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Artigo de Atualização
 

Pereira ALF, Moura MAV. Ciência, natureza e nascimento humano: interfaces com o movimento de humanização do parto. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2008;10(2):537-43. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v10/n2/v10n2a25.htm

 

Ciência, natureza e nascimento humano: interfaces com o movimento de humanização do parto

 

Science, Human Nature and Birth: interfaces with movement for humanization of childbirth care

 

Ciencia, naturaleza, e nacimiento humano: interconexiones con el movimiento por la humanización del parto

 

 

Adriana Lenho de Figueiredo PereiraI, Maria Aparecida Vasconcelos MouraII

I Doutoranda da Escola de Enfermagem Anna Nery – UFRJ; Professora Assistente do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Faculdade de Enfermagem – UERJ. Rio de Janeiro/RJ. Email: adrianalenho@uol.com.br

II Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Escola de Enfermagem Anna Nery – UFRJ. Email: maparecidavas@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

A sociedade industrial transformou a compreensão da natureza e do homem. O movimento de humanização do parto e nascimento critica o excessivo controle e intervenção desta fase do ciclo vital humano, sendo este o ponto principal de embate com a tecnociência. Este artigo busca refletir as inter-relações entre as concepções de natureza e nascimento humano decorrentes do pensamento científico na contemporaneidade e o ideário da humanização do parto e nascimento. Consideramos que o controle e artificialização da natureza interna e externa ao homem estão alicerçados sob uma racionalidade instrumental. Este processo se deu no corpo, principalmente da mulher. O movimento de humanização do parto e nascimento pode contribuir com uma reflexão ontológica da dimensão humana nas ciências da saúde, possibilitando ampliar o debate sobre a racionalidade estruturante das práticas em saúde.

Palavras chave: Ciências da saúde; Saúde da mulher; Tecnologia biomédica; Humanização da assistência; Parto humanizado.


ABSTRACT

The industrial society transformed the understanding of nature and human being. The movement for humanization of childbirth and birth care criticizes the control and intervention in this phase of human life and these are crucial aspects against the techno-science. This paper examines interrelations between conceptions of human nature and birth to result from scientific mind in contemporaneity and the humanized childbirth and birth ideary. We considered that control and artificialization of internal and external human nature are based on the instrumental rationality. This process happened in the body, especially in woman body. This movement for humanization of childbirth and birth care contributes to ontological reflection of human dimension in health sciences, making possible ample discussion about dominant rationality in health practices.

Key words: Health science; Woman’s health; Biomedical technology; Humanization of assistance; Humanizing delivery.


RESUMEN:

La sociedad industrial transformó la comprensión sobre la naturaleza y el hombre. El movimiento de la humanización del parto y del nacimiento critica lo excesivo control y intervención en esta fase del ciclo vital humano, siendo esto el punto principal del conflicto con la tecnociencia. Este artículo busca reflejar las interrelaciones entre las concepciones de naturaleza y nacimiento humano decurrente de lo pensamiento científico en la contemporaneidad y el ideario de la humanización del parto y nacimiento. Consideramos que el control y la artificialización de la naturaleza interna y externa al hombre son fundamentados en la racionalidad instrumental. Este proceso si dio en el cuerpo, principalmente de la mujer. El movimiento por la humanización del parto e nacimiento pode contribuir con una reflexión ontológica da dimensión humana en las ciencias de la salud, posibilitando ampliar o debate sobre a racionalidad estructurante das prácticas en la salud.

Palabras clave: Ciencia de la salud; Salud de la mujeres; Tecnología biomédica; Humanización de la atención; Parto humanizado.


 

 

INTRODUÇÃO

A modernidade modificou radicalmente a relação do homem com a natureza gerando transformações profundas em todos os aspectos da vida. Possibilitou a cisão entre a ordem divina e a ordem humana, assim como entre a ordem humana e a ordem natural. O termo natureza na modernidade pode designar algo que externo ao homem, o meio no qual o homem está inserido ou algo que lhe é interno, alguma “dimensão” do homem(1).

Como integrante do ciclo vital, a natureza interna do parir e do nascer humano sofreu transformações significativas a partir da racionalidade instaurada pela ciência moderna. Como todo fenômeno social e humano, o parir da mulher e o nascer da criança sofre influência do processo histórico da sociedade humana. As sociedades ocidentais industrializadas provocaram mudanças substanciais na forma pela qual ocorre o parto e nascimento(2).  

