Artigo Original
 
Cardoso BAP, Santos MLSC, Berardinelli LMM. A relação estilo de vida e tabagismo entre acadêmicos de enfermagem. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2009;11(2):368-74. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v11/n2/v11n2a18.htm.
 

A relação estilo de vida e tabagismo entre acadêmicos de enfermagem

 

The relation between the life style and the tobacco smoking among nursing students

 

La relación estilo de la vida y el tabaquismo entre los estudiantes de enfermería

 

 

Beatriz Azevedo Pacheco CardosoI, Mauro Leonardo Salvador Caldeira dos SantosII, Lina Márcia Miguéis BerardinelliIII

I Enfermeira. E-mail: biamorena@gmail.com.

II Enfermeiro. Doutor. Professor Adjunto. Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense e Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FE/UERJ). E-mail: mcaleo@uol.com.br.

III Enfermeira. Doutora. Professora Adjunto da FE/UERJ. E-mail: l.m.b@uol.com.br.

 

 


RESUMO

O artigo aborda a relação estilo de vida e o consumo de tabaco entre universitários de Enfermagem identificando as causas e a existência de algum tipo de influência do tabaco no futuro desses universitários. Estudo qualitativo descritivo realizado em 2007 tendo como sujeitos treze acadêmicos voluntários fumantes entre vinte e trinta e seis anos dos Cursos de Graduação da Universidade Estácio de Sá e Universidade Federal Fluminense. Para tanto foi aplicado um questionário com perguntas abertas. Na análise dos dados utilizou-se a análise de conteúdo da qual se originaram três categorias: A negação do termo ‘vício’; O cigarro como redutor de stress e O futuro do tabagista profissional de saúde. Todos os univerhsitários pesquisados negam que sejam dependentes do tabaco, não permitindo que as idéias de abandono e síndrome de abstinência estejam relacionadas ao hábito de fumar. Um grupo de estudantes não atribuiu ao cigarro qualquer influência em seu futuro, em contrapartida, outro grupo acredita que um profissional de saúde deve se preocupar com as conseqüências posteriores do cigarro. Conclui-se que o tabaco atua como forte redutor do stress gerado pelas atividades e pelo estilo de vida dos acadêmicos assumindo importância na inserção destes em seu grupo social.

Descritores: Tabagismo; Estilo de vida; Estudantes de Enfermagem.


ABSTRACT

The article discusses the relation of the life style and smoking among university students of nursing identifying the causes and the existence of some kind of influence of tobacco in these universities future. Descriptive qualitative study conducted in 2007 with thirteen academic subjects as volunteers smokers between twenty and thirty-six years old from courses at the “Estácio de Sá University” and “Federal Fluminense University”. In order to it was applied a questionnaire with open questions. In the data analyzing using the analysis of the content of which arose three categories: Denial of the term 'addiction'; the cigarette as a reducer of stress and Future of smokers’ health care professional. All university students surveyed deny that they are addicted to tobacco and not allow thoughts of abandonment and abstinence syndrome are related to the habit of smoking. A group of students don’t assign to the cigarette influence on their future, on the other hand, another group believes that a health professional should be concerned with the later consequences the cigarette. It was concluded that tobacco serves as a strong reducer of stress generated by activities and by the lifestyle of academics assuming importance in the integration of these in their social group.

Descriptors: Smoking; Life Style; Students, Nursing.


RESUMEN

El artículo analiza la relación estilo de vida y el hábito de fumar entre los estudiantes universitarios de Enfermería identificando las causas y la existencia de algún tipo de influencia del tabaco en el futuro de estos estudiantes. Estudio cualitativo descriptivo realizado en 2007 tiendo como sujeto trece académicos voluntarios fumadores entre veinte y treinta y seis años de los cursos de Enfermería en la Universidade Estácio de Sá y la Universidade Federal Fluminense. Para ello se aplicó un cuestionario con preguntas abiertas. Al analizar los datos he sido utilizada la análisis de contenidos de la que surgieron tres categorías: La negación del término "vicio"; El cigarrillo como un reductor del estrés y el futuro de los fumadores profesional de la salud. Todos los universitarios pesquisados negan que sean dependientes del tabaco no permitiendo que las ideias de abandono y síndrome de abstinencia estean relacionadas con el hábito de fumar. Un grupo de estudiantes no he asignado cualquier influencia de cigarrillos sobre su futuro, por otro lado, otro grupo cree que un profesional de la salud debe se preocupar con las consecuencias posteriores del cigarrillo. Se llegó a la conclusión de que el tabaco actúa como un fuerte reductor del estrés generado por las actividades y por el estilo de vida de los académicos tiendo importancia en la inserción de estos en su grupo social.

