Início Atual Expediente Instruções aos autores Sistema de submissão
Artigo Original
 
Silva CC, Gelbcke FL, Meirelles BNS, Arruda C, Goulart S, Souza AIJ. O ensino da Sistematização da Assistência na perspectiva de professores e alunos. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2011 abr/jun;13(2):174-81. Available from: http://dx.doi.org/10.5216/ree.v13i2.12390.

O ensino da Sistematização da Assistência na perspectiva de professores e alunos

 

Teaching Nursing Care Systematization on teachers and students' perspectives

 

La enseñanza de la Sistematización de Asistencia bajo la perspectiva de profesores y alumnos

 

 

Candida Custódio da SilvaI, Francine Lima GelbckeII, Betina Horner Schlindwein MeirellesIII, Cecília ArrudaIV, Suelen GoulartV, Ana Isabel Jatobá de SouzaVI

I Acadêmica do Curso de Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: candi.custodio@gmail.com.

II Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professor Assistente, UFSC. Diretora de Enfermagem, Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago/UFSC. Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: fgelbcke@ccs.ufsc.br.

III Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professor Assistente, UFSC. Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: betinam@ccs.ufsc.br.

IV Enfermeira, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, UFSC. Enfermeira do Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago/UFSC. Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: cecillia_arruda@hotmail.com.

V Enfermeira, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, UFSC. Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: suelengoulart07@hotmail.com.

VI Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professor Adjunto, UFSC. Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: jatoba@ccs.ufsc.br.

 

 


RESUMO

Trata-se de pesquisa descritiva desenvolvida com professores e alunos de um Curso de Graduação em Enfermagem do sul do Brasil, com o objetivo de identificar a percepção destes acerca do ensino sobre Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE). A coleta de dados ocorreu de março a agosto de 2008, envolvendo 29 sujeitos: 10 professores e 19 alunos, sendo aplicado instrumento com questões abertas e fechadas, que foram agrupadas por semelhança. A análise dos dados levou a discussão das seguintes categorias: conhecimento sobre a SAE, facilidades e dificuldades no ensino da SAE e sugestões para o processo. Existem dicotomias no ensino da SAE e para viabilizar a utilização deste instrumento na prática cotidiana, dando respaldo científico à profissão. O conhecimento insuficiente acerca da SAE torna-se uma barreira para a implantação, adesão e execução desta nas instituições de saúde. A SAE traz reconhecimento social e visibilidade profissional à Enfermagem.

Descritores: Educação em enfermagem; Processos de enfermagem; Ensino.


ABSTRACT

Descriptive research aimed to identify the perception of teachers and students of a nursing graduation course in southern of Brazil about teaching Nursing Care Systematization (NCS). Data collection occurred between March and August 2008 and involved 29 subjects: 10 teachers and 19 students responded to open and closed questions grouped according to their similarity. Data analysis led to the discussion of the following categories: knowledge about NCS; facilities and difficulties in NCS teaching; suggestions for the process. The use of this system in daily practice gives scientific support to the profession; however, there are dichotomies in NCS teaching. Insufficient knowledge of NCS becomes a barrier to its implantation in health institutions, and to the adhesion and execution of its methodology. NCS offers social acknowledgment and professional visibility to nursing.

Descriptors: Nursing education; Nursing process; Teaching.


RESUMEN

Pesquisa descriptiva desarrollada con profesores y alumnos de un curso de graduación en Enfermería en el sur de Brasil, con el objetivo de identificar su percepción acerca de la enseñanza de la Sistematización de Asistencia de Enfermería (SAE). La colecta de datos ocurrió entre marzo y agosto del 2008, envolviendo 29 sujetos: fue aplicado un instrumento con cuestiones abiertas y cerradas, agrupadas por semejanza, a 10 profesores y 19 alumnos. El análisis de los datos llevó a la discusión de las siguientes categorías: conocimiento sobre la SAE; facilidades y dificultades en la enseñanza de la SAE; y sugestiones para el proceso. Existen dicotomías sobre la enseñanza de la SAE que hagan la utilización de ese instrumento viable en la práctica cotidiana, ofreciendo respaldo científico a la profesión. El conocimiento insuficiente acerca de la SAE es una barrera para la implantación, adhesión y ejecución de la misma en instituciones de salud. La SAE trae reconocimiento social y visibilidad profesional a la Enfermería.

Descriptores: Educación en Enfermería; Procesos de Enfermería; Ensenãnza.


