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Artigo Original
 
Fernandes NCS, Torres GV, Vieira D. Fatores de risco e condições predisponentes para úlcera de pressão em pacientes de terapia intensiva. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2008;10(3):733-46. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v10/n3/v10n3a19.htm.
 

Fatores de risco e condições predisponentes para úlcera de pressão em pacientes de terapia intensiva1

 

Risk factors and predisposing conditions to pressure ulcers in intensive care unit patients

 

Factores de riesgo y factores predisponentes a las úlceras por presión en la unidad de cuidados intensivos los pacientes

 

 

Niedja Cibegne da Silva FernandesI, Gilson de Vasconcelos TorresII, Daniele VieiraIII

IEnfermeira, Mestre em Enfermagem /UFRN, Profa. Assistente do Departamento de Enfermagem/UERN, Pau dos Ferros/RN. Avenida Amintas Barros, 3386, Lagoa Nova, Natal/RN. E-mail: niedjacibegne@hotmail.com.

IIEnfermeiro, Doutor em Enfermagem/EERP/USP, Prof. Adjunto do Departamento de Enfermagem/UFRN, Natal/RN, Docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/UFRN e Orientador da Dissertação. E-mail: gvt@ufrnet.br.

IIIAcadêmica de Enfermagem, Discente do 7o período de Graduação em Enfermagem/UFRN, Bolsista de Pesquisa PPPG/UFRN,Natal/RN. E-mail: daniele00@hotmail.com.

 

 


RESUMO

Úlceras de Pressão (UPs) são complicações em pacientes de UTIs devido a diversos fatores. Tivemos como objetivo identificar as condições predisponentes (CP), fatores intrínsecos (FI) e extrínsecos (FE) presentes nos pacientes internados nas UTIs. Estudo descritivo, longitudinal quantitativo, em UTIs de um hospital privado em Natal/RN com 40 pacientes, de abril a maio/2005. A coleta dos dados foi realizada por observação e exame físico da pele. Como resultados, temos maior ocorrência de UPs no sexo masculino (70%), após 7 dias (60%), com doenças respiratórias (42,3%) e na região sacral (40,0%) e calcâneos (36,0%). Foram diagnosticadas 25 UPs em 50,0% dos pacientes e encontrados Condições Predisponentes (CP) (anemia, hipotensão e leucocitose), Fatores Internos (FI) (força muscular diminuída, edema discreto, coordenação motora totalmente prejudicada) e Fatores Externos (FE) (tipo de colchão, posicionamento em um mesmo decúbito por >2 horas e força de cisalhamento/fricção) na ocorrência dessas úlceras. As variáveis sexo masculino (p=0,0267), sedação (p=0,0015), força de cisalhamento/fricção (p=0,0393), força de pressão (p=0,0006), agitação psicomotora (p=0,0375) e leucocitose (p=0,0285) apresentaram significância estatística. Concluímos que surgimento de UP está relacionado à multiplicidade de fatores e condições durante a internação, denotando a necessidade de avaliação clínica sistematizada contemplando a complexidade dos aspectos inerentes à assistência.

Palavras chave: Úlcera de pressão; Fatores de risco; Assistência ao paciente; Enfermagem.


ABSTRACT

Pressure ulcers (PUs) are complications in patients of ICUs due to several factors. We had intended to identify the predisposing conditions (PC), intrinsic (IF) and extrinsic factors (EF) present in hospitalized patients in ICUs. Descriptive study, longitudinal quantitative in ICUs of a private hospital in Natal / RN with 40 patients, april to maio/2005. Data collection was performed by observation and skin examination. As a result, we have higher occurrence of PUs in males (70%), after 7 days (60%), with respiratory diseases (42.3%) and in the sacral region (40.0%) and calcaneus (36, 0%). 25 PUs were diagnosed in 50.0% of patients and were found predisposing conditions (PC) (anemia, hypotension and leukocytosis), Internal Factors (FI) (decreased muscle strength, mild edema, totally impaired motor coordination) and External Factors (EF) (type of mattress, in the same decubitus position for more than 2 hours and shear / friction strength) in the occurrence of these ulcers. The variables males (p = 0.0267), sedation (p = 0.0015), the shear / friction strength (p = 0.0393), pressure force (p = 0.0006), psychomotor agitation (p = 0.0375) and leukocytosis (p = 0.0285) showed statistical significance. We concluded that the PU appearance is related to the multiplicity of factors and conditions during hospitalization, denoting the need for systematized clinical evaluation contemplating the complexity of issues involved in assistance.