O crescente  avanço da ciência e de suas inovações e artefatos tecnológicos em todos os campos da vida humana representam a imagem cultural da contemporaneidade. No entanto, há segmentos sociais que debatem sobre os seus limites e conseqüências na vida humana e nos seus aspectos biológicos, sociais e ambientais. Estes questionamentos também se fazem presentes no ideário de humanização ao parto e nascimento. Este ideário critica a forma pela qual estes eventos da vida humana vêm sendo interpretados e atendidos nos serviços de saúde. Entre outras críticas, o excessivo controle e intervenção destes fenômenos vitais é o ponto principal de embate com a tecnociência. O parto é compreendido como um evento “natural” e fisiológico da vida reprodutiva da mulher.

Partindo da tensão entre essas diferentes perspectivas, buscamos realizar uma reflexão teórica e crítica pertinente às distinções de “natureza humana” construídas pela ciência no contexto histórico-cultural da sociedade industrial, suas influências nos conhecimentos, valores e práticas constituintes da assistência obstétrica e a relação entre estas distinções e as proposições do Movimento de Humanização do Parto e Nascimento.

 

CIÊNCIA, NATUREZA E NASCIMENTO HUMANO NA MODERNIDADE

A compreensão dos fenômenos da vida muda drasticamente com a emergência da ciência moderna. Nasce a idéia de intervir na natureza, possibilitando ao homem  conhecer, controlar e dominar os processos naturais. A modernidade também foi   influenciada pelo pensamento cartesiano, que estabeleceu o rígido determinismo da separação entre natureza (res extensa) e pensamento (res cogitans). Sob esta perspectiva que a filosofia mecanicista reconhece que o homem era constituído de duas diferentes substâncias: a mente, ou substância pensante, inextensa e indivisível, e a matéria, coisa extensa e que não pensa. Esta última, basicamente quantitativa, teoricamente explicável em leis científicas e fórmulas matemáticas(3,4).

O corpo humano, desvendado pelos renascentistas, era visto como um grande engenho cujas peças se encaixam ordenadamente. O corpo masculino era considerado o protótipo do funcionamento apropriado do corpo-máquina, enquanto o corpo feminino era visto como desviante do padrão de corpo (masculino) que, por capricho da natureza, apresentava um funcionamento defeituoso e perigoso(2).

Essa concepção do corpo feminino, como uma máquina defeituosa, constituiu a base da compreensão médica acerca da “natureza” feminina. Todo o ciclo vital da mulher passa a ser descrito como uma sucessão de fenômenos fisiopatológicos. Sob esta perspectiva, a gravidez e o parto também são interpretados como fenômenos predisponentes a manifestações mórbidas(4)

A predisposição para situações mórbidas do corpo feminino irá constituir-se no foco de atenção dos fenômenos reprodutivos, especialmente a gravidez e o parto. A racionalidade científica moderna produziu a seguinte concepção: imperfeição dos fenômenos corporais reprodutivos e, como conseqüência, a necessidade de correção dos mesmos. Esta concepção exigiu novos sistemas de ações e de técnicas, gerando uma nova ordenação espaço-temporal do cuidado ao parto e nascimento.

A modernidade está associada à crescente inovação técnica e a aceleração do tempo de produção, circulação e consumo dessas inovações, transformando a vida social como um todo. As épocas se distinguem pelas formas de fazer, isto é, pelas técnicas. Estas são o conjunto de meios instrumentais e sociais com os quais o homem realiza sua vida, produz e, simultaneamente, cria espaço(5).

O espaço é formado de objetos técnicos. Por outro lado, as técnicas participam na produção de percepção de espaço e de tempo, ditando o que deve e o que não deve se fazer, desta ou daquela forma, com este ou com aquele ritmo, segundo esta ou aquela sucessão no espaço do trabalho. Dessa forma, as técnicas possuem uma manifestação de tempo(5).

Além de materialidade e temporalidade, as técnicas expressam uma racionalidade, uma forma predeterminada de ação sobre a natureza. Elas são raciocínios materializados que estruturam tanto os sistemas de objetos quanto os sistemas de ações. Assim, possuem uma lógica inscrita que é percebida por meio das formas, conteúdos e normas que vão produzir significados e representações, que se expressam nas formas culturais de apropriação e utilização da técnica(5).

A especialização e o aprimoramento técnico das sociedades ocidentais industrializadas  ocasionaram uma crescente produção tecnológica que invadiu todos os campos da vida humana, especialmente aqueles relacionados aos cuidados de saúde. Repercute diretamente na prática assistencial médica e de enfermagem, que passou a ser cada vez mais mediatizada por instrumentais e máquinas(6). Hoje a biomedicina é uma importante força produtiva nas sociedades industrializadas. Exatamente o que caracteriza uma sociedade mais ou menos industrializada é justamente sua capacidade de inovar e de produzir recursos e produtos tecnológicos.