 

 

INTRODUÇÃO

A Enfermagem é uma profissão universal e tem o cuidado como essência do seu processo de trabalho. Este cuidado é fundamentado num método assistencial, denominado Sistematização da Assistência de Enfermagem – SAE, ou ainda como Processo de Enfermagem. Salienta-se que o termo Processo de Enfermagem passa a ser utilizado no Brasil, a partir da década de 1960, com o modelo proposto por Horta, sendo implementado em instituições de saúde, passando também a ser ensinado nas escolas de Enfermagem(1-2).

O planejamento da assistência é uma atividade privativa do enfermeiro, definida legalmente desde a aprovação da Lei do Exercício Profissional n.7498/86(3), reafirmada pelo Conselho Federal de Enfermagem, inicialmente quando da aprovação da Resolução COFEN n.272/2002(4), e atualmente pela Resolução COFEN n.358/2009(5), que “Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem em ambientes, públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional de Enfermagem, e dá outras providências”.

De acordo com esta Resolução, a SAE organiza o trabalho profissional quanto ao método, pessoal e instrumentos, tornando possível a operacionalização do processo de Enfermagem, como um instrumento metodológico que orienta o cuidado profissional de Enfermagem e a documentação da prática profissional. Destaca, ainda, que a SAE possibilita maior visibilidade para o trabalho da Enfermagem(5).

Considerando-se a importância da SAE para a qualidade da assistência, esta foi implantada num hospital universitário do sul do Brasil (HU), local em que esta pesquisa foi desenvolvida, desde a abertura da instituição, em 1980. O Departamento de Enfermagem da Universidade, na qual o hospital está vinculado, teve papel fundamental na organização da proposta do prontuário orientado para o problema e implementação do Método Assistencial de Enfermagem pautado na Teoria de Enfermagem de Horta. Por isso, a relevância de olhar novamente para o processo de ensino, no sentido de buscar subsídios para a reestruturação da SAE no HU.

Neste sentido, visando articular teoria e prática e a reorganização da SAE no HU, foi realizada uma pesquisa envolvendo os profissionais enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, professores e alunos do Curso de Graduação em Enfermagem, com o propósito inicial de obter um diagnóstico acerca da SAE utilizada na instituição.

Este artigo é parte desta pesquisa e tem como foco os resultados obtidos com o grupo de professores e alunos. Para o seu delineamento tivemos como objetivo identificar a percepção de professores e alunos acerca do ensino da SAE do Curso de Graduação em Enfermagem.

 

METODOLOGIA

Estudo descritivo, com análise de variáveis qualitativas, desenvolvido com professores e alunos de um Curso de Graduação em Enfermagem, que utilizam como campo de ensino-aprendizagem um Hospital Universitário no sul do Brasil.

A SAE implantada no HU foi baseada na teoria das Necessidades Humanas Básicas, de Wanda de Aguiar Horta(6). O 1º documento que trata do método de assistência foi elaborado em 1981, sendo que em 1984 passou por uma revisão, trabalho coordenado por Saupe e Horr(7).

A instituição utiliza o prontuário único, baseado no modelo WEED, com o método científico de resolução de problemas, no qual todos os profissionais fazem seus registros(6), com prescrição e evolução em forma de SOAP - dados subjetivos, objetivos, análise e plano.

A fim de compreender o potencial e as limitações do desenvolvimento da SAE na referida instituição, foi desenvolvida uma pesquisa envolvendo quatro atores chaves: a) enfermeiros do HU, b) trabalhadores de enfermagem de nível médio do HU (técnicos e auxiliares de enfermagem), c) professores e, d) alunos do Curso de Graduação em Enfermagem. Neste artigo apresentamos a percepção dos professores e alunos acerca do ensino da SAE, buscando, a partir da aplicação de um instrumento com questões abertas e fechadas, identificar aspectos do ensino, no que se refere às etapas do Processo de Enfermagem, além de sugestões relativas à própria sistematização utilizada na instituição. A coleta de dados ocorreu no período de março a agosto de 2008.

O curso, quando da realização da coleta de dados, ainda não havia passado pela reformulação curricular, estando organizado em oito unidades curriculares, sendo que é a partir da 3ª unidade curricular que tem inicio o ensino da SAE.

