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Artigo Original
 
Colomé ICS, Marqui ABT, Jahn AC, Resta DG, Carli R, Winck MT et al. Cuidar de idosos institucionalizados: características e dificuldades dos cuidadores. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2011 abr/jun;13(2):306-12. Available from: http://dx.doi.org/10.5216/ree.v13i2.9376.

Cuidar de idosos institucionalizados: características e dificuldades dos cuidadores

 

Taking care of institutionalized elders: characteristics and difficulties of the caregivers

 

Cuidar de mayores institucionalizados: características y dificultades de los cuidadores

 

 

Isabel Cristina dos Santos ColoméI, Alessandra Bernadete Trovó de MarquiII, Alice do Carmo JahnIII, Darielli Gindri RestaIV, Rafaela de CarliV, Marisa Teresinha WinckVI, Taís Trombetta Dalla NoraVII

I Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Professora Assistente, Centro de Educação Superior Norte do RS (CESNORS), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Palmeira das Missões, RS, Brasil. E-mail: enfbel@yahoo.com.br.

II Graduação de Ciências Biológicas, Doutora em Genética, Professora Adjunto I, Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Uberaba, MG, Brasil. E-mail: alessandratrovo@hotmail.com.

III Enfermeiro, Mestre em Enfermagem, Professor Assistente I, CESNORS, UFSM, Palmeira das Missões, RS, Brasil.

IV Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Doutoranda do PPGENF, UFRGS, Professora Assistente, CESNORS, UFSM. Palmeira das Missões, RS, Brasil. E-mail: darielli2004@yahoo.com.br.

V Acadêmica do curso de graduação em Enfermagem, CESNORS, UFSM. . Palmeira das Missões, RS, Brasil. E-mail: rafaeladcarli@yahoo.com.br.

VI Acadêmica do curso de graduação em Enfermagem, CESNORS, UFSM. . Palmeira das Missões, RS, Brasil. E-mail: marisa.winck@yahoo.com.br.

VII Acadêmica do curso de graduação em Enfermagem, CESNORS, UFSM. . Palmeira das Missões, RS, Brasil.

 

 


RESUMO

O aumento no número de idosos em nosso país faz com que muitos vivam em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), sendo assistidos por um cuidador. Este estudo objetivou conhecer as características e o trabalho de cuidadores de idosos institucionalizados, identificando as dificuldades enfrentadas no cotidiano. Trata-se de pesquisa exploratório-descritiva. Para a coleta de dados utilizou-se questionário semi-estruturado aplicado a onze cuidadores que atuavam em uma ILPI. Foi realizada a análise de conteúdo, modalidade temática. A maioria dos cuidadores era do sexo feminino, casado, tinha de 40 a 49 anos e possuía o primeiro grau incompleto. As dificuldades referidas permitiram a construção de duas categorias: “sobrecarga de trabalho e exigência física” e “necessidade de conhecimento para cuidar dos idosos”. Destaca-se a necessidade de (re)pensar a prática dos cuidadores, com vistas ao aprimoramento desses profissionais, de suas condições de trabalho e qualidade de vida.

Descritores: Cuidadores; Idoso; Instituição de longa permanência para idosos; Enfermagem geriátrica.


ABSTRACT

The increasing number of elders in our country leads many of them to live in nursing homes (ILPI), where caregivers assist them. This study aimed at learning the caregivers’ characteristics and work at ILPI by identifying their daily work difficulties. It is an exploratory-descriptive research. Data collection was performed by a semi-structured questionnaire carried out with eleven caregivers that worked at an ILPI. The data analysis was based on thematic analysis. Results evidenced that most caregivers were women, married, aged between 40 to 49 years and had incomplete junior high school level. The difficulties reported allowed the construction of two categories: “labor overload and physical demand” and “need of knowledge of how to take care of elders”. An issue that stands out is the need to (re)think about the practice of caregivers who work at ILPI with the objective of improving their qualification, working conditions and quality of life.

Descriptors: Caregivers; Aged; Homes for the Aged; Geriatric Nursing.