Key words: Pressure ulcer; Risk Factors; Patient care; Nursing.


RESUMEN

Úlceras por Presión (UP) son formadas como complicaciones en pacientes en la Unidad Terapia Intensiva debido a factores innumerables que son expuestos. El objetivo de este estudio fue identificar condiciones de predisposición (CP), factores intrínsecos (SI) y extrínsecos (EF) presentadas en los pacientes en la Unidad de Terapia Intensiva. Investigación descriptiva, longitudinal cuantitativo, en dos Unidades de Terapia Intensiva en un hospital particular en Natal/RN con 40 pacientes, entre abril y maio/2005.  La toma de datos fue realizada por la observación y examen físico de la piel. Como resultados la ocurrencia más grande de UPs fue en los hombres (70,0%), después de siete días (60,0%), con enfermedades respiratorias (42,3%) y en la región sacra (40,0%) y talones (36,0%). Fueron diagnosticadas 25 UPs en 50% de los pacientes y encontradas condiciones predisponentes – CP (anemia, hipotensión y leucocitosis), factores internos – FI (fuerza muscular reducida, edema discreto, movilidad totalmente dañada), factores externos - FE (el tipo de colchón, la misma posición en el decubitus durante más de 2 horas, fuerza de esquileo/fricción) la ocurrencia de esas ulceras. Las variables sexo masculino (p=0,0267), sedación (p=0,0015), fuerza de esquileo/fricción (p=0,0393), fuerza de presión (p=0,0006), agitación psicomotórica (p=0,0375) e leucocitosis (p=0,0285) presentaron significancia estadística. Llegamos a la conclusión de que la aparición de UP está relacionada con la multiplicidad de factores y condiciones durante la hospitalización, que denotan la necesidad de sistematizar la evaluación clínica, contemplando la complejidad de las cuestiones involucradas en la asistencia.

Palabras clave: Úlcera por presión; Factores de riesgo; Atención al paciente;  Enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

A hospitalização em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), que atende pacientes graves ou potencialmente graves, apesar de contar com assistência médica e de enfermagem especializadas e contínuas e dispor de equipamentos diferenciados, expõe o paciente a um ambiente hostil(1).

As UPs configuram-se como uma das complicações que poderão surgir em pacientes internados nesse estilo de unidade de internação, uma vez que estes estão expostos a inúmeros fatores de risco para tal ocorrência, como: instabilidade hemodinâmica, significativa limitação da mobilidade decorrentes de patologias diversas ou seqüelas destas, estado geral comprometido, idade e condição nutricional. Todos esses fatores caracterizando um alto risco para o desenvolvimento de UP(2-3).

As úlceras por pressão (UP) são definidas como lesões cutâneas ou de partes moles, superficiais ou profundas, de etiologia isquêmica, secundária a um aumento de pressão externa, e localizam-se, usualmente, sobre uma proeminência óssea. O diagnóstico é feito por meio de métodos visuais que também classificam as úlceras em estágios, importantes na elaboração de estratégias terapêuticas. As úlceras de pressão são classificadas em níveis de I a IV, de acordo com os danos observados nos tecidos, considerando as suas estruturas, podendo envolver a pele, tecidos subcutâneos, músculos, cartilagem e até mesmo ossos(4).

As UPs se configuram como um problema sério tanto para os pacientes como para os hospitais, pois podem causar dor, desconforto e sofrimento, além do aumento da morbidade e mortalidade elevando os custos do tratamento(5).