Descriptores: Tabaquismo; Estilo de vida; Estudiantes de enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

O jovem em idade universitária sofre profundas mudanças da vida que envolve aspectos diferentes, tais como: a escolha de uma carreira profissional, um processo de socialização totalmente diferenciado do mantido até então, o que pode envolver o afastamento da família e uma intensa sensação de liberdade e autonomia; o início de uma construção de futuro seguindo as perspectivas idealizadas, e ainda outros fatores, como o fato de não mais ser visto pela sociedade como um adolescente e sim como um adulto com responsabilidades financeiras e sociais.

Todas essas alterações influenciam de forma direta o estilo de vida dos universitários, além dos hábitos adquiridos e/ou consolidados, inclusive o tabagismo.

O tabagismo é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a principal causa de morte evitável em todo o mundo. A OMS estima que um terço da população mundial adulta, isto é, um bilhão e 200 milhões de pessoas (entre as quais 200 milhões de mulheres), sejam fumantes(1).

Pesquisas comprovam que aproximadamente 47% de toda a população masculina e 12% da população feminina no mundo fumam. Enquanto nos países em desenvolvimento os fumantes constituem 48% da população masculina e 7% da população feminina, nos países desenvolvidos a participação das mulheres mais do que triplica: 42% dos homens e 24% das mulheres têm o comportamento de fumar(1).

As situações de entrada na universidade, afastamento da família, a ligação com novas amizades fazem parte de uma fase de mudanças que podem colocar o jovem em maior risco para o uso de substâncias, por pressão dos amigos ou pela aquisição de independência(2).

Neste sentido, os acadêmicos de enfermagem diante de seus conhecimentos adquiridos ao longo do curso e também por meio das constantes campanhas oferecidas ao público pelo Ministério da Saúde relacionado ao tabaco, estão conscientes dos malefícios do tabagismo.

O inquérito atual realizado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) a despeito do Dia Nacional do Combate ao Fumo chamado “Vigilância de Tabagismo em Universitários da Área da Saúde” feito com estudantes do terceiro ano da graduação de quatro áreas: enfermagem, odontologia, farmácia e medicina, totalizando 3.189 universitários de estabelecimentos de ensino públicos e particulares nas cidades de Campo Grande, Florianópolis, João Pessoa e Rio de Janeiro, sendo: 1.113 do curso de medicina; 1.596, de enfermagem; 227, de odontologia; e 253, de farmácia ressaltando que na maioria das cidades, o inquérito foi feito ao longo de 2006(3).

No estudo foi realizado um censo entre os estudantes universitários dos cursos pesquisados, com exceção do Rio de Janeiro, onde foi feita uma amostra representativa dos estudantes de enfermagem.

O estudo evidenciou que o tabaco também é consumido pelos universitários sob várias formas além do cigarro. Entre os universitários que se dizem fumantes de outros produtos, o mais freqüentemente apontado foi o narguilé, um cachimbo com água, utilizado para fumar(3).

Outro dado importante é de que apesar de serem da área da saúde e com maior acesso à informação sobre os efeitos do tabagismo sobre a saúde, a pesquisa demonstra que o maior e menor percentual na prevalência de fumantes foi encontrado no curso de odontologia: 21,2% em Campo Grande, e 4,1% em Florianópolis. No Rio de Janeiro, por exemplo, 16,5 dos estudantes de medicina se declararam fumantes(3).

Em relação ao respeito às leis de fumar em ambientes fechados ficou constatado que entre os universitários fumantes, muitos afirmam fumar dentro dos ambientes fechados dos seus estabelecimentos de ensino. O maior percentual está entre os futuros enfermeiros de Campo Grande, 27%(3).