RESUMEN

El aumento en el número de mayores en nuestro país hace con que muchos de ellos vivan en Instituciones de Larga Permanencia para Mayores (ILPM), donde son asistidos por cuidadores. Este estudio tuvo el objetivo de conocer las características y el trabajo de cuidadores de mayores institucionalizados, identificando las dificultades que ellos enfrentan en su cotidiano. Se trata de una investigación exploratoria-descriptiva. La recolección de datos ocurrió por medio de un cuestionario semi-estructurado aplicado a once cuidadores que actúan en una ILPM. El análisis de los datos se basó en el análisis de contenido. La mayoría de los cuidadores era del sexo femenino, casado, tenía de 40 hasta 49 años y poseía el primer grado incompleto. Las dificultades referidas por los cuidadores permitieron la construcción de dos categorías: “sobrecarga de trabajo y exigencia física” y “necessidad de conocimiento para cuidar de los mayores”. Se destaca la necesidad de (re)pensar la práctica de los cuidadores que actúan en ILPM, con vistas al aprimoramiento de eses profesionales, de sus condiciones de trabajo y de su calidad de vida.

Descriptores: Cuidadores; Anciano; Hogares para Ancianos; Enfermería Geriátrica.


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente no Brasil o número de idosos é elevado em virtude da melhoria da qualidade de vida somada à diminuição das taxas de natalidade e mortalidade, além dos avanços na área da saúde. Estima-se que, a partir de 2025, o Brasil se torne o sexto país em indivíduos na faixa etária de 60 anos ou mais, representando aproximadamente 13% da população(1).

As transformações no perfil epidemiológico evidenciam o predomínio de doenças crônico-degenerativas que podem comprometer a autonomia do idoso, exigindo a presença de um cuidador para prestar assistência contínua ao mesmo(2-3).

Inicialmente, o cuidado à pessoa idosa era realizado pela família, representada em sua maioria pela figura feminina. Algumas mudanças na estrutura familiar tais como: a saída da mulher para o mercado de trabalho, as situações de baixa renda da família, as separações, a viuvez e a diminuição do número de filhos muitas vezes impossibilitaram a família de exercer o cuidado ao idoso. Deste modo, essas situações, associadas ao nível de dependência da pessoa idosa, contribuem para um aumento no número desses indivíduos em instituições de longa permanência(4).

A Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) é um estabelecimento que visa acolher pessoas que possuem 60 anos ou mais, dependentes ou não, que indispõem de condições para permanecer com a família e/ou no seu domicílio. Tal instituição busca prestar a estas pessoas um cuidado integral, por meio de atividades realizadas por um cuidador(5).

O cuidador é a pessoa, membro ou não da família, que, com ou sem remuneração, cuida do idoso no exercício de suas atividades diárias, tais como alimentação, higiene pessoal, medicação de rotina, acompanhamento aos serviços de saúde, excluídas as técnicas ou procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas, particularmente na área da Enfermagem(6).

O cuidado ao ser humano nas diversas etapas da vida constitui objeto de trabalho da área da saúde, sobretudo da Enfermagem. Sendo assim, esta tem importante papel no que diz respeito à saúde dos idosos e à instrumentalização dos cuidadores que atuam em ILPIs, visando à qualificação da assistência prestada ao indivíduo idoso. Desta forma, fazem-se os seguintes questionamentos: Quais as características dos cuidadores que atuam em uma ILPI? Qual sua realidade de trabalho? Que dificuldades enfrentam em seu cotidiano de práticas?

O interesse em desenvolver esse estudo partiu da necessidade de conhecer os cuidadores de idosos institucionalizados, uma vez que são escassas as pesquisas voltadas para esse público, havendo predomínio de abordagens que contemplam os cuidadores familiares e os próprios idosos. 

Nessa perspectiva, foi objetivo deste estudo conhecer as características e o trabalho de cuidadores de idosos institucionalizados, identificando as dificuldades enfrentadas por eles no seu cotidiano.

 

METODOLOGIA

Estudo exploratório-descritivo, realizado em uma ILPI localizada em um município da região norte do Rio Grande do Sul/RS. No momento da realização da pesquisa, a referida instituição atendia 35 idosos, sendo 26 mulheres e nove homens e contava com a atuação de 11 cuidadores.