Para a coleta dos dados, 10 questionários foram aplicados junto aos professores que atuam no curso, a partir da 3ª unidade curricular, sendo os mesmos identificados com a letra P, seguida dos números de 1 a 10. Em relação aos alunos, foram aplicados cinco questionários para cada unidade curricular, a partir da 3ª, perfazendo, inicialmente 30 questionários, dos quais apenas 19 retornaram: - 3ª unidade: dois; 4ª unidade: dois; 5ª unidade: três; 6ª unidade: um; 7ª unidade: cinco; e, 8ª unidade: seis. Os questionários dos alunos foram identificados com a letra A, seguido da numeração.

As respostas às questões foram transcritas para planilha em Excel@, e a análise dos dados foi realizada, inicialmente, a partir das respostas às questões, posteriormente, após leitura atenta de todos os dados, os mesmos foram agrupados por semelhança, dando origem a três categorias: conhecimento sobre a SAE; facilidades e dificuldades no ensino da SAE e sugestões em relação ao ensino da SAE.

O estudo foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa da instituição, tendo sido aprovado sob o número 026/08, com a folha de rosto n. 181200. Os sujeitos da pesquisa foram esclarecidos sobre os objetivos da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Estudos(1-2,8) apontam alguns problemas que são enfrentados pelos enfermeiros quando da implementação da SAE, entre os quais aparecem o desconhecimento desta, como também apontam dificuldades com o próprio ensino da sistematização. Estes fatores aparecem nos discursos de professores e alunos, que são apresentados na discussão das categorias analíticas.

Conhecimento do aluno sobre a SAE

O Curso de Graduação em Enfermagem, no qual foi realizada a pesquisa, está organizado em oito semestres, considerados aqui como unidades curriculares. Cada uma destas unidades é composta por um eixo fundamental e um conjunto de bases complementares e/ou articuladas(9). A SAE começa a ser ensinada a partir da 3ª unidade curricular, na disciplina Fundamentos para o Cuidado Profissional, motivo pelo qual realizamos a coleta a partir desta unidade. É neste momento do curso que os alunos iniciam as atividades de cuidado no ambiente hospitalar, aprendem o que é a SAE, sua importância e as fases que compreendem tal sistematização, porém realizam como atividade prática apenas o histórico de enfermagem em pacientes internados. A partir da 4ª unidade desenvolvem todas as etapas da SAE, pois iniciam o conteúdo teórico que permite a elaboração da prescrição dos cuidados de enfermagem nas intercorrências clínicas e cirúrgicas, em pacientes atendidos nas unidades de internação e ambulatório. Neste sentido, também corrobora o fato de que o desafio de estar em situações reais e dinâmicas é um forte motivador da aprendizagem, pois a aplicação da teoria em situações reais aumenta a capacidade de pensamento critico(10)

Identificamos, nos instrumentos dos alunos, que o entendimento da SAE está mais consolidado a partir das unidades curriculares adiantadas do curso, pois na 3ª unidade só identificam as etapas da SAE (histórico, evolução e prescrição), limitando-se a esta compreensão, tal como aponta a fala de um aluno da 8ª unidade curricular:

A SAE faz parte do processo de trabalho do profissional enfermeiro, a fim, de prestar uma melhor assistência. A SAE compreende: histórico de enfermagem, anterior ao primeiro, a consulta de enfermagem, exame físico, diagnóstico de enfermagem, prescrição de enfermagem e evolução de enfermagem (A30).

Os alunos ressaltam o aprendizado das teorias de enfermagem, na 3ª unidade curricular, destacando a Teoria das Necessidades Humanas Básicas como a teoria que dá sustentação à SAE. Isto se deve ao fato de que este referencial teórico é utilizado no HU, local em que os alunos realizam a maior parte de suas atividades teórico-práticas. No entanto, demonstram certa confusão com a taxonomia de NANDA Internacional (North American Nursing Diagnosis Association)(11), identificando-a como uma teoria de enfermagem. Em relação à informatização da SAE, utilizam o programa e os registros preconizados no HU – histórico, prescrição e evolução de enfermagem. Entre as respostas acerca das teorias que aprenderam que dão sustentação à SAE, temos:

Wanda Horta; Oren; Peplau; Roy e outros que não lembro (A 26)

Teoria das Necessidades Humanas e na classificação dos diagnósticos da NANDA (A29).