O processo parturitivo na sociedade industrial foi progressivamente acelerado, efetivando as formas de controle do corpo no âmbito do hospital. Tal fato pode ser constatado nas ações medicalizantes das maternidades modernas, como o uso rotineiro e indiscriminado das soluções venosas com ocitocina, acelerando o trabalho de parto, e a cesariana eletiva que suprimiu por completo o trabalho de parto.

O corpo re-produtivo da mulher e o corpo a ser produzido – o bebê – sinalizam as ocorrências deste processo em curso que, por sua vez, suscitam medidas de ajustamento. Estas medidas de decodificação e ajustamento se dão por meio das técnicas e tecnologias obstétricas, que adquiriram relevância proporcional à produção e difusão dos objetos tecnomédicos. Estes objetos passam a centralizar quase todas as ações da atenção obstétrica, constituindo-se na instrumentalização do processo de nascimento humano.

Na base ideológica dessa instrumentalização está a medicalização, que pode ser compreendida como o processo de controle social pelo qual os eventos naturais do ciclo vital e os desvios no comportamento do corpo são considerados como doenças ou desordens que se situam sob a jurisdição médica(7). Dessa forma, a medicalização da vida é um aspecto da dominação destrutiva que o desenvolvimento industrial exerce sobre a nossa sociedade(8).

Os valores sociais e culturais e as ideologias, que sustentam as estruturas sociais em um dado momento histórico, perpassam nos postulados científicos. As mudanças no papel social da mulher e as transformações da sociedade contemporânea vêm sugerindo novos estatutos no campo da saúde da mulher. A proposição feminista de autonomia do corpo feminino é contraposta nas vivências das mulheres no cotidiano dos serviços de saúde, em conseqüência das práticas e representações associadas à medicalização do corpo feminino.

Na atualidade a reivindicação feminista para o controle do corpo tem colocado claramente a ideologia da dissociação entre sexualidade e reprodução, estabelecendo prioridade para o controle de sua função reprodutiva, através da  contracepção e da luta pelo aborto legal, identificado como mecanismo “libertador” da mulher. Se de um lado, as relações sexuais aparecem como lugar privilegiado para a manifestação do igualitarismo individualista, contrapondo-se a qualquer regulamentação do prazer pessoal; de outro, são remetidas ao contexto da reprodução e da responsabilidade para com a prole, permanecendo estas questões sob a responsabilidade das mulheres(9).

A sexualidade feminina na ciência médica passa de uma visão centrada na esfera biológica para um fenômeno histórico, coletivo e relacional. Porém, os aspectos ligados à reprodução, principalmente o processo de gestar e parir, encontram-se fortemente associados a mecanismos de controle e disciplinarização do corpo. Neste sentido, há uma contradição na condição feminina na atualidade. Se de um lado, a mulher moderna pode ter o livre exercício de sua sexualidade, da experiência do gozo e da opção ou não de ser mãe; por outro, o processo parturitivo é dissociado de sua vida sexual, estando restrito a uma visão biologicista da reprodução e associado metaforicamente ao perigo e ao sofrimento(9).      

Apesar dessa dualidade entre sexualidade e parturição; prazer e sofrimento; liberdade e controle, o campo da saúde da mulher vem sendo sacudido recentemente com propostas de mudança de suas práticas. Estas estão conjugadas no movimento de humanização do parto e nascimento, que busca uma prática assistencial mais humana nos serviços de saúde.

 

A SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL: O NASCIMENTO HUMANO E SUAS INTERFACES COM A CRÍTICA À RACIONALIDADE TECNOCIENTÍFICA

Na segunda metade do século XX, muda a concepção de conceber e lidar com o nascimento na cultura européia a partir da difusão do método psicoprofilático, conhecido como “parto sem dor”. Progressivamente este ideário se dissemina dentro e fora da Europa, produzindo um número crescente de métodos e técnicas. O “nascimento sem violência” de Frederick Leboyer, que busca romper com a forma tradicional de receber o recém-nascido, e as propostas de Michel Odent, que promovem o parto de cócoras e o parto n’água, são exemplos de difusão de uma nova concepção assistencial no campo obstétrico(10).

Esse ideário encontrou interlocução com o contexto de crítica nos países de capitalismo avançado, no questionamento da divisão tradicional dos papéis sociais entre o homem e a mulher, advogando uma reestruturação ao nível do casal e propondo uma intercambialidade entre as funções femininas e masculinas. O movimento de contra-cultura buscava uma nova perspectiva entre revolução e prazer, postulando a transformação dos costumes e mentalidades, procurando, por meio da dimensão erótica dos indivíduos, a contestação ao poder instituído. Este movimento corrobora com os argumentos evocados pela percepção da dimensão sexual que constitui o processo reprodutivo humano(10).