Os sujeitos do estudo foram 11 cuidadores que atuavam na referida ILPI. Os critérios de inclusão dos sujeitos foram: ser trabalhador da instituição em estudo, participar da reunião de esclarecimento sobre a pesquisa e aceitar participar voluntariamente da mesma.

A coleta dos dados foi realizada em maio de 2008, por meio de um questionário semiestruturado composto por questões fechadas e abertas. As primeiras eram relativas à caracterização dos cuidadores (sexo, idade, estado civil, escolaridade) e as questões abertas relacionadas ao trabalho desenvolvido na instituição e suas principais dificuldades (treinamento para cuidar dos idosos, jornada de trabalho, atividades desenvolvidas na instituição, dificuldades no trabalho, sugestões de melhoria, interesse em capacitações, entre outras).

O questionário foi aplicado aos cuidadores na ILPI em uma reunião de apresentação do estudo, na qual foi esclarecido os seus objetivos, garantindo o anonimato e o respeito aos princípios éticos. Os participantes realizaram a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O questionário foi recolhido logo após o seu preenchimento. Os depoimentos dos participantes foram identificados pela letra “C” referente ao termo cuidador e numerados sequencialmente, de acordo com a entrega do questionário.

A pesquisa atendeu as normas da Resolução 196/96 e recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria/UFSM (Processo número 23081.006861/2008-18, de 10 de junho de 2008).

Para análise dos dados foi utilizada análise de conteúdo do tipo temática(7).Este tipo de análise permite identificar os núcleos de sentido da comunicação e constitui-se de três etapas: pré-análise; exploração do material; tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Na primeira fase realizou-se uma aproximação com o material coletado, buscando identificar idéias centrais. A segunda etapa permitiu a exploração do material, transformando os dados brutos nos núcleos de compreensão do texto, os quais foram agregados e deram origem às categorias que contemplam os temas. A última etapa caracterizou-se pelo tratamento dos dados e interpretação, buscando articular o material empírico às dimensões teóricas.  

A análise dos dados deste estudo permitiu o conhecimento das características dos cuidadores e do trabalho que desenvolvem junto aos idosos institucionalizados, identificando as principais dificuldades e necessidades vivenciadas por eles no cotidiano de suas práticas. Assim, identificaram-se duas categorias temáticas, as quais respondem aos objetivos propostos no estudo: A) Características dos cuidadores e suas concepções sobre o cuidado e B) Dificuldades apontadas pelos cuidadores.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Características dos cuidadores e suas concepções sobre o cuidado

No que diz respeito às características dos cuidadores foi possível observar que a maioria era do sexo feminino, casado, estava na faixa etária de 40 a 49 anos e possuía o primeiro grau incompleto.

O predomínio do sexo feminino e do estado civil casado entre os cuidadores corroborou dados publicados na literatura, evidenciando que as mulheres exercem a atividade de cuidar em função de raízes históricas, culturais, sociais e afetivas. A prática das mulheres em cuidar de filhos, esposo e casa pode facilitar a adaptação para exercer o cuidado à pessoa idosa. Estudos(8-9) realizados mostraram predominância de cuidadoras mulheres em ILPI representando 87,8%(8) e 94%(9), respectivamente. Quanto ao estado civil e idade, pesquisa(8) realizada em Minas Gerais mostrou que 50,6% dos entrevistados eram casados e a maioria possuía menos de 50 anos, dados semelhantes aos aqui relatados. 

No que se refere à escolaridade, os sujeitos deste estudo apresentaram baixo grau de instrução escolar, confirmando dados de outra pesquisa(10) que relatou que dos seis cuidadores, quatro tinham o ensino fundamental incompleto. Outro estudo(11) revelou que 13,3% dos cuidadores investigados eram analfabetos; 23,3% eram alfabetizados e apenas 26,7% haviam concluído o ensino fundamental. Investigação(8) realizada com cuidadores de idosos revelou que sua escolaridade pode influenciar na realização de atividades como: auxílio na medicação, acompanhamento de consultas, capacidade de receber e transmitir orientações médicas. Assim, um maior nível de escolaridade pode ser um fator que contribui para a melhoria da qualidade do cuidado prestado, favorecendo o desenvolvimento dessas atividades.