Na perspectiva dos alunos a análise é a parte mais difícil de ser realizada, uma vez que alguns utilizam o diagnóstico de enfermagem na sua construção. Suas dúvidas são decorrentes da forma como os professores ensinam, o que pressupõe que não há uma compreensão uniforme por parte dos professores, como relatado na fala:

O fato das professoras não terem algo padronizado, principalmente no que diz respeito a análise (A24).

Portanto, o ensino do processo de enfermagem adotado pelos docentes do curso é um aspecto que precisa ser revisado quando estes estiverem realizando o planejamento e implementação de suas disciplinas. Para ensinar enfermagem e, mais especificamente, o método do processo de enfermagem, o professor além de acreditar nesse referencial tem que encontrar estratégias que possam favorecer o processo ensino-aprendizagem(12).

O contato dos pesquisadores onde o estudo foi realizado permitiu a observação de que esta é uma preocupação do colegiado do Curso de Graduação, o qual tem planejado uma capacitação docente sobre o tema. Há um número expressivo de professores recém-admitidos no Curso, o que tem contribuído para a utilização de diferentes formas de abordagem do ensino da SAE, que são baseadas nas diferentes vivências e experiências que os mesmos trazem.

A literatura especializada sobre o tema no Brasil mostra que, o corpo docente dos cursos de Enfermagem é constituído, em seu cerne, por profissionais de enfermagem, levados, posteriormente à condição de docentes, quando passam a enfrentar as situações e realidades pedagógicas sem que tenham tido, em sua grande maioria, oportunidades para a construção de competências voltadas para esse processo de trabalho. Dessa forma, os saberes docentes e as competências se articulam neste processo de desenvolvimento pessoal e profissional, sendo relevante que esses docentes apreendam o conceito de competências em sua maior amplitude, com vistas à melhoria da formação das gerações seguintes de profissionais(10).

Assim, a capacitação dos professores torna-se importante no sentido de atualizar e balizar os conhecimentos que serão desenvolvidos com os alunos, como também delimitar o referencial teórico usado pela instituição utilizada como campo para as atividades teórico-práticas e de exercício da sistematização da assistência de enfermagem.

Facilidades e dificuldades no ensino da SAE

Para apreender as facilidades e dificuldades em relação ao ensino da SAE, foi perguntado aos alunos e professores acerca de cada etapa prevista na sistematização. No Histórico são identificados os problemas ou necessidades que podem ser atendidos pelos profissionais de enfermagem(4). Para a realização do histórico, os alunos geralmente utilizam um roteiro, fornecido pela unidade curricular ou aquele utilizado nas unidades de internação.

Como facilidades, os alunos apontam a comunicação com os pacientes, existência de um roteiro prévio e acompanhamento pela enfermeira/professora nas primeiras coletas de dados:

Existência de roteiros em determinadas unidades. Acompanhamento do enfermeiro nas primeiras coletas de dados (A26).

Como dificuldades, identificam a realização do exame físico, sendo esta questão ressaltada mais de uma vez esta questão, apontando a ausculta pulmonar como a maior dificuldade, bem como a questão do tempo e atenção que exige dos profissionais, em especial da enfermeira, para o estabelecimento das prioridades relacionadas às NHB. Esse fato é ilustrado no depoimento que se segue:

Realizar o exame físico – ausculta pulmonar (A1).

Os alunos também relatam a falta de padronização do ensino pelos professores, falta de orientação acerca da abordagem do paciente, principalmente em relação a aspectos como sexualidade e as necessidades psicossociais e espirituais, bem como a falta de um trabalho em equipe e duplicidade de ações e informações – histórico de enfermagem e de medicina, por exemplo.

Falta de padronização de ensino pelos professores (A21).

Quanto à prescrição, os alunos a identificam como a etapa da SAE que responde aos problemas identificados no histórico, sendo as rotinas de internação geralmente consideradas na elaboração desta. Apontam como facilidades, a articulação realizada pelo professor entre a fisiopatologia e os cuidados de enfermagem, bem como a autonomia conquistada nas unidades curriculares mais avançadas.

Quando o professor faz articulação com fisiopatologia (A21)

Na realização da prescrição, os alunos apontam a necessidade de uma visão ampla acerca dos cuidados ao indivíduo/paciente. Entre as dificuldades apontam a falta de conhecimento a respeito de fisiologia e de aspectos clínicos, a implementação da prescrição pelos próprios alunos e equipe de enfermagem, já que realizam vários processos como exercício pedagógico, sem a aplicação do mesmo e, finalmente, a dificuldade na informatização gerada, principalmente, pela falta de computadores.