O movimento contra-cultural foi catalizador da crise da sociedade moderna, industrial, tecnológica e consumista. Neste trilho, são propostas mudanças na relação do homem com a natureza e o transcendente. O modo de vida consumista e predatório da natureza passa a ser refutado, sendo valorizados o retorno ao “natural”, criando estatutos de uma sociedade alternativa à sociedade capitalista moderna.

Nesse projeto alternativo de sociedade, houve a importação de modelos e sistemas terapêuticos distintos da racionalidade médica ocidental. Tal movimento significava uma rejeição à medicina tecnológica, representada como antinatural e antiecológica(11). A emergência de uma nova concepção de cuidado à saúde também encontra interlocução com a crítica à medicalização do parto, relacionada com as conseqüências do uso excessivo de tecnologias no processo parturitivo fazendo com que um evento fisiológico e constituinte da função reprodutiva feminina passasse a ser concebido como potencialmente patológico(11).

O movimento do parto natural, em diferentes níveis, serviu como uma forma de crítica política e cultural dirigida às várias crises da sociedade ocidental moderna, desde o industrialismo, capitalismo e materialismo, até a urbanização e a cultura de massa. A solução destes males tem sido vista como via de retorno à “natureza”, diversamente definido como o campo, o primitivo, o espiritual e o instintivo. “Natureza” tem sido também fortemente associada a valores supostamente femininos, como o amor, cooperação e altruísmo, em oposição às qualidades destrutivas tradicionalmente associadas ao masculino(12).

Esse ideário possibilitou o questionamento do poder médico e a incorporação de outras modalidades de tecnologias de cuidado, como massagens relaxantes, uso de óleos aromáticos, hidroterapia, entre outras. Compreendendo o processo parturitivo como uma fase integrante da vida sexual e reprodutiva da mulher, foram abertos caminhos para a revalorização das profissionais marginalizadas no sistema oficial de cuidados à maternidade em nosso país, como as parteiras. Sejam aquelas advindas do sistema tradicional e popular de cuidados ou aquelas geradas a partir do sistema oficial de educação e saúde, as enfermeiras obstétricas.

Os segmentos sociais críticos à medicalização do parto e nascimento constituíram, principalmente na última década do séc. XX, o movimento de humanização do parto e nascimento no Brasil. Sob a perspectiva desenvolvida até o momento, apontamos que este movimento agrega diferentes influências no campo ideológico-cultural, talvez daí decorra a polissemia do termo humanização.

O movimento de humanização do parto e nascimento contribui para a reflexão crítica das questões relacionadas à vida humana. Em uma de suas vertentes questionadoras reside na artificialização crescente que o processo de parir e de nascer sofreu, principalmente no século XX. A tecnologia biomédica não é rejeitada, mas assume um valor secundário nas ações de saúde. A subjetividade e a intersubjetividade humana são valorizadas, assim como propõe uma reconfiguração espaço-temporal do cuidado ao parto e nascimento.

Nesse espaço-tempo humanizado, a mulher, seu cônjuge e a família vivenciam o momento do nascimento como único, singular e irrepetível. O humano é uma entidade complexa e relacional, consciência-corpo-meio (social, cultural e ambiental), que não pode ser reduzido a meros fenômenos biológicos. A liberdade, a vontade e a emoção são expressões da consciência que influenciam o parto e o nascimento. Portanto, a dimensão tempo destes fenômenos corporais é particularizada e individualizada. Não havendo complicações maternas e/ou fetais, o seu curso não é determinado pelo profissional e sim pelo conjunto de fenômenos complexos envolvidos neste processo. Desta maneira que o espaço-tempo é reconfigurado e são empreendidas mudanças tanto nas práticas profissionais quanto nos espaços assistenciais, seja nas maternidades tradicionais ou pela inserção de outros espaços, como o domicílio e as casas de parto.

Nesse contexto de mudança paradigmática do cuidado obstétrico, o papel da enfermagem tem merecido destaque no estabelecimento do cuidado humanístico nas maternidades(2). Por outro lado, em nosso país, a enfermeira obstétrica tem participado ativamente da implantação das políticas e programas de humanização nos serviços de saúde, assim como na concretização das iniciativas sociais e políticas de desospitalização da atenção ao parto e nascimento no sistema de saúde brasileiro(13).