O cargo ocupado pelos cuidadores na instituição variou de atendente, cozinheira, serviços gerais e auxiliar de enfermagem. As atividades desenvolvidas no cuidado aos idosos compreenderam: preparação dos alimentos, limpeza do local, auxílio na alimentação e na higienização dos idosos (troca de fraldas, banho), lavagem, costura e organização das roupas, verificação de pressão arterial, realização de curativos, controle e administração de medicamentos, acompanhamento a consultas e exames clínicos, manutenção do prédio e do mobiliário, bem como cuidado com o jardim e a horta.

Com relação às ocupações dos cuidadores, estudo realizado com trabalhadores de ILPI mostrou resultados semelhantes aos aqui relatados. Neste foram referidas as seguintes funções: auxiliares de enfermagem, serviços gerais, atendentes de enfermagem, técnicos de enfermagem, cozinheiras e assistente administrativo(9).

Quando questionados sobre o desenvolvimento de suas atividades na instituição 54,5% referiram contar com a colaboração dos colegas, principalmente, nas situações que exigem força física como levantar e trocar as fraldas dos idosos. Esse resultado demonstra a capacidade de comunicação e cooperação entre os trabalhadores, competências importantes para que o cuidador possa desenvolver uma prática de assistência integral.

Os cuidadores foram questionados sobre a experiência no trabalho com idosos, sendo que 36,4% já haviam exercido essa atividade em domicílio, em hospital ou em outras ILPIs. Em relação ao preparo para cuidar de idosos, 63,6% dos trabalhadores relatou não ter recebido treinamento específico para exercer esse cuidado.

Estudo(9) demonstrou que dos 50 trabalhadores de ILPI, 54% deles referiram algum tipo de experiência anterior com idosos, na sua vida familiar ou pessoal, sendo que 85% apresentaram respostas que caracterizaram o relacionamento como positivo. Uma grande proporção de cuidadores (90%) referiu nunca ter realizado um curso específico que os capacitasse para cuidar de idosos.

Os pesquisados foram questionados sobre os motivos que os levaram a trabalhar como cuidadores de idosos institucionalizados. Uma parcela significativa deles (90%) referiu que escolheu este trabalho motivado pelo respeito ao idoso, pelo desejo de fazer mais pelo ser humano, por vontade, amor e gosto de cuidar de pessoas idosas.

Considerando que a atitude do trabalhador em relação ao idoso, ou seja, a maneira como ele o vê exerce influência significativa nas situações de cuidado(9), os cuidadores foram questionados quanto ao significado do envelhecimento. Eles consideraram que envelhecer é um processo natural da vida com dimensões positivas e negativas.

Como aspectos positivos relacionaram o envelhecimento com a experiência de vida acumulada pelo idoso, sendo este um exemplo de ensinamento, respeito e dignidade para os demais. Além disso, referiram que apesar do aspecto físico decorrente da idade, a pessoa idosa pode manter o espírito jovem.

Como aspectos negativos mencionaram que a velhice é uma etapa difícil da vida, devido às dificuldades causadas pelo comprometimento de algumas funções do organismo como ver, ouvir, caminhar, tomar banho, alimentar-se, entre outras. Outros aspectos negativos incluíram a presença de doenças, dores e a necessidade de ajuda psicológica em virtude da presença de alguns distúrbios neurológicos.

Pesquisa(9) realizada com o objetivo de identificar o significado atribuído a ‘ser idoso’ por trabalhadores que prestam cuidados diretos de enfermagem a idosos institucionalizados revelou que os motivos mais frequentes que os levaram a atuar na assistência aos idosos foram a relação afetuosa com os mesmos e o desemprego. A mesma pesquisa evidenciou também que maioria dos sujeitos classificou os idosos escolhendo atributos mais positivos (carinhoso, doce, sábio, humilde,...) do que negativos (inseguro, fraco, intrometido,...).

Os dados aqui apresentados mostram que o conhecimento sobre as características e concepções dos cuidadores é fundamental para o planejamento de ações junto a este público, visando atender suas necessidades em relação ao cuidado ao idoso institucionalizado.

Dificuldades apontadas pelos cuidadores

A partir das dificuldades referidas pelos cuidadores no cuidado aos idosos, foi possível a construção de duas subcategorias temáticas: “sobrecarga de trabalho e exigência física” e “necessidade de conhecimento para cuidar dos idosos”.

