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Artigo Original
 

Brito RS, Oliveira EMF, Carvalho FLA. Percepção do homem sobre o pós-parto da mulher/companheira. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2008;10(4):1072-9. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v10/n4/v10n4a20.htm.

 

Percepção do homem sobre o pós-parto da mulher/companheira1

 

Men’s perception of their wife’s or companion’s postpartum

 

Percepción del hombre sobre el  posparto de la esposa o compañera

 

 

Rosineide Santana de BritoI, Eteniger Marcela Fernandes de OliveiraII, Fernanda Louise Alves de CarvalhoIII

I Enfermeira. Dra em Enfermagem, Profª. da Universidade Federal do Rio grande do Norte –Natal/RN. E-mail: rosineide@ufrn.br.

II Enfermeira, Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFRN. E-mail: etenigerm@yahoo.com.br.

III Aluna do 8º período do Curso de Graduação em Enfermagem da UFRN, bolsista PIBIC.

 

 


RESUMO

Reconhecendo a influência do parceiro no contexto da reprodução, sentimos a necessidade de investigar a percepção do homem sobre o pós-parto da mulher objetivando subsidiar a assistência de Enfermagem na área obstétrica. O estudo teve como objetivos verificar o entendimento do homem acerca do pós-parto da companheira e identificar suas atitudes nessa fase da vida do casal. Trata-se de uma investigação exploratória descritiva em uma abordagem qualitativa desenvolvida no município de Natal-RN no período de setembro a outubro de 2006, junto a 15 homens que coabitavam com suas esposas. Os depoimentos revelaram que os entrevistados vivenciam o puerpério da companheira em idade jovem, com empregos temporários ou sem carteira assinada, baixa renda salarial, união consensual e com um número pequeno de filhos. Demonstraram entender o puerpério como uma fase em que a mulher deve repousar, abster-se de esforços físicos e ser cuidada. Desenvolvem atitudes de ajuda, para com ela, os filhos e o lar. Respondendo ao nosso questionamento afirmamos que os participantes do estudo apesar de não saberem definir corretamente conforme a literatura, percebem o pós-parto como um momento que requer cuidados, atenção, repouso, abstenção de tarefas e ajuda.

Palavras chave: Paternidade; Período pós-parto; Comportamento paterno.


ABSTRACT

Recognizing the partner’s influence in the reproductive context, we felt the need to investigate men’s perception of their wife’s or companion’s postpartum in order to help nursing assistants in the field of obstetrics. The purpose of this study was to evaluate men’s understanding of their partner’s postpartum and to identify these attitudes during this phase of the couple’s lives. This is a descriptive exploratory investigation using a qualitative approach with 15 men who lived with their spouses in the city of Natal-RN, in the period September to October 2006. The reports of the subjects show that their partner’s puerperium occurs when the men are young, working at temporary or undocumented employment, earning low salaries, engaged in consensual unions and raising a small number of children. The men understood the puerperium as a phase in which the woman must rest, abstain from physical exertion and be cared for. They develop attitudes aimed at helping their partners, the children and the home environment. Although the participants of this study can not define postpartum correctly according to the literature, they perceive it as a moment that requires care, attention, rest, abstention from housekeeping.

Key words: Paternity; Postpartum period; Father behavior.


RESUMEN

Reconocida la influencia del compañero en el contexto de la reproducción, sentimos la necesidad de investigar la percepción de este sobre el  posparto de su mujer a fin de auxiliar la asistencia de la Enfermería en el área obstétrica. Tuvo como objetivos verificar el entendimiento del hombre acerca del posparto de la esposa y identificar sus actitudes en esta fase de la vida en pareja. Se trata de una investigación exploratoria-descriptiva en una abordaje cualitativa, desarrollada en Natal-RN en el período de septiembre a octubre de 2006, con 15 hombres que cohabitaban con sus compañeras. Las declaraciones revelaron que los entrevistados vivenciaban el puerperio de la esposa en la edad joven, con empleos temporarios o sin contratación formal, una renta salarial baja, en unión consensual y con un número pequeño de hijos. Demostraron entender el puerperio como una fase en que la mujer debe reposar, abstenerse de esfuerzos físicos y debe ser cuidada. Desarrollaron actitudes de ayuda hacia ella, los hijos y el hogar. Respondiendo a nuestro cuestionamiento afirmamos que los participantes, a pesar de que no supieron definir correctamente conforme la literatura, percibían el  posparto como un momento que requiere cuidados, atención, reposo, abstención de tareas y ayuda.