Essas lesões constituem problemas graves e caros no cuidado prestado ao paciente, assim sendo, conhecer e entender o que são as UPs, suas causas e os fatores de risco permitem a equipe multiprofissional envolvida implementar ações efetivas de prevenção e tratamento. Todavia, devido à natureza multifatorial do problema é imprescindível a identificação precoce dos fatores de risco, como por exemplo, o tratamento das patologias de base quando presentes, a restauração e manutenção de uma nutrição adequada e a educação de pacientes e cuidadores formais e informais para o auto-cuidado(6).

Nesse sentido, percebemos que para se investigar os fatores de risco e as condições predisponentes relacionadas à ocorrência de UP em uma UTI se faz necessário uma visão sistêmica dessa complicação.

Corroborando com essa visão multifatorial para a ocorrência de UP, concordamos com estudos(4,7) que apresentam os fatores de risco para ocorrência de UP em três grupos, sendo eles as Condições Predisponentes (CP), Fatores Intrínsecos (FI) e Fatores Extrínsecos (FE), nos quais cada um desses grupos é composto por variáveis que lhe são pertinentes, o que reforça nosso entendimento sobre a multicausalidade no surgimento dessa lesão, além de possibilitar uma melhor compreensão da complexidade da associação dos referidos fatores no momento de uma avaliação clínica do paciente.

Partindo dessas considerações iniciais, este artigo, teve como objetivo verificar a existência de associação entre as condições predisponentes, fatores de risco na ocorrência de UP nos pacientes do estudo.

Sendo assim, o presente estudo teve como objetivo verificar a existência de associação entre as condições predisponentes, fatores de risco na ocorrência de UP em pacientes internados em UTI.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, com delineamento longitudinal e abordagem quantitativa, realizado em duas UTIs de um hospital privado localizado em Natal/RN, com capacidade de ocupação total de 21 leitos, destinados ao atendimento de pacientes com etiologias e condições clínicas e cirúrgicas variadas, sendo este ambiente adequado ao estudo das variáveis inerentes ao nosso objeto de estudo.

A população do estudo foi constituída por 78 pacientes acamados, de ambos os sexos, internados nas duas UTIs, no período de 04 de abril a 24 de maio de 2005. A amostra, do tipo intencional, foi constituída por pacientes admitidos nas UTIs, selecionados com base nos critérios a seguir: ter mais de 18 anos; não apresentarem úlcera de pressão no momento de admissão na UTI; permanecer internado na UTI no mínimo por 48 horas e consentir em participar da pesquisa ou ter sua participação autorizada pelo responsável.  Portanto, com base nesses critérios, foram incluídos para acompanhamento no estudo 40 pacientes de ambos os sexos durante o período previsto para coleta de dados (50 dias) e excluídos da amostra 38 pacientes, sendo 20 com permanência inferior a 48 horas, 15 que apresentavam UP na admissão nas UTIs e 3 por serem menores de 18 anos.

Foi utilizado como fonte de dados os prontuários dos pacientes selecionados, para coleta de informações inerentes à hipótese diagnóstica, idade, resultados de exames laboratoriais, registro da evolução, prescrição médica e de enfermagem. Para coletar informações relativas sobre as condições predisponentes, fatores de risco intrínsecos e extrínsecos (Quadro 1) foi utilizado um formulário estruturado (Anexo A) de avaliação de risco para UP, aplicado em outro estudo, com prévia autorização da autora(7).

quadro1

A pesquisa foi apreciada pela Comissão de Ética em Pesquisa/UFRN, obtendo parecer favorável (no 100/04).  A coleta de dados foi realizada diariamente nas UTIs nos três turnos (manhã, tarde e noite) pela equipe responsável composta pela pesquisadora e seis acadêmicas concluintes do Curso de Graduação em Enfermagem/UFRN, previamente treinadas, através de um curso de extensão teórico-prático com duração de 20 horas. 

Os dados foram obtidos por meio da técnica de observação e exame físico da pele dos pacientes buscando identificar a presença de UP. A coleta de dados em cada um dos 40 pacientes admitidos no estudo foi concluída a partir do diagnóstico das UPs no paciente, ou quando este tinha alta, transferência e óbito.