O Serviço Nacional de Saúde dos Estados Unidos mostrou que entre os 70% dos adolescentes que começam a fumar, 25% passam rapidamente a fumar todos os dias. O uso das demais drogas nessa população declina com a idade, mas isto não acontece com o tabaco. A idade média de início de consumo é 13-14 anos nos EUA e no Brasil, mas a vulnerabilidade para dependência não está relacionada apenas à idade(4).

Dados sobre a influência do tabagismo em adolescentes e adultos jovens na pesquisa sobre o Inquérito Domiciliar sobre Comportamentos de Risco e Morbidade Referida de Doenças e Agravos Não Transmissíveis realizado em 2002 e 2003 considerando a prevalência de experimentação e uso de cigarro entre jovens entre escolares de 12 capitais brasileiras a prevalência da experimentação nessas cidades variou de 36 a 58% no sexo masculino e de 31 a 55% no sexo feminino, enquanto a prevalência de escolares fumantes atuais variou de 11 a 27% no sexo masculino e 9 a 24% no feminino(5).

Em relação ao impacto ao comportamento de fumar e a indústria do tabaco tem utilizado de fontes importantes como a mídia para provocar o aumento do consumo e de certa forma induzir a dependência “a estratégia de comercialização da indústria fumageira tem como conseqüência, no jovem, a dependência precoce, mantendo, assim, um volume alto de consumo por um período de no mínimo 25 anos e, na mulher, colocando o cigarro como símbolo de emancipação e independência(6).

De acordo com a Organização Mundial de Saúde(7), o fumante pode ser classificado em duas categorias: fumante diário ou habitual, quando fuma diariamente, mesmo que eventualmente passe um dia sem fumar; e fumante ocasional, quando fuma socialmente ou em determinadas situações.

O tabagismo gera uma perda mundial de 200 bilhões de dólares por ano, sendo que a metade dela ocorre nos países em desenvolvimento. Este valor, calculado pelo Banco Mundial, é o resultado da soma de vários fatores, como o tratamento das doenças relacionadas ao tabaco, mortes de cidadãos em idade produtiva, maior índice de aposentadorias precoces, aumento no índice de faltas ao trabalho e menor rendimento produtivo(8).

O presente estudo tem como objetivo avaliar as possíveis relações entre o estilo de vida e o uso de tabaco por jovens universitários do Curso de Graduação em Enfermagem na faixa etária de 20 a 36 anos idade. O interesse em tal tema surgiu a partir da observação, por parte dos autores, da existência de um número expressivo de jovens universitários fumantes, em cursos da área de saúde, o que causa estranheza, pois seria de esperar que tais pessoas buscassem maior cuidado com a própria saúde, visto que as informações sobre os riscos e malefícios do tabagismo são mais acessíveis a elas.

 

METODOLOGIA

Estudo qualitativo descritivo no qual os sujeitos do estudo foram adultos jovens na faixa etária de 20 a 36 anos, de ambos os sexos, todos universitários matriculados regularmente em cursos de graduação em Enfermagem na Universidade Federal Fluminense e na Universidade Estácio de Sá, independentemente do período do curso, fumantes e recrutados dentro das salas de aulas. Em relação às questões éticas os participantes foram informados sobre a pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Antônio Pedro (nº de protocolo 217/06).

Desta forma, participaram do estudo treze acadêmicos de Enfermagem fumantes, dos quais seis da Universidade Federal Fluminense e sete da Universidade Estácio de Sá, todos voluntários, abordados em sala de aula durante um intervalo de tempo concedido pelo professor que ministrava a aula ou durante o intervalo compreendido entre aulas de diferentes disciplinas.

O estudo foi realizado no período de março a agosto no ano de 2007 em dois cenários: na Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Rio de Janeiro e na Faculdade de Enfermagem da Universidade Estácio de Sá, Niterói, Rio de Janeiro.

Como instrumento de coleta de dados foi utilizado um questionário com onze perguntas abertas que versavam sobre o tempo de fumante; a idade e como começou a fumar; a freqüência de fumar; a importância do tabaco na vida do acadêmico; e a relação entre o estilo de vida e o tabagismo, e quatro perguntas fechadas com informações sociais como: gênero, idade, universidade e período.