Palabras clave: Paternidad; Periodo de posparto; Padre comportamiento.


 

 

INTRODUÇÃO

O estudo versa sobre a percepção do homem acerca do pós-parto de sua companheira, com vistas a adquirir subsídios para a prestação de cuidados de enfermagem, coerentes com a realidade desse membro familiar, durante a fase puerperal.

O puerpério é uma fase cronologicamente variável, de duração imprecisa, que se inicia com a saída da placenta e finaliza quando a fisiologia materna volta ao estado anterior a gestação, aproximadamente seis semanas após o fenômeno parturitivo. Nesse período ocorrem todas as manifestações involutivas e de recuperação da genitália materna(1).

Vale lembrar que durante a gravidez, a mulher sofre uma série de modificações desde o momento inicial da gestação, transcorre o parto e termina quando o organismo basicamente retorna às condições pré-gestacionais. No pós-parto, o restabelecimento do seu corpo acontece não somente nos aspectos endócrino e genital, mas num todo. Isso desperta a necessidade da puérpera ser assistida de maneira holística, não excluindo o componente psíquico(2).

As modificações anatômicas e fisiológicas que ocorrem no corpo da mulher, a responsabilidade cultural e social de provir saúde, afeto e proteção ao recém-nascido, como também, a ansiedade e o medo de não desempenhar esse novo papel são fatores que contribuem para transformar o puerpério em um período extremamente complexo(3). Nessa fase, a mulher tende a tornar-se mais sensível ou até mesmo insegura. Entretanto, suas sensações podem ser minimizadas com a presença e ajuda do companheiro.

De modo geral, a gravidez, o parto e o puerpério são cercados de emoções e sentimentos que fazem a mulher necessitar de cuidado, apoio, esclarecimento e segurança para enfrentar essas etapas de forma harmônica(4), considerando que além das mudanças físicas ocorridas no seu organismo, é acometida pelas psíquicas e hormonais(5). Diante dessas acepções torna-se importante conhecer e compreender os fatores causadores de estresse no processo de parturição a fim de promover assistência obstétrica humanizada e integral.

Dada a complexidade que envolve o ciclo gravídico-puerperal, o companheiro, experienciando o fenômeno do pós-parto, vivencia situações que precisam ser consideradas com vistas a assistí-lo integralmente como membro de um núcleo familiar(5). Assim sendo, partimos do pressuposto de que o homem age de acordo com o seu entendimento acerca do puerpério, vivenciando diferentes situações junto à parceira, família e meio social.

Essa concepção é aceitável à medida que ele assume um importante papel junto a sua companheira nessa nova etapa de vida, adquirindo outras responsabilidades para com o filho e no apoio à mulher. A importância da sua participação se dá não só nas atividades do dia-a-dia, mas também no desenvolvimento psicológico do bebê(6).

Desse modo, reconhecendo a influência do companheiro no puerpério sentimos a necessidade de investigar a sua percepção sobre o pós-parto da mulher/companheira, aceitando que o termo percepção é definido como a apreensão de uma situação objetiva que não é isolada, mas baseada em sensações e acompanhada por representações, e freqüentemente, juízos(7).

Portanto, investigar os aspectos do companheiro durante o ciclo gestatório, em particular o puerpério, constitui um ponto de partida na área da Enfermagem Obstétrica, para intervir junto ao casal no sentido de minimizar dúvidas, anseios, medos e preocupações relativas ao pós-parto.   

Mediante o propósito do estudo, questionamos: Qual a percepção do homem sobre o pós-parto de sua mulher/companheira?

Na perspectiva de responder a esta indagação, percorremos os seguintes objetivos:

  • Verificar o entendimento do homem acerca do pós-parto da companheira;

  • Identificar as atitudes do homem frente ao pós-parto da companheira.

 

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Investigação de natureza exploratória descritiva, realizada em uma abordagem qualitativa. A pesquisa exploratória compreende várias fases da construção de uma trajetória de estudo, desde a escolha do tópico a ser investigado até a exploração de campo. A pesquisa qualitativa, ao trabalhar com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, corresponde a um aspecto profundo das relações humanas(8).