Os dados coletados foram transferidos para planilha do aplicativo Microsoft Excel 2000 XP. As informações relacionadas à caracterização dos pesquisados foram submetidos à análise estatística descritiva. Para identificação da associação dos fatores do risco de UP nos pacientes estudados, foram utilizados os testes de razão de chance (RC) e não paramétrico Qui-Quadrado (c2) no programa Statistic 5.5.

 

RESULTADOS

Dos 40 pacientes internados nas UTIs, 14 (35%) estavam na UTI 1 e 26 (65%) na UTI 2.  Destes, 21 (52,5%) eram do sexo masculino e 19 (47,5%) feminino, 34 (85,0%) com idade superior a 60 anos. O tempo de internação variou de 2 a 20 dias, com predominância de 1 a 7 dias (75,0%) seguido de 8 a 14 dias (15,0%).  Dentre as hipóteses diagnósticas de internação as mais freqüentes foram às doenças respiratórias (39,6%), cardíacas (20,8%) e neurológicas (17,0%).  

Foram diagnosticadas 25 UPs em 20 (50,0%) dos pacientes, destes 15 (75,0%) apresentaram 1 UP e 5 (25,0%) duas UPs.  A incidência de UP na UTI 1 foi de 9 (64,3%) e na UTI 2 de 11 (42,3%), não havendo diferença estatística significativa (p=0,1849) entre essas unidades pesquisadas, sendo, portanto, observada uma incidência geral de 50,0% nas duas UTIs. As localizações mais freqüentes de UP foram a região sacral com 10 (40,0%), em seguida o calcâneo com 9 (36,0%) e orelhas com 2 (8,0%).

Foram pesquisadas 32 condições predisponentes, 27 fatores intrínsecos e 29 extrínsecos, totalizando 88 variáveis. Foram identificadas 26 (81,2%) condições predisponentes, 27 (100,0%) fatores intrínsecos e 26 (89,6%) extrínsecos. Em média, cada paciente com UP apresentou 31,9 variáveis ± 6,6 e 28,3 ± 8,2 nos sem UP. As condições predisponentes e os fatores de risco intrínsecos e extrínsecos mais freqüentes nos pacientes do estudo podem ser observados nos quadros a seguir.

Dentre as condições predisponentes (Quadro 2), 22 (84,6%) estavam presentes nos pacientes com UP, média de 3,3 ± 1,5 por doente e 24 (92,3%) nos sem UP e média de 6,5 ± 1,7

quadro2

As condições mais freqüentes nos pacientes do estudo, como podemos observar no Quadro 1, foram: anemia (90,0%), hipotensão (80,0%), leucocitose (75,0%), outra doenças (HAS, ICO, PNM) com 67,5% e ansiolíticos (57,5%) nos pacientes com UP e analgésicos (57,5%) nos pacientes sem UP.

As CP menos freqüentes nos pacientes com UP foram leucopenia, doença de Alzheimer, estupor depressivo e lúpus eritematoso sistêmico com 5,0% cada uma.  Algumas CP como, hipertireoidismo, doença de Addison, síndrome de Cushing, esclerose múltipla, mal de Parkinson e depressão aguda não foram identificadas no estudo.

Quando as CP nos pacientes com e sem UP foram submetidas às diferenças de freqüências, verificamos que apenas leucocitose (p=0,0285) e agitação psicomotora (p=0,0375) mostraram diferença estatística significante, ao nível de 5,0%, em favor dos pacientes com UP, apresentando 5,0 e 5,8 vezes mais chance, respectivamente, de desenvolverem lesões com a presença dessas condições. 

Outras doenças (hipertensão, insuficiência coronariana e pneumonia, com p=0,0914) e caquexia (p=0,0789) apresentaram diferença estatística com nível de significância entre 5% e 10%, sendo, portanto, condições importantes no surgimento de UP nos pacientes do estudo. 

Com relação ao hipotireoidismo, que foi a única CP nos pacientes sem UP com nível de significância entre 5,0% e 10,0% (p=0,0789), consideramos esse achado ao acaso, portanto, irrelevante do ponto de vista estatístico, pois essa doença, enquanto CP, não previne o surgimento de UP.