Sobrecarga de trabalho e exigência física

Segundo os cuidadores a sobrecarga de trabalho comprometeu a prática de um cuidado adequado aos idosos, especialmente, àqueles que apresentaram alguma patologia, por necessitarem de uma atenção maior e assistência diferenciada. Os cuidadores deste estudo atenderam a uma demanda de 36 idosos e referiram que a sobrecarga de trabalho tem como consequência a falta de tempo para desempenhar as atividades inerentes a sua ocupação, o que provoca impacto direto na assistência prestada. Tendo em vista a complexidade e especificidade do atendimento à pessoa idosa relatada pelos próprios cuidadores, a sobrecarga de trabalho está prejudicando a eles e aos idosos.

Acho que nós temos pouco tempo para dar atenção para eles [idosos], pois temos muita sobrecarga de atividades (C10).

Seria interessante que tivesse mais pessoas para trabalhar, pois existe muita sobrecarga, demanda grande de trabalho na cozinha (C5).

Estudo(12) realizado com cuidadoras informais de idosos dependentes revelou que 53,3% delas manifestaram sentir sobrecarga de maneira elevada ou total e 40% de forma moderada.

Visto que muitas das atividades desenvolvidas pelos cuidadores exigiam força física, os pesquisados relataram estar apresentando problemas de saúde como dores na coluna, provavelmente decorrentes de postura inadequada e uso da força muscular. Outro estudo(13) mostrou que depressão, artrite e hipertensão arterial são problemas de saúde que também acometem os cuidadores de idosos.

Eu tenho dificuldade para lidar com peso, pois tenho problema de coração (C7).

Tenho dificuldade de trabalhar na limpeza e lidar com os vovôs, porque estou com problema de coluna e ciático (C3).

Estudos(11,14-15) confirmam esses achados ao mostrarem que os cuidadores de idosos apresentam cansaço, estresse, preocupação, ansiedade, aparecimento de sintomas/doenças e mudanças no seu cotidiano e autoestima, o que pode levar ao adoecimento.

O presente estudo mostrou que os cuidadores, exceto a auxiliar de enfermagem, exercem as mais diversas atividades, sem uma definição clara da função de cada um na equipe. Essa realidade pode ocasionar uma sobrecarga de trabalho, já que não existe uma distribuição equitativa das funções de cada trabalhador. Pesquisa(12) realizada mostrou que ao sentir-se sobrecarregado, o cuidador apresenta maiores níveis de tensão e, por isso, tende a desempenhar suas funções além de suas capacidades, o que resulta em situações de cuidado desequilibradas, geralmente acompanhadas de resultados insatisfatórios.

Outra possível explicação para essa sobrecarga é a questão da dependência do idoso, frequentemente, estimulada pelo cuidador. Pesquisa(16) mostrou que a institucionalização, muitas vezes, provoca declínio da capacidade funcional dos idosos, pois existe a tendência de não haver estímulo de suas capacidades para desenvolver as atividades básicas da vida diária, o que acaba provocando diminuição da autonomia do idoso.

Os cuidadores têm importante papel em auxiliar os idosos nas suas adaptações físicas e emocionais necessárias ao autocuidado e, para tanto, devem ser capacitados para isso(8). Diante disso, entende-se ser fundamental trabalhar esses aspectos com os cuidadores que atuam nas ILPIs para que tenham uma prática que respeite o tempo de execução das tarefas pelo idoso, evitando a superproteção e o estímulo à dependência.

Essa sobrecarga de trabalho também pode ser resultante da falta de recursos humanos para atuar na ILPI.  Nesse aspecto, um estudo(17) mostrou que a presença de profissionais como médico, fisioterapeuta e educador físico contribuiu com a diminuição da sobrecarga de trabalho, uma vez que, eles desenvolveram estratégias para contemplar o bem-estar, interações sociais e autoestima tanto dos idosos quanto dos cuidadores, através de atividades físicas, recreativas, interativas e sociais. Isso vem ao encontro dos anseios dos cuidadores sujeitos deste estudo que sugeriram a contratação de mais funcionários e profissionais capacitados para suprir as necessidades dos idosos.