A pesquisa foi realizada em uma Unidade Mista de Saúde, em Natal/RN, por ser uma instituição que tem como prática a assistência ao parto de forma humanizada e, entre outras normas, preconiza a participação do acompanhante junto à mulher na sala de parto.

Fizeram parte do estudo 15 homens que se adequaram aos seguintes critérios de inclusão: deveriam coabitar com suas respectivas companheiras e residir na capital do Estado. Foram excluídos do estudo aqueles participantes que não se enquadravam nesses critérios e não aceitaram participar da pesquisa. A seleção dos participantes ocorreu através de contato direto com os mesmos, após consentimento do diretor da instituição onde foi desenvolvida a pesquisa. O número de participantes foi definido pela técnica de saturação das informações e não foi estabelecido a priori, já que trata-se de uma pesquisa qualitativa.

Os dados foram coletados entre os meses de janeiro a fevereiro de 2006, por meio de entrevista semi-estruturada, a qual constitui o procedimento mais utilizado no trabalho de campo, possibilitando ao pesquisador obter informações contidas na fala dos atores sociais(8).

Uma vez formalizada a autorização e mediante a resposta do marido abordado, foi agendada data, hora e local da entrevista, que neste caso, foram todas realizadas no alojamento conjunto, no horário de visita, ou seja, entre 15 e 16h.

A entrevista seguiu um roteiro previamente testado, constituído de duas partes: uma abordando idade, escolaridade, profissão/emprego e estado civil; e outra contendo duas perguntas orientadoras. A coleta de dados foi precedida de explicações sobre a pesquisa, seus objetivos e finalidades, buscando proporcionar confiança, deixando o sujeito a vontade para decidir sobre sua participação ou não na investigação.

Além disso, ressaltamos a voluntariedade do participante, sigilo dos depoimentos, anonimato e a utilização das respostas exclusivamente para fins científicos, estabelecendo uma relação de respeito e confiança, como preconiza a Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde. Ressaltamos que a investigação foi submetida à apreciação, com parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa da UFRN, sob número 090/06.  

Antes de procedermos com a entrevista, solicitamos ao participante sua permissão para uso do gravador. Apenas um pai fez restrição a utilização desse instrumento. A seguir, apresentamos o termo de consentimento livre e esclarecido, pedindo que o mesmo fosse lido e assinado. Nessa fase as explicações quanto aos objetivos, finalidades e importância do estudo foram reforçadas. As dúvidas surgidas restringiram-se ao significado do termo puerpério, as quais foram dirimidas.

Após assinatura do termo de consentimento, prosseguimos indagando para o entrevistado qual o seu entendimento sobre o puerpério/pós-parto de sua companheira e se participava ou não desse momento.

Enquanto o companheiro discorria acerca das perguntas feitas, o discurso era aprofundado e direcionado ao objeto de estudo, tendo-se o cuidado para não interferir na resposta e não causar bloqueios durante o depoimento.

Apesar da entrevista ter sido realizada no alojamento conjunto, não houve interferências das mulheres nas respostas dos maridos. Vale ressaltar que as mesmas demonstraram interesse quanto à participação do companheiro, incentivando-o a colaborar com o estudo.

Os depoimentos foram tratados de conformidade com os preceitos da análise de conteúdo, que compreende um conjunto de instrumentos metodológicos cada vez mais sutis em constante aperfeiçoamento que se aplica aos discursos extremamente diversificados, permitindo a interferência de outra realidade que não a das mensagens(9). A partir disso, iniciamos o tratamento dos dados de acordo com as etapas de pré-análise, codificação e categorização.

Na fase de pré-análise, à medida que eram realizadas as entrevistas, a transcrição na íntegra dos relatos gravados se processava. Logo após essa etapa, ocorreu uma leitura exaustiva dos discursos a fim de destacarmos os possíveis núcleos de sentido que foram identificados, organizados e codificados. Em seguida, procedemos com a categorização resultando em duas categorias empíricas: Entendendo o que é pós-parto e Atitudes do homem durante o resguardo de sua companheira.

A partir de então, as categorias foram identificadas e analisadas buscando relacionar as idéias dos entrevistados aos aspectos teóricos encontrados na literatura.