Todos os 27 fatores intrínsecos investigados foram identificados, sendo 27 (100,0%) nos pacientes com UP, com média de 13,4 ± 3,4 por doente e 26 (96,3%) nos sem UP com média de 11,8 ± 4,8.

Os fatores intrínsecos mais freqüentes nos pacientes pesquisados foram: pele seca (85,0%), força e/ou massa muscular diminuída (70,0%), pele áspera (70,0%), turgor e elasticidade da pele diminuídos (65,0%), coordenação motora parcialmente prejudicada (50,0%), edema discreto (45,0%) e coordenação motora totalmente prejudicada (42,5%). Os menos freqüentes foram edema intenso (10,0%), pele úmida ou sudoréica (10,0%), relutância em tentar movimentar-se (7,5%) e anasarca (2,5%), como podemos observar no Quadro 3.

quadro3

Não foi verificada diferença estatisticamente significante, ao nível de 5%, entre os pacientes com e sem UP. Todavia, detectamos que o edema discreto (p=0,0565), apresentou nível de significância estatística entre 5,0% e 10,0%, constituindo-se, portanto, num fator de risco importante dentre os FI identificados nos pacientes com UP.

A força e/ou massa muscular diminuída (80,0%), edema discreto (60,0%), coordenação motora totalmente prejudicada (55,0%) e inabilidade total para movimentação no leito significativamente (40,0%) apresentaram uma diferença igual ou superior a 20,0% para os pacientes com UP em relação aos sem UP.

Dentre os 29 fatores extrínsecos investigados, 26 (89,6%) foram identificadas nos pacientes com UP, com média de 9,3 ± 3,0 por doente e 20 (69,0%) nos sem UP e média de 16,5 ± 4,4. Conforme observamos no Quadro 4:

quadro4

Os fatores extrínsecos mais freqüentes nos pacientes pesquisados que desenvolveram UP, como mostra o Quadro 3, foram: tipo de colchão inadequado (densidade, tempo de uso, espessura <13 cm) com 100,0%, posicionamento em um mesmo decúbito por mais de 2 horas (100,0%), força de cisalhamento/fricção (100,0%), roupas de cama com dobras deixando marcas no corpo (95,0%), presença de áreas com rubor e/ou marcas em partes do corpo (força de pressão) com 95,0%, elevação da cabeceira do leito até 30 graus e de 30 a 45 graus com 85,0% cada uma e contensão parcial de movimento (55,0%).

Esses mesmos fatores, também apresentaram predominância no conjunto dos pesquisados, contudo estiveram presentes com maior freqüência nos pacientes com úlcera, demonstrando, dessa forma, que esses fatores são imprescindíveis na avaliação de risco de UP em pacientes internados em UTI, com exceção da elevação da cabeceira do leito até 30 graus que esteve presente em 100,0% dos pacientes sem úlcera.

Os fatores extrínsecos menos freqüentes nos pacientes com UP foram repouso absoluto - prescrição médica, contensão total, restrição parcial de movimento (tração esquelética), condições de roupa de cama inadequada (restos alimentares), higiene do corporal inadequada (outros) com 2,5% cada uma.

Quando as diferenças de freqüências dos FE presentes nos pacientes com e sem UP foram comparadas, verificamos que apenas força de cisalhamento/fricção (p=0,0393) e presença de áreas com rubor e/ou marcas em partes do corpo-força de pressão (p=0,0384) mostraram diferença estatística significante, ao nível de 5,0%, em favor dos pacientes com UP, apresentando 7,9 e 4,6 vezes mais chance, respectivamente, de desenvolverem lesões com a presença desses fatores.

Embora não tenham mostrado significância estatística ao nível de 5,0%, o colchão inadequado (densidade, tempo de uso, espessura <13cm) e o posicionamento em um mesmo decúbito por mais de 2 horas (p=0,2943), merecem uma atenção especial, visto que, essas variáveis estiveram presentes em todos os pacientes que desenvolveram UP.