Nessa perspectiva, o movimento de humanização contrapõe-se ao controle e  artificialização dos fenômenos naturais instaurados pela tecnociência. A partir destes dois aspectos, a racionalidade tecnocientífica criou os estatutos acerca do que é natureza humana e, por conseguinte, do processo de parir e nascer humanos; determinando, portanto, o modus operandi hierárquico, burocrático, fragmentado e objetivado das ações de saúde.

Como decorrência dessa racionalidade hegemônica, a ciência contemporânea tem apontado novas possibilidades acerca de uma questão filosófica fundamental – a concepção de homem. A tecnociência vem criando perplexidades relacionadas à robótica, cibernética, nanotecnologia, genética, entre outros campos de inovação tecnológica. O corpo aperfeiçoado por próteses, pode evoluir para um corpo híbrido, um ciborgue. Por outro lado, a reprodução humana já acontece de forma artificializada, por meio da fertilização in vitro, da gravidez de substituição com ou sem vínculo familiar e em mulheres após a menopausa(15).

Por outro lado, a crise social e ambiental desmistifica a ideologia de que a ciência é um campo autônomo e produção de conhecimento desinteressado – neutralidade. A ciência e a tecnologia têm revelado as duas faces de um processo histórico em que os interesses militares e os interesses econômicos vão convergindo até quase a indistinção. O risco de um holocausto nuclear e de uma catástrofe ecológica é cada vez mais associado ao modo de produção da ciência, produzindo perplexidade e questionamento ético sobre os seus limites e as suas finalidades(16).

Com a crise da ciência moderna surgem novos estatutos epistemológicos que prenunciam o aparecimento de uma “nova ciência”. Neste paradigma emergente não existe uma única forma de conhecimento válido, são revalorizados os conhecimentos e as práticas não hegemônicas. A luta entre o paradigma emergente e o paradigma dominante acontece em quatro espaços-tempo – doméstico, da produção, da cidadania e da mundialidade – visando a transformação social e a superação das relações assimétricas de poder presentes nestes espaços(17).

A ciência sob uma nova racionalidade emergirá da confrontação entre o paradigma dominante e o emergente nos domínios do conhecimento e subjetividade, dos padrões de transformação social, do poder e da política. A ciência que busca uma aplicação edificante de seus saberes e suas tecnologias decorrentes não pode sucumbir à lógica instrumental submetida à ordem liberalizante vigente. É nesse sentido que o movimento de humanização do parto e nascimento tem possibilidade de dar grandes contribuições.   

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ciência moderna estabeleceu compreensão do corpo humano como uma engenhosa máquina e o funcionamento do corpo feminino como imperfeito, influenciando na percepção do ciclo vital feminino como uma sucessão de fenômenos fisiopatológicos. Deste mesmo modo, que a gravidez e o parto foram interpretados como fenômenos predisponentes a manifestações mórbidas. Esta predisposição exigiu ações corretivas e de ajuste que aprimoraram os mecanismos de controle e de artificialização, constituindo na instrumentalização do processo de nascimento humano. Esta racionalidade determinou o espaço-tempo do parto nas sociedades modernas – hospitalar e tecnológico.  

Esse modo de pensar e de atuar na obstetrícia passou a ser questionada na segunda metade do século XX. Surgindo propostas do parto e nascimento como eventos de prazer e afetividade. Estas propostas encontram interlocução com o momento de crítica cultural nas sociedades ocidentais modernas e do surgimento do movimento feminista. Este questiona as assimetrias de gênero, inclusive no campo da saúde sexual e reprodutiva.

No final do século XX constitui-se o Movimento de Humanização ao Parto e Nascimento no Brasil. Este movimento busca resgatar o parto como um evento social, afetivo e familiar. As concepções introduzidas pelos movimentos sociais críticos promovem mudanças na técnica e no espaço-tempo do cuidado ao parto e nascimento.

Atualmente, os avanços científicos produzem a tecnicização da natureza interna e externa ao homem a partir de uma racionalidade instrumental da tecnociência e da premissa de neutralidade de suas tecnologias. A ciência e a tecnologia não têm valor em si mesmo, só o homem que dá valor e significado às coisas. Portanto, o conhecimento, processos e produtos decorrentes da ciência devem buscar o compromisso ético-político com o bem-estar humano.

Procuramos argumentar que o movimento de humanização do parto e nascimento transcende à mera constituição de uma proposta de mudança nos cuidados assistenciais e na relação profissional-cliente no campo da saúde, mas sua riqueza reside na possibilidade de reflexão ontológica da dimensão humana que permeia as ciências da saúde e suas tecnologias, ampliando o debate sobre a racionalidade estruturante de nossas práticas.

 

REFERÊNCIAS

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Artigo recebido em 23.08.07

Aprovado para publicação em 30.06.08

 
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