Durante as entrevistas, mantivemos um diário de campo com o objetivo de identificar certas atitudes, expressões e gestos que não se apresentavam nas falas. Os dados epidemiológicos como idade, estado civil, ocupação e nº de filhos foram utilizados para caracterizar os participantes.Como forma de preservar sua identidade durante o processo de análise de dados, nos referimos aos mesmos como entrevistados, adotando a identificação: Entr.1, Entr.2 e assim por diante.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Características dos participantes

Tabela 1

A maioria dos participantes da pesquisa encontrava-se em uma faixa etária de 19 a 28 anos (53,4%) demonstrando assim ser um grupo de homens jovens. De acordo com o censo estatístico de 2000, 37% de pessoas do sexo masculino estavam na faixa etária de 20 a 29 anos no bairro onde o estudo foi desenvolvido.

Quanto ao estado civil, 80% dos entrevistados mantinham uma situação estável, com uma média de quatro anos de convivência. No Brasil, este tipo de união vem crescendo. Nas últimas décadas houve um grande aumento nos casamentos consensuais, apresentando relação de forma proporcional à baixa renda e pouca escolaridade. Reportando-nos aos dados do último censo (2000), houve uma queda no total de casamentos legais, enquanto a proporção de união consensual cresceu significativamente, com destaque para a região Norte e, principalmente entre os mais jovens(10).

O número de filhos variou 01 a 04, destacando-se 01 a 02 filhos, representando 73,4%. Tal número condiz com o último censo (2000) que mostra uma redução no número de descendentes por família. Esse fato é justificado pela acelerada queda da fecundidade ocorrida no país nas últimas duas décadas(10).

A renda familiar informada pelos participantes oscilou entre um e três salários. Dentre estes, 73,2% tinha renda mensal de um a dois salários mínimos.

Em relação ao nível de estudo, 73,3% referiu o ensino fundamental incompleto, não sendo registrado nenhum analfabeto. Observamos ainda a diversidade de profissões ligadas à baixa escolaridade, como mecânico, pedreiro, pintor, carroceiro dentre outros. De acordo com as falas dos entrevistados pudemos observar que os mesmos vivenciam o puerpério da companheira em idade jovem, com empregos temporários ou sem carteira assinada, baixa renda salarial, em união consensual e com um número pequeno de filhos.

 

Análise das categorias

Abordamos neste subitem duas categorias resultantes do tratamento das falas dos depoentes: Entendendo o que é pós-parto e Atitudes do homem durante o pós-parto da companheira.

Entendendo o que é o pós-parto

Esta categoria diz respeito ao conteúdo das falas que expressam o entendimento do homem quanto ao puerpério. Para os participantes deste estudo, o pós-parto corresponde a uma fase importante na vida da mulher que requer descanso e recuperação por ter enfrentado um período de muito esforço. Consideram que nesta fase ela deve abster-se de qualquer atividade que requeira esforço físico.

Dessa forma, os entrevistados demonstram o seu entendimento sobre o puerpério como um momento de repouso exemplificado nas seguintes falas:

É um negócio importante [...] ela não pode fazer esforço nem movimento depois que tem menino, pode ficar só repousando em casa né. (Entr. 1)

É um período em que ela tá repousando, em que eu, o esposo, vou ajudar nesse período né?[...] É um período perigoso prá ela não quebrar o resguardo. (Entr.7)

É um período que precisa de repouso; de cuidado, que não pode pegar peso, fazer esforço. (Entr. 8)

Na opinião dos depoentes o repouso deve ser total, pois consideram que a esposa não está preparada fisicamente para assumir as atividades diárias do lar e cuidar dos filhos. Tal entendimento vai ao encontro da concepção de que a mulher deve respeitar o movimento de seu próprio corpo, evitando esforços desnecessários durante o puerpério(11).

De acordo com as falas dos participantes deste estudo, o pós-parto constitui uma fase em que deve ser proporcionados repouso e tranqüilidade à companheira. É um período cercado de crenças e tabus aceitos como facilitadores para uma boa recuperação após o nascimento. Dessa forma as mulheres obedecem a algumas restrições, repousando para não “quebrar o resguardo” e preservar sua integridade física e seu bem-estar(12).