 

DISCUSSÃO

Corroborando com os resultados do nosso estudo(3), identificamos em pesquisa(7) realizada sobre fatores de risco para UP em pacientes acamados, a presença de condições predisponentes, como alterações hematológicas, como anemia (61,5%) e leucocitose (55,8%); alterações nutricionais (51,0%); uso de medicamentos depressores (65,4%); desorientação (46,2%) e agitação psicomotora (9,6%) foram predominantes nos pacientes com UP. O paciente com agitação psicomotora pode friccionar e pressionar o corpo repetidas vezes contra os lençóis, favorecendo, assim, a formação de UP.

Pesquisas(8-12) mostram que o desenvolvimento da UP é um produto resultante da influência de vários fatores de riscos como a perfusão tecidual, a idade, sexo, a mobilidade, a atividade, o nível de consciência, alguns medicamentos utilizados, a umidade excessiva, a nutrição, a hidratação, a fricção, o cisalhamento e algumas doenças crônicas como o diabetes melitus e doenças cardiovasculares, sendo estes mais freqüentes e importantes na gênese das UPs.

Resultados semelhantes aos nossos são descritos em estudo(4,13-14), que identificou fatores como: fricção e cisalhamento, deficiência nutricional, diminuição da mobilidade, diminuição da percepção sensorial, aumento da umidade, como sendo de risco nos pacientes com UP.

Em outro estudo com paciente de UTI realizado(7), os fatores intrínsecos mais freqüentes foram a alteração da umidade da pele (78,8%), alteração do turgor e elasticidade da pele (77,9%) e idade acima de 60 anos (61,5%).  Enquanto os fatores extrínsecos mais freqüentes foram à força de pressão no corpo-rubor (80,8%), condições inadequadas de roupa de cama (72,1%) e mobilização inadequada (67,3%).

O excesso de pressão é um fator de risco para ocorrência de UP, destacado nas pesquisas(5,7-8,15) que ressaltam o papel da força de cisalhamento e fricção, observado pelo deslocamento do tecido cutâneo, causado pela elevação da cabeceira da cama do paciente em ângulo maior que 30 graus, o que ocasiona seu deslizamento para os pés, podendo assim, deformar e lesar tecidos e, conseqüentemente, lesar músculos, vasos sanguíneos e contribuir para necrose tissular na região sacral.  Esses autores enfatizam a importância da elevação da cabeceira de cama em um ângulo de 30 graus e reposicionamento do paciente a cada duas horas como estratégia de prevenção de UP.

 

CONCLUSÃO

A multicausalidade no surgimento de UP identificada nos remete a refletir sobre a necessidade de uma avaliação clínica sistematizada do paciente que contemple a complexidade dos fatores e condições presentes durante a internação e dos aspectos relativos à responsabilidade institucional em assegurar as condições imprescindíveis para uma assistência de qualidade.

Dessa forma, compreendemos que para prestar assistência com qualidade e integralizada, baseada na concepção holística, temos que ter em mente que são vários os elementos que podem desencadear a ocorrência de UP, não dependendo, pois, unicamente dos cuidados prestados pela equipe multiprofissional, mas também, da identificação dos vários fatores que se interagem entre si, dentre os quais estão os relacionados aos pacientes e à própria instituição, como provedora de condições para prestação de cuidados.

Neste sentido, consideramos fundamental a adoção de protocolos assistenciais que contemple a magnitude desses fatores e condições identificados e discutidos, com vista a melhorar a qualidade da assistência, tornando-a mais humanizada, reduzindo as complicações decorrentes dessas lesões, o tempo de hospitalização, mortalidade, os custos terapêuticos, a carga de trabalho da equipe que presta assistência, além de representar um grande avanço na redução no sofrimento físico e emocional do paciente e seus familiares. 

 

REFERÊNCIAS

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Artigo recebido em 13.08.07

Aprovado para publicação em 30.09.08

 

 

1 Artigo extraído da dissertação de mestrado intitulada “Úlceras de pressão: um estudo com pacientes de unidade de terapia intensiva”, do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal/RN.

 

 

ANEXO A (Adaptado de Silva, 1998(7))

anexo

 
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