Acredito haver um déficit no ensino da fisiopatologia, pois acredito que se o aluno a dominar, ele irá saber que cuidados deve prescrever ao paciente/cliente (A24).

Em relação à Evolução de Enfermagem, esta é registrada na forma de SOAP, sendo que aprenderam que no “S” – subjetivo, registra-se o que o paciente/familiares sentem/referem; no “O” - objetivo, o que realizam, o que é observado e mensurável no exame físico; em relação ao “A” – análise, identificam que devem refletir sobre os problemas encontrados, ou ainda, interpretam a análise como resposta aos cuidados prestados:

S são os dados que o paciente e/ou acompanhante relata do seu dia-a-dia (A21).

O é aquilo que se pode observar, como as características de respiração, aparência ou também a parte social, como estar acompanhado, etc...(A28).

Análise inclui diagnósticos de enfermagem, as reações do paciente aos cuidados prestados (A22).

É interessante observar que no “A” colocam o diagnóstico de enfermagem (A22, 24, 26, 28). No entanto, ressaltam que há divergência de entendimento entre os professores e profissionais acerca dos itens a serem registrados na análise, como observado no seguinte excerto:

Esta foi e é, até hoje, a parte mais difícil. Cada profissional cobra uma coisa. Para uns é aqui que cabem os diagnósticos de enfermagem, para outros, é, por exemplo, a evolução do cliente (A28).

No “P” referem que colocam a prescrição de enfermagem, os cuidados a serem realizados. Os alunos identificaram poucas facilidades no aprendizado, colocando apenas a realização do “S” e do “O” como positivos e como dificuldades, além das divergências entre os professores, o que foi muito ressaltado (A13, 23, 24, 25, 26, 28, 29, 30), destacaram, também, que a elaboração da análise foi o que mais trouxe dificuldades (A11, 16, 24).

O Diagnóstico de Enfermagem é trabalhado pelos alunos na 4ª unidade curricular, a partir da qual iniciam a sua utilização. Referem que este deve ser registrado na análise, ou mesmo no histórico. O referencial teórico mencionado pelos alunos para a elaboração dos diagnósticos foi o da NANDA-I(10), associado ao referencial de Horta(6) (Teoria das Necessidades Humanas Básicas), citando também o referencial de Carpenito(13):

Wanda e NANDA associados (A26,27,28,29,30).

A etapa de Diagnósticos de Enfermagem ainda não foi implantada no HU, o que pode estar gerando esta indefinição acerca da etapa diagnóstica. Esta dificuldade apontada pelos alunos quanto ao diagnóstico, aparece na literatura, tratando da implementação da SAE em instituições de saúde(8), ou seja,  esta não é uma limitação identificada apenas por alunos, mas também na prática cotidiana de enfermeiros. Quando o estudante é colocado em contato direto com a realidade, é esperado que demonstre suas habilidades práticas associadas aos conhecimentos teóricos adquiridos. O fato de estar em um local novo como, por exemplo, o hospital, e o encontro com uma pessoa desconhecida, o paciente, requer do aluno a habilidade para lidar não só com as suas emoções, mas também com as do outro (paciente)(14).

Segundo os professores, as maiores dificuldades no ensino da SAE junto aos alunos são enfrentadas na realização do histórico de enfermagem, pois uma das limitações é a realização da entrevista clínica e exame físico do paciente (P1 e P4), que exigem conhecimento específico dos alunos e são conteúdos necessários para a coleta dos dados. Este déficit de conhecimento do aluno permeia todas as fases do curso. Existem outras dificuldades como:

Falta de continuidade do processo nas fases subsequentes, dificuldade de aprofundamento (P3).

Porém, existem também facilidades apontadas pelos professores, tais como o uso do roteiro de histórico pré-estabelecido nas instituições facilita a aplicação, há disponibilidade de recursos materiais que permitem o aprendizado, a realização do histórico nas primeiras 24 horas, além da interrelação com os profissionais do campo:

A participação dos supervisores do campo no processo e o conhecimento prévio dos alunos facilitam o processo de aprendizagem (P8).

Na etapa da SAE que envolve a prescrição de enfermagem, as dificuldades de realização do histórico se repetem (P8), acrescidas da dificuldade do aluno em correlacionar as etapas (P3). Outros fatores aparecem também nas falas como:

A insegurança do aluno em realizá-la e/ou questionar a checagem e execução pelas equipes das instituições (P8).