A partir dessa nova realidade ocorre uma transformação no contexto familiar, baseada na cultura ou em função dos novos desafios. Os entrevistados expressam também sua concepção sobre o pós-parto como sendo um momento diferenciado e de sensibilidade, dada às condições físicas e emocionais da puérpera.

É um momento delicado na vida da mulher, que o homem tem que ter tranqüilidade e, sobretudo, respeito com a esposa[...] (Entr. 4)

[...] ela está muito sensível... é que é muito frágil né?. (Entr. 6)

É o momento que a mulher precisa mais de repouso, pois ela está “cirurgiada” e muito sensível (Entr.7)

Desse modo, os depoimentos revelam o pós-parto como um período delicado, porém riquíssimo em aprendizagens. Pais e filhos exercem a capacidade de se reconhecerem como família. Por outro lado, a mulher deve estar emocionalmente preparada para cuidar e interagir com o bebê, sentir-se fortalecida a fim de desempenhar sua função, embora se encontre fadigada e confusa(13). Vale lembrar que no contexto puerperal a fadiga pode afetar vários aspectos da vida da puérpera, na relação com o marido ou familiares, interferindo nas atividades domésticas, podendo levar a estados depressivos, como a depressão pós-parto(14). Nessa ocasião o companheiro apresenta-se como o suporte emocional que ela precisa.

Assim sendo é de fundamental importância o apoio do homem diante de novas sensações e sentimentos advindos das mudanças físicas e psíquicas ocorridas no período puerperal.

Na opinião de alguns entrevistados, o pós-parto é também um período de atenção à esposa e de cuidados com ela, de forma a preservar o seu bem estar físico e mental:

O resguardo é um negócio que tem que ter cuidado, porque todo cuidado é pouco[...] (Entr.2)

[...] Ser mais atencioso com ela, ter cuidado com ela, porque isso é uma fase, é a parte que ela mais precisa do seu parceiro, do seu companheiro de convivência, é isso. (Entr.9)

Simplesmente é um período de atenção e de cuidados com a própria saúde da mulher né?[...] (Entr.10)

O cuidado citado pelos participantes é visto no sentido de atenção para com a mulher. Entretanto esses homens não expressaram uma definição de início e término do período puerperal, como também, não demonstraram saber o seu significado real, mas referenciam os riscos e a necessidade de cuidados da esposa frente às mudanças na vida do casal.

Em geral, não só a mulher sofre alterações físicas e emocionais, mas o companheiro também vivencia certas modificações na sua rotina e no ambiente familiar, percebe que a esposa encontra-se mais sensível e procura ajudá-la de acordo com sua capacidade.

Diante disso concordamos que além dos cuidados físicos prestados à puérpera, é necessário atenção e carinho uma vez que a mãe precisa estar física e psicologicamente bem para conduzir melhor os cuidados com o bebê.

Atitudes do homem durante o pós-parto

Esta categoria trata dos depoimentos que revelaram a maneira pela qual ocorre a participação do marido no pós-parto da companheira incluindo atitudes e ações relativas à mulher, ao lar e aos filhos.

Para alguns depoentes a principal atitude adotada é de presença e ajuda, seja participando do cotidiano da esposa ou no cuidado com os filhos:

Participar, pra mim é tá ali, dando apoio a ela, dando força, o que ela precisar eu tá ali, tá junto com ela ali, pra ela não se sentir sozinha. (Entr. 9)

Participo porquê estou com ela sempre, agente tá em conjunto conversando e sabendo o que ela está precisando [...] Participo fazendo tudo que é possível. (Entr.10)

A chegada de uma criança na família gera inúmeras dificuldades e dúvidas para a mãe, principalmente quando se trata do primeiro filho(15).  Muitas vezes essas dificuldades não dizem respeito unicamente aos cuidados com o bebê, mas também com sua alimentação, conforto, insegurança sobre seu corpo e o período que está vivenciando.

Nesse cenário, o apoio à mulher deve ser dado de diversas formas tanto pelo companheiro quanto pela família e sociedade. As falas dos entrevistados levam-nos a conceber que os mesmos apóiam suas companheiras com presença e diálogo, colocando-se à disposição para ajudá-las no que for necessário.

A família, de um modo geral, participa oferecendo suporte a mulher no pós-parto, assumindo as tarefas domésticas e os cuidados com o bebê. Nesse contexto, o companheiro precisa apoiá-la e compartilhar cuidados com os filhos durante todas as fases do seu desenvolvimento(12).