A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de análise de conteúdo que tem por objetivo “compreender criticamente o sentido das comunicações, seu conteúdo manifesto ou latente, ou significações explícitas ou ocultas”(9).

Para a melhor compreensão dos dados obtidos foram divididos em categorias. Cada discurso dos depoentes foi examinado minuciosamente e, a partir da leitura flutuante, as categorias foram definidas baseadas na repetição de algumas falas. Neste sentido, emergiram três categorias. São elas: A negação do termo “Vício”, O cigarro como redutor do stress e O futuro do tabagista profissional de saúde.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Este estudo procura conscientizar os futuros profissionais para o fato de que precisam ser congruentes em relação aos cuidados e tratamentos que prescreverão aos seus futuros pacientes e aos cuidados que têm com a própria saúde, visto que a relação de confiança entre profissional-cliente pode ser afetada, o que poderia de alguma forma, influenciar a adesão do paciente ao tratamento proposto.

Os resultados foram obtidos a partir dos perfis dos diferentes acadêmicos que responderam aos questionários aplicados. Cada um deles valores, idade, cultura e personalidade individuais. Com a finalidade de ilustrar os participantes do estudo elaboramos uma breve caracterização de cada sujeito da pesquisa.

quadro1

A negação do termo “Vício”

Na primeira categoria, os acadêmicos demonstram a importância do tabagismo em suas vidas, muitos deles incluindo em suas falas os termos “vício” e/ou “dependência” para definir o grau de saliência que o tabaco assume. Muito embora, os dados a cerca da dependência são ainda obscuros, porém sabe-se que os primeiros cigarros fumados são de fundamental importância para o processo. A partir daí, ocorre uma progressão rápida por três estágios, iniciando-se no “fumar por motivos psicossociais”, passando pelo “fumar em busca dos efeitos positivos da nicotina” e, finalmente, no “fumar para evitar os sintomas da abstinência”(10).

A dependência à nicotina é hoje reconhecida como uma doença, da mesma forma que a dependência a outras drogas. Apesar da vontade de muitos fumantes abandonarem o vício, nem sempre isso é tarefa fácil, já que o organismo reage à diminuição do nível da nicotina com sintomas que variam desde irritabilidade até insônia, entre outras manifestações mais severas(11).

A grande parte dos acadêmicos, quando questionados, anulam qualquer importância do tabagismo em suas vidas, de tal forma, negam também que sejam dependentes do cigarro.

O cigarro não tem qualquer importância na minha vida. (Acadêmico 04)

Importância? Nenhuma. (Acadêmico 06)

Um passa-tempo, nada de mais. (Acadêmico 10)

A denominação “vício” gera um conflito de idéias para alguns fumantes, já que eles consideram o cigarro como algo prazeroso e os termos “vício” ou “dependência” trazem consigo o ideal de abandono(12).

A dependência física é conceituada como um estado que resulta das adaptações de diferentes sistemas afetados pelas drogas. Essas adaptações manifestam-se como tolerância no decorrer do uso da droga e como síndrome de abstinência na suspensão de seu uso. Desta forma, alguns fumantes definem de maneira psicologicamente equilibrada o fato de fumarem apenas como um hábito, dispensando, portanto, a preocupação com o abandono do mesmo(13).

Ainda que o uso do tabaco seja assumido como uma fonte de prazer ou de alívio para o estresse, a negação da dependência existe.

É um aliviante para o estresse, porém não passa disso, não morrerei se não fumar. (Acadêmico 02)

O cigarro como redutor do stress

Na segunda categoria, os acadêmicos tentam descrever a relação entre o tabagismo e os seus estilos de vida. O binômio stress/cigarro esteve presente em grande parte das falas, sempre houve uma relação de dependência entre ambos, ou seja, se o consumo de cigarro é reduzido, conseqüentemente o stress é elevado e, se em caso contrário, o consumo de cigarro for maior, o stress se torna menor.

Os índices de stress na população têm crescido vertiginosamente nas últimas décadas. Esse dado está relacionado ao estilo de vida do homem contemporâneo, marcado pela alta competitividade, maus hábitos alimentares, pouco tempo para o lazer entre outros. Para lidar com essa tensão diária e os sintomas causados pelo stress, o indivíduo desenvolve uma série de estratégias de enfrentamento(14).

