúmeras crianças será significativamente influenciada pelos cuidados que lhes forem dispensados na fase inicial de seu crescimento e desenvolvimento.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Culturalmente, desde o pré-natal, diferentes formas de aguardar o nascimento de meninos e de meninas vêm sendo vivenciadas em todos os lares, da mesma forma que marcantes diferenças podem ser apreendidas no processo de socialização de crianças em creches. Tais diferenças “naturalmente” apregoadas por uns(umas), criticadas e combatidas por outros(as), indubitavelmente deixam marcas permanentes nas crianças.

Com este estudo, não se pretendeu negar as diferenças biológicas entre meninos e meninas, nem padronizar suas roupas, seus adornos, bijuterias ou o tipo de calçado. Seria ingenuidade acreditar que essa simples conduta anularia todas as tipificações que vêm sendo inculcadas por meio do processo educativo ao longo dos tempos. Pretendeu-se apenas incitar a reflexão e uma tomada de consciência por parte dos profissionais que atuam nas creches, incluindo os(as) do campo da enfermagem, acerca da necessidade de evitar que tais diferenças desencadeiem desigualdade de direitos e deveres e que permitam a criação de opressores e oprimidas.

Pretendeu-se ainda reconhecer que as creches constituem espaços promissores para a incorporação de habitus promotores da saúde biológica, psicológica e social. Nelas, a convivência diária com a criança, incluindo os momentos de alimentação, higiene, sono, repouso, atividades lúdicas e brincadeiras, associados ao contato diário com mães, pais ou responsáveis pelas crianças, sem dúvida constituem excelente oportunidade para que cada criança aprenda o cuidado de si, o cuidar do outro, interiorize princípios de eqüidade e aprenda a conviver com a diferença de gênero, raça, credo, cultura, respeito mútuo, além de construir noções de tolerância e desejo de paz. Só assim a educação poderá servir de base para uma vida livre e plena tanto para homens quanto para mulheres.

 

REFERÊNCIAS

1. Faria ALG. Pequena infância, educação e gênero: subsídios para um estado da arte. Cadernos Pagu [Internet]. 2006 [cited 2007 nov 19];26:279-287. Available from: http://www.scielo.br/pdf/cpa/n26/30394.pdf.

2. Campos MM, Fullgraf J, Wiggers V. A qualidade da educação infantil brasileira: alguns resultados de pesquisa. Cadernos de Pesquisa [Internet]. 2006 [cited 2007 nov 19]; 36(127):87-128. Available from: http://www.scielo.br/pdf/cp/v36n127/a0536127.pdf.

3. Casa Civil (BR); Presidência da República, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Constituição Federal 1988. Brasília, 1985.

4. Casa Civil (BR); Presidência da República, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, 1996.

5. Musatti T. Modalidades e Problemas do processo de socialização entre crianças na creche. In: Bondioli A, Mantovani S. Manual de educação infantil: de 0 a 3 anos – uma abordagem reflexiva. 9 ed. Porto Alegre: ArtMed; 1998. p.189-201.

6. Craidy C, Kaercher GE. Educação infantil: pra que te quero? Porto Alegre: Artmed; 2001.

7. Arent H. A condição humana. 6 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 1993.

8. Casa Civil (BR); Presidência da República, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei Federal nº 8.069 de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, 1990.

9. Acesso e qualidade: os grandes desafios. In: Fundação das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). O direito a sobrevivência e ao desenvolvimento. Situação da Infância Brasileira 2006: Crianças de até 6 anos. Brasília: UNICEF; 2005 [cited 2006 dec 5]. p. 64-77. Available from: http://www.unicef.org/brazil/pt/Pags_001_007_Abre.pdf.

10. Ortiz R. A procura de  uma sociologia da prática. In: Ortiz R, org. Pierre Bourdieu – sociologia. São Paulo: Ática; 1994. p. 7-36.

11. Bourdieu P. Escritos de educação. 4 ed. Petrópolis: Vozes; 2002.

12. Bourdieu P. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense; 1990.

13. Bourdieu P. O campo científico. In: Ortiz R, org. Pierre Bourdieu – sociologia. São Paulo: Ática; 1994. p. 122-125.

14. Bourdieu, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; 1999.

15. Gomes VLO. A construção do feminino e do masculino no processo de cuidar crianças em pré-escolas. Texto & Contexto em Enfermagem. 2006;15(1):35-42.

16. Sayão DT. Pequenos homens, pequenas mulheres? Meninos, meninas? Algumas questões para pensar as relações entre gênero e infância. Pro-posições. 2003;14(42):67-87.

17. Finco D. Relações de gênero nas brincadeirasde meninos e meninas na educação infantil. Pro-posições. 2003;14(42):89-101.

18. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 6 ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Hucitec/Abrasco; 1999.

19. Louro GL. Currículo, Gênero e sexualidade. Porto: Porto Ed; 2000.

 

 

Artigo recebido em 12.03.07

Aprovado para publicação em 31.03.08

Licença Creative Commons A Revista Eletrônica de Enfermagem foi licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Não Adaptada.
Faculdade de Enfermagem / Universidade Federal de Goiás - Rua 227, Qd. 68, Setor Leste Universitário - Goiânia, GO, Brasil
CEP: 74605-080 - Telefone: +55 62 3209-6280 Ramal 218 - E-mail: revfen@gmail.com