O cuidado com os filhos também foi revelado nas falas dos depoentes como uma das formas de participarem do puerpério. Essa atitude é relacionada não apenas com o recém-nascido, mas também com os outros filhos do casal, na maioria das vezes voltando-se para a higiene das crianças:

[...] Dou banho nos meninos, visto a roupa, o que ela pede eu “coiso”, lavo a roupa assim, dos meninos[...] (Entr.1)

Ajudando com a criança, dar um banho no bebê, vestir uma roupinha no bebê[...] (Entr.14)

Estes depoimentos reforçam a concepção de que a participação do pai nos cuidados com os filhos vem aumentando. Neste sentido novos conceitos estão sendo formados em relação a esses pais, antes considerados desajeitados e sem preparo para os cuidados com o bebê, vêm tornando-se mais participativos e envolvidos no processo de paternidade(16-17).

É importante ressaltar que a ligação entre o pai e feto é essencial para a continuidade do vínculo após o nascimento de forma que o genitor deixa de ser um mero provedor para cuidar e acompanhar o desenvolvimento físico e emocional do filho. O pai, participando junto à mãe nos cuidados ao bebê, aproxima a família, passa a sentir-se mais útil e importante nesse momento(15)

Os depoentes também expressam auxiliar a companheira em diversas tarefas que podem não fazer parte de seu cotidiano:

[...] Assumo algumas coisas em casa, se ela não tiver condição de fazer o “cumê” eu faço, lavar uma roupa, umas fraldas, alguma coisa, varrer uma casa, fazer alimentação dela[...] (Entr. 3)

[...] Ajudando nos afazeres, né? Nos afazeres domésticos, como na alimentação, nos cuidados com o bebê[...] (Entr.7)

Ajudando nas coisas[...] lavando uma louça, varrendo uma casa, cortando uma carne. (Entr. 11)

Os homens ao tornarem-se pais fazem um movimento de aproximação do ambiente doméstico, tanto através do contato com o bebê, quanto pelos afazeres do lar(12). Essa relação dá-se pelo cuidado dos maridos para que a mulher não faça esforços no período puerperal. Assim sendo, resguardam as atividades que requerem mais força física para si. Tal atitude é compreensível ao considerarmos que em qualquer cultura os seres humanos percebem e experienciam o comportamento de cuidado dentro do seu contexto familiar(18-20).

Chama-nos atenção o fato de alguns depoentes referenciarem a palavra ajudando dando conotação de auxílio e não compartilhamento. Talvez esse fato esteja atrelado às questões que envolvem homens e mulheres enquanto gênero e co-responsabilidade nas tarefas domésticas.

A partir dessas constatações cabe-nos afirmar que os entrevistados modificam sua rotina, seu cotidiano, a fim de contribuir com a companheira neste período, assumindo tarefas que antes não eram realizadas, mas que, reconhecendo sua fragilidade no pós-parto, passam a executá-las. Além disso, procuram ouvir e atender as necessidades da parceira, reconhecendo a importância de sua participação.

 

CONSIDERAÇÔES FINAIS

Os resultados levam-nos a considerar que os entrevistados, apesar de não saberem definir o pós-parto conforme a literatura, o percebem como um período em que a mulher necessita de cuidados, atenção, repouso, ajuda, presença e abstenção de tarefas domésticas. Embora tenham referido participarem ativamente desse momento, não sabemos se na realidade isso é posto em prática. Desse modo, outros aspectos do cotidiano do homem durante o puerpério devem ser pesquisados.

O estudo teve relevância à medida que foram desvelados o entendimento e as atitudes dos depoentes durante o pós-parto da companheira. Reconhecemos que os mesmos precisam ser apoiados e compreendidos na perspectiva de dirimir os anseios e as dúvidas que perpassam as fases do ciclo gravídico-puerperal.

Assim, admitimos que o Enfermeiro assume papel preponderante por estar mais próximo da família desde o pré-natal, interagindo junto ao casal de modo a incentivar o homem a aproximar-se do contexto reprodutivo.

 

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Artigo recebido em 10.10.07.

Aprovado para publicação em 31.12.08.

 

 

1 Trabalho final de iniciação científica – PIBIC/CNPq.

 
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