Para os professores, o aprendizado da evolução de enfermagem tem como principal dificuldade a pouca valorização dos alunos quanto aos registros das informações.

A dicotomia entre ensino e prática de trabalho nas instituições, gera inseguranças e descrédito nos estudantes, uma vez que muitas situações de ensino situam-se no nível do ideal, buscando a qualidade, enquanto os serviços onde realizam suas aprendizagens práticas deixam de atentar para estas condições(8). É comum a dissociação entre o que se ensina nas aulas teóricas e o que se observa como rotina nos campos de estágio, a exemplo do ensino e aplicação do processo de enfermagem. Cabe apontar a participação da própria academia favorecendo esta fragmentação entre o saber e o fazer(8,15).

Neste sentido, o ensino e a prática da SAE devem caminhar juntos, com reflexão crítica junto aos alunos em todas as fases do processo. As dificuldades do processo de ensino aprendizagem, em todas as fases da SAE, apontadas pelos professores demonstram que estas são crescentes, a partir da maior complexidade das etapas. Ainda é importante salientar que a SAE não é apenas um instrumento de registro de procedimentos e do cuidado de enfermagem normativo e rotineiro, mas um instrumento técnico, político e organizacional da profissão e assim deveria ser considerado.

As dificuldades encontradas pelos alunos e professores participantes do presente estudo são identificadas também por profissionais. Estudo realizado em hospital de ensino demonstrou que 58,5% das enfermeiras têm dificuldade em realizar o diagnóstico de enfermagem; 34,2% a evolução de enfermagem; 32,0%, o planejamento da assistência; 28,7% a coleta de dados; e 23,2% referiram dificuldade na prescrição de enfermagem(10).

A formação acadêmica dos enfermeiros, muitas vezes contribui para que estes apliquem pouco a SAE, pois durante as aulas práticas, muitas vezes ocorre uma preocupação maior em adquirir habilidades técnicas(16).

Neste sentido, há que se pensar na revisão da grade curricular, no conteúdo temático oferecido nos cursos de graduação em Enfermagem, permitindo que por meio da verticalização do ensino se aprofunde o conhecimento, refletindo-se na prática da sistematização da assistência, haja vista "as lacunas presentes no ensino da enfermagem que, uma vez não preenchidas na vivência acadêmica, repercutem com dificuldades e não adesão à execução do processo de enfermagem na vida profissional"(10).

Sugestões em relação ao ensino da SAE

Aliar teoria e prática, ou seja, o ensino das teorias e a sua aplicação em relação a SAE foram algumas questões apontadas pelos alunos como necessárias para a melhoria do ensino da sistematização, bem como o aprofundamento de conteúdos teóricos, como as patologias, sendo fundamental a revisão da forma de abordagem das mesmas para facilitar tal aprofundamento.

Na perspectiva dos alunos há necessidade de aprofundar a discussão acerca das etapas da SAE, bem como padronizar o ensino, dando inclusive um maior retorno aos alunos acerca dos procedimentos realizados, como se percebe na afrimação a seguir:

Faltam aulas teóricas, ou melhor, estudos de caso; onde o aluno possa praticar todos esses registros hipoteticamente;... falta uma situação de sala de aula onde o aluno possa praticar e ter retorno, comentários, orientações maiores (A22).

Sugestões também são apontadas pelos professores, que percebem a necessidade de maior preparo e padronização das atividades de ensino quanto a SAE, visando melhoria do processo ensino-aprendizado:

Preparar o grupo de professores para a sua implementação, apresentar a SAE para os professores do Curso de Graduação de enfermagem (P3).

Em relação às sugestões para a Diretoria de Enfermagem (DE) do Hospital, os participantes do estudo destacaram a necessidade de auditoria, maior acesso à informatização, pois faltam computadores, o estabelecimento de um protocolo acerca da SAE e a necessidade de reforçar com os enfermeiros a importância desta, inclusive como forma de valorização e visibilidade do cuidado que é prestado:

Mostrar às demais classes de profissionais seu devido valor. Capacitar os profissionais de enfermagem para não fazer dessa sistematização individual uma rotina única para todos os clientes. O roteiro da entrevista está confuso! (A28)

Uma das discussões que podemos apontar a partir das afirmações dos professores, é que o ensino da SAE, mesmo sendo discutido a partir da 3a unidade curricular do Curso de Graduação, ainda parece insuficiente no sentido de que a formação propicie uma visão mais abrangente ao futuro enfermeiro, considerando os aspectos políticos, técnicos e organizativos da assistência/cuidado de enfermagem.