Necessidade de conhecimento para cuidar dos idosos

A segunda categoria expressa a falta de conhecimentos dos trabalhadores para cuidar dos idosos, especialmente aqueles que apresentaram alguma patologia ou limitação que necessite de atenção especial. Os trechos a seguir caracterizam a dificuldade de conhecimentos específicos para o trabalho na instituição.

Precisamos mais profissionais especializados para ajudar a suprir as necessidades dos vovôs, principalmente quando estão doentes (C5).

Gostaria de receber um treinamento para cuidar dos idosos acamados (C8).

Eu queria aprender a atender os internos que possuem dificuldade na fala, porque não sei se estou atendendo suas necessidades (C11).

Estudo(10) realizado com seis cuidadoras domiciliares mostrou que as mesmas exibiam necessidades de aquisição de orientações quanto às doenças, à terapia medicamentosa, dietas e exercícios físicos, evidenciando que não possuíam nenhuma formação para cuidar dos idosos.

Vale destacar que, essa dificuldade pode ser minimizada com a realização de capacitações destinadas aos cuidadores, permitindo a eles prestar um atendimento mais efetivo e integral ao idoso. Com o objetivo de responder aos interesses e necessidades dos cuidadores participantes desta investigação, foram realizadas atividades educativas, por uma equipe multiprofissional, abordando os seguintes temas: autoestima do cuidador; trabalho em equipe; envelhecimento e suas alterações fisiológicas; saúde mental do idoso e garantias legais aos idosos.

A função de cuidador de idoso pode representar uma nova oportunidade para o mercado de trabalho em virtude do crescente fenômeno do envelhecimento humano, bem como das complicações advindas desse processo. Assim, torna-se necessária a capacitação desses profissionais. Essa atividade oferecida na forma de oficinas consiste em uma oportunidade para que esses cuidadores, além de sentirem-se mais valorizados, possam realizar o seu trabalho com mais entusiasmo e segurança, dispondo de informações básicas para exercer sua práxis. Isso se torna relevante considerando que a atividade de cuidar possui pouca visibilidade social, sendo algumas vezes naturalizada e desvalorizada, não oferecendo oportunidades de treinamento e apoio.

Nesse sentido, a Enfermagem desempenha um papel importante visto que possui habilidades e competências que podem contribuir para o aprimoramento das práticas dos cuidadores de idosos institucionalizados, sobretudo no desenvolvimento de ações educativas em saúde. Além disso, a enfermagem tem potencial para, junto a uma equipe multiprofissional, promover o atendimento das necessidades multidimensionais dos idosos, sendo importante que o envelhecimento saudável não faça parte apenas das preocupações do setor saúde, devendo ser prioridade na agenda social do país(18). Isso é extremamente relevante considerando a mudança do perfil epidemiológico e demográfico atual.

 

CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo apontam similaridades com tendências atuais do perfil dos cuidadores de idosos, sejam estes institucionalizados ou não. As dificuldades presentes em seu cotidiano profissional estão relacionadas a dois aspectos principais: condições de trabalho inadequadas e falta de conhecimentos necessários para exercer o cuidado.

Os dados obtidos nesta pesquisa podem contribuir com a realidade estudada, na medida em que permitem o levantamento de problemas e necessidades, estimulando a busca constante de melhorias com a participação de todos os atores envolvidos. Além disso, pode subsidiar avanços em outros cenários de cuidado à pessoa idosa, tendo em vista a visibilidade que proporciona aos cuidadores e à contribuição da enfermagem nas práticas de cuidado aos idosos.

Os dados desta pesquisa confirmam a necessidade e pertinência da educação permanente voltada aos cuidadores, por meio do desenvolvimento de estratégias e ações multidisciplinares. Nesse contexto, destacam-se as contribuições trazidas pela Enfermagem no que tange ao cuidado do idoso e à instrumentalização dos cuidadores. Os resultados evidenciados neste estudo podem subsidiar a construção de novas propostas de qualificação do trabalho dos cuidadores que atuam em ILPI, considerando-os como participantes ativos no processo educativo.

 

REFERÊNCIAS

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Artigo recebido em 29.03.2010.

Aprovado para publicação em 01.06.2011.

Artigo publicado em 30.06.2011.

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