Entre os fumantes, a sintomatologia do stress é sugerida em níveis maiores do que entre as pessoas que não fazem uso de cigarros, sendo, entres todas as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos fumantes, o cigarro, a prática de maior freqüência.

O fumo, independente do sexo do fumante, está diretamente associado à percepção do stress na vida cotidiana, visto que os fumantes referem maior nível de stress do que os não fumantes(15).

A maioria dos acadêmicos definiu seu estilo de vida como um conjunto de atividades corridas e estressantes. Nesse contexto, o tabagismo assumiria um papel de redutor das pressões e do estresse causado pela rotina de atividades cumpridas pelos mesmos.

Minha vida é muito estressante e para aliviar tanto estresse eu fumo. (Acadêmico 02)

A vida estressante aumenta a vontade de fumar. (Acadêmico 13)

Me acalma! (Acadêmico 07)

Para relaxar. (Acadêmico 06)

Embora a maioria dos fumantes pareça consciente dos prejuízos para a saúde causados pelo uso do tabaco, isso não os leva a abandonar o cigarro. Vários fatores envolvem o hábito de fumar, e entre eles está o prazer obtido. Os fumantes mencionam que os cigarros trazem sensações e experiências únicas(12). Apesar da sensação imediata de prazer e relaxamento, o fumo pode funcionar como um fator desencadeador de sintomas de stress, devido às alterações neuropsicofisiológicas envolvidas no ato de fumar(14).

Observamos que na cultura ocidental o cigarro é mais que um redutor de stress. A propaganda em massa transmite uma imagem de sensualidade, de elegância e de prazer no consumo de cigarro. Na verdade, isso nada mais é do que uma grande e perigosa armadilha para que o tabagismo se torne comum em grupos sociais e, mais que isso, se torne um meio de inserção e aceitação de um indivíduo nesses grupos.

O hábito de fumar é mantido porque proporciona um caminho para minimizar efeitos negativos como estresse, vergonha e desprezo; além disso, evoca os efeitos de excitação, prazer e surpresa, bem como proporciona a aceitação em um determinado grupo social(16).

Devido às características do grupo social a que pertenço que reflete no meu estilo de vida, o tabagismo assume grande importância como hábito social. (Acadêmico 11)

“O fato de os fumantes apresentarem maior sintomatologia de stress e o alívio desta ser buscado com o consumo de cigarro constitui em um perigoso ciclo, já que tanto o stress quanto o tabaco estão associados a alterações neuropsicofisiológicas”(14).

O futuro do tabagista profissional de saúde

Na terceira categoria os acadêmicos expressam suas perspectivas de futuro correlacionando-as com diretamente com o tabagismo, seja na esfera pessoal e/ou na esfera profissional.

“O uso de drogas entre estudantes de enfermagem é uma questão complexa e delicada que extrapola os limites da saúde pública em função das próprias características da atividade e do papel do enfermeiro na sociedade. A preocupação maior em relação aos acadêmicos de enfermagem se apóia no fato de que, no futuro, serão eles os responsáveis para fazer prevenção, práticas de educação em saúde, detecção precoce e encaminhamento ou, até mesmo, tratar de usuários de drogas”(17).

A possível relação entre a perspectiva de futuro e o ato de fumar dividiu o grupo de acadêmicos sujeitos desta pesquisa. Um pouco mais da metade deles negou qualquer interferência do uso do tabaco em seu futuro.

Não vejo qualquer interferência agora. (Acadêmico 07)

O outro grupo, quantitativamente bastante significativo, detecta algumas possíveis modificações no seu futuro devido ao tabagismo, seja na esfera pessoal, como as doenças causadas pelo cigarro, seja na esfera profissional, como, por exemplo, a perda de confiança do cliente no profissional que o atende, uma possível dificuldade na conquista de um emprego ou mesmo o fato de considerar que o profissional de saúde deveria ser exemplo de hábitos saudáveis.

As drogas consumidas entre os jovens, dentre elas o tabaco, influenciam de forma negativa (causando ou contribuindo para o desenvolvimento de várias doenças) ou impedem a dedicação aos estudos, pré-requisito necessário a construção de um futuro estruturado com base no emprego sólido e nas relações afetivas estáveis, de maneira que, existe um comprometimento dos projetos de futuro que têm como rumo e norte a estabilidade econômica e afetiva(18).