Para Enfermagem é necessário o aprofundamento dos conhecimentos sobre as teorias de enfermagem, uma visão mais crítica e criativa acerca da realidade, possibilitando a construção de novos conhecimentos e mudanças nas práticas de cuidado(17). Quanto aos aspectos políticos inerentes ao ensino da SAE, destacam-se a valorização e visibilidade da profissão, tendo em vista que a sistematização proporciona uma maior autonomia para o enfermeiro, um respaldo seguro por meio do registro, que garante a continuidade/complementaridade multiprofissional, além de promover uma aproximação enfermeiro – usuário, enfermeiro – equipe multiprofissional(17). Na dimensão organizacional, auxilia na previsão de recursos humanos e materiais, além de “oferecer subsídios para o desenvolvimento de métodos/metodologias interdisciplinares e humanizadas de cuidado”(17).

A partir das opiniões manifestadas pelos alunos e professores, alguns indicativos podem ser explicitados, visando o fortalecimento do ensino da SAE, o que contribuirá também para a reflexão acerca das reformulações necessárias no HU, quais sejam:

  • capacitar professores, possibilitando uma abordagem mais uniforme acerca da SAE;
  • capacitar profissionais de enfermagem, no sentido de utilizarem efetivamente este instrumento na sua prática cotidiana;
  • dar maior retorno aos alunos acerca dos registros realizados;
  • aprofundar a reflexão acerca das teorias de enfermagem;
  • discutir acerca do diagnóstico de enfermagem, definindo-o como uma etapa da SAE utilizada no HU;
  • aperfeiçoar a informatização da SAE em suas diversas etapas.

A capacitação do corpo docente e aprimoramento constante no que se refere a temas como Semiologia, Metodologias Assistenciais, Diagnóstico de Enfermagem, dentre outros inerentes à questão(17), parece essencial. Também é indispensável a revisão do ensino pautado no modelo biomédico, ainda praticado por muitos professores da graduação em Enfermagem, que não se coaduna com o olhar de enfermagem, necessário para considerar o todo do indivíduo e diagnosticar as necessidades afetadas(9) num aspecto mais amplo do viver humano.

Cabe uma ação conjunta entre a academia e as instituições de saúde para definir as estratégias de ensino, de modo que os grupos de profissionais e estudantes sintam-se estimulados para sua apreensão e aplicação da SAE e assim incorporem a importância desta ferramenta para o seu cotidiano(18).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Sistematização da Assistência de Enfermagem, como forma de organizar e operacionalizar o cuidado de enfermagem, para ser efetivamente utilizada pelos enfermeiros, necessita estar pautada em conhecimentos científicos que viabilizem a tomada de decisão na escolha das intervenções de cuidado, subsidiando o raciocínio clínico e crítico da enfermagem. Neste sentido, é preciso adotar estratégias que facilitem o processo ensino-aprendizagem da SAE, visando instrumentalizar os futuros enfermeiros para a utilização deste instrumento de trabalho.

As facilidades e dificuldades apresentadas pelos alunos quanto ao ensino da SAE nos fazem refletir sobre a necessidade permanente de capacitação do corpo docente e da utilização de metodologias de ensino que articulem teoria e prática. O campo também precisa estar articulado com o processo de formação, principalmente em se tratando de hospital de ensino.

O estudo aponta que é necessário articular teoria e prática, que a SAE implantada no HU não responde ao preconizado na legislação, principalmente no que concerne a etapa de diagnóstico de enfermagem, já que está não faz parte da sistematização da instituição. Portanto, há que se olhar para o campo e para o ensino, visando instrumentalizar enfermeiros e também os alunos, pois entendemos que a utilização da SAE na prática profissional, possibilita o reconhecimento social e visibilidade profissional da Enfermagem, sendo necessário que os profissionais enfermeiros vinculem o exercício da profissão ao planejamento do cuidado, servindo de exemplo para os futuros profissionais.