Em se tratando de um profissional de saúde, as preocupações devem ser ainda maiores por uma questão clara a despeito do pressuposto que o profissional de saúde deve servir de modelo para os seus pacientes.

Os aspectos supracitados são detectados em algumas falas dos depoentes do estudo, tais como:

O hábito de fumar interfere na minha perspectiva de futuro na vida profissional, no dia-a-dia. (Acadêmico 04)

Prejudicaria a conseguir empregos em alguns hospitais. (Acadêmico 12)

O cigarro interfere, sim, no meu futuro porque um profissional de saúde deveria dar exemplo de como se ‘portar’ para ser saudável. (Acadêmico 13)

A prevenção e a conscientização do tabagismo na esfera dos acadêmicos de enfermagem são de suma importância e por vezes desconsiderada ou esquecida. Deve-se estar atento ao fato de que o enfermeiro tabagista será uma influência negativa ao cliente que estiver motivado a deixar o tabagismo(2).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo faz um recorte de um tema amplo e abrangente que é o tabagismo. Ao abordar, contudo, o comportamento de fumar entre acadêmicos de enfermagem, o tema se torna ainda mais instigante, visto que, futuramente, tais sujeitos serão instrumentos de informações baseado no trabalho de educação em saúde para seus pacientes.

A partir desses questionamentos, buscaram-se identificar quais relações que os acadêmicos têm com o tabagismo, quais são as preocupações em relação ao tabaco, e também a percepção dos mesmos em relação ao consumo intermitente de cigarro e foram encontradas três categorias A negação do termo “vício”; O cigarro como redutor do stress; O futuro do tabagista profissional de saúde.

Na primeira categoria, foi relevante o discurso que o cigarro não assume qualquer importância na vida dos acadêmicos e que, portanto, este hábito não se constitui um vício ou qualquer tipo de dependência. Os termos “vício” e “dependência” trazem latentes em seus significados às idéias de abandono e de síndrome da abstinência. Por isso, grande parte dos acadêmicos acha mais conveniente negar que tenha que dispor de algum sacrifício para se manter afastada do tabaco do que aceitar que esta é a sua realidade.

Na segunda categoria descrita, emergiu para a discussão o cigarro como fator redutor do stress. Muitos acadêmicos descreveram seus estilos de vida como uma reunião de hábitos e atribulações não-saudáveis, com um conjunto de atividades e situações altamente promotoras do stress. O cigarro, por sua vez, tem o papel de válvula de escape para o stress, proporcionando alívio. O stress e o cigarro desenvolvem uma relação interna de dependência, de maneira que, à medida que o stress aumenta, eleva a vontade de fumar e, conseqüentemente, o consumo de cigarros.

Outro fator de grande relevância também observado é o fato do hábito de fumar ser, atualmente, critério para inserção e aceitação de indivíduos em determinados grupos sociais. As propagandas e os ideais de sensualidade e elegância disseminados por elas influenciam de maneira direta no estilo de vida de muitos indivíduos e dos grupos sociais nos quais estão inseridos.

Em especial, tornou-se possível relacionar o estilo de vida dos acadêmicos com o consumo de tabaco. As causas do uso do cigarro e os principais motivos ligados a esta utilização também foram descritos nesta categoria, tendo o stress e os grupos sociais influência expressiva no processo de iniciação e manutenção do tabagismo.

Na terceira categoria um grupo pouco maior do que a maioria dos sujeitos da pesquisa nega que seu futuro possa ser influenciado pelo uso atual do tabaco. Porém, outra parte dos acadêmicos apresentou uma preocupação ligada ao consumo de cigarros e ao seu futuro. A esfera profissional pode sofrer prejuízos, em se tratando da conquista de um vínculo empregatício, como também na relação na confiança que deve existir entre o binômio profissional-paciente, visto que um profissional de saúde deveria, por todas as informações que possui ser exemplo de um indivíduo portador de hábitos e estilo de vida saudáveis.

 

REFERÊNCIAS

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Artigo recebido em 10.01.08.

Aprovado para publicação em 26.02.09.

Artigo publicado em 25.05.09.

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