 

REFERÊNCIAS

1. Koerich MS, Backes DS, Nascimento KC, Erdmann AL. Sistematização da assistência: aproximado o saber acadêmico, o saber-fazer e o legislar em saúde. Acta paul. enferm. 2007;20(4):446-51.

2. Venturini DA, Matsuda LM, Waidman MAP. Produção científica brasileira sobre a sistematização da Assistência de enfermagem. Ciênc. cuid. saúde. 2009;8(4): 707-715.

3. Lei 7498, de 25 de junho de 1986. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da Enfermagem e dá outras providências. Diário Oficial da União (Brasília). 1986 Jun 05; Seção I:9273-5.

4. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 272/2002. Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem – SAE – nas instituições de saúde brasileiras [Internet]. Brasília: Conselho Federal de Enfermagem; 2002 [cited 2011 jun 30]. Available from: http://site.portalcofen.gov.br/node/4309.

5. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 358/2009. Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem em ambientes, públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional de Enfermagem, e dá outras providências [Internet]. Brasília: Conselho Federal de Enfermagem; 2009 [cited 2011 jun 30]. Available from: http://site.portalcofen.gov.br/node/4384.

6. Horta WA. Processo de enfermagem. São Paulo: EPU; 1979.

7. Saupe R, Horr L. Método Assistencial de Enfermagem. Florianópolis: UFSC; 1984.

8. Luiz FF, Padoin SMM, Neves ET, Ribeiro AC, Tronco CS. A sistematização da assistência de enfermagem na perspectiva da equipe de um hospital de ensino. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2010 [cited 2011 jun 30]; 12(4):655-9. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v12/n4/pdf/v12n4a09.pdf.

9. Universidade Federal de Santa Catarina. Guia dos estudantes do Curso de Graduação em Enfermagem. Florianópolis: UFSC; 2008. 112 p.

10. Takahashi AA, Barros ALBL, Michel JLM, Souza MF. Dificuldades e facilidades relatadas por enfermeiras de um hospital de ensino na execução do processo de enfermagem. Acta paul. enferm. 2008;21(1):32-8.

11. NANDA. Diagnósticos de enfermagem da NANDA: definições e classificação 2009 – 2011. Porto Alegre: Artmed; 2009. 456 p.

12. Dell’Acqua MCQ, Miyadahira AM. Processo de enfermagem: fatores que dificultam e os que facilitam o ensino. Rev Esc Enferm USP. 2000;34(4):383-9.

13. Carpenito-Moyet LJ. Manual de diagnósticos de enfermagem. 11st ed. Porto Alegre: Artmed; 2008. 744 p.

14. Scherer ZAP, Scherer EA, Carvalho AMP. Reflexões sobre o ensino da enfermagem e os primeiros contatos do aluno com a profissão. Rev Lat Am Enfermagem [Internet]. 2006 [cited 2011 jun 30]; 14(2):285-91. Available from: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v14n2/v14n2a20.pdf.

15. Leadebal ODC, Paiva, Fontes WD, Silva CC. Ensino do processo de enfermagem: planejamento e inserção em matrizes curriculares. Rev Esc Enferm USP. [Internet]. 2010 [cited 2011 jun 30];44(1):190-8. Available from: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v44n1/a27v44n1.pdf.

16. Andrade JS, Vieira MJ. Prática assistencial de enfermagem: problemas, perspectivas e necessidade de sistematização. Rev Bras Enferm. 2005;58(3):261-5.

17. Nascimento KC, Backes DS, Koerich MS, Erdmann AL. Sistematização da assistência de enfermagem: vislumbrando um cuidado interativo, complementar e multiprofissional. Rev Esc Enferm USP. 2008;42(4):643-8.

18. Amante LN, Anders JC, Meirelles BHS, Padilha MI, Kletemberg DF. A interface entre o ensino do processo de enfermagem e sua aplicação na prática assistencial. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2010 [cited 2011 jun 30];12(1):201-7. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v12/n1/pdf/v12n1a25.pdf

 

Artigo recebido em 11.11.2010.

Aprovado para publicação em 01.06.2011.

Artigo publicado em 30.06.2011.

Licença Creative Commons A Revista Eletrônica de Enfermagem está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Faculdade de Enfermagem - Universidade Federal de Goiás - Rua 227, Qd. 68, Setor Leste Universitário - Goiânia, GO, Brasil.
CEP: 74605-080 - Telefone: +55 62 3209-6280 Ramal 218 - E-mail: revfen@gmail.com.