Artigo Original
 

Santos KP, Rodrigues A, Reinaldo MAS. Relação entre a formação acadêmica dos estudantes de enfermagem e sua percepção quanto ao tabagismo. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2007;9(2):432-42. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v9/n2/v9n2a11.htm

 

Relação entre a formação acadêmica dos estudantes de enfermagem e sua percepção quanto ao tabagismo1

 

Nursing students’ academic training and their perception of smoking

 

Relación entre la formación académica de los estudiantes de enfermería y su percepción respecto al tabaquismo

 

 

Keila Priscila SantosI, Aline RodriguesII, Amanda Márcia dos Santos ReinaldoIII

IAluna do ensino médio. Bolsista do Programa de Iniciação Científica – BIC Júnior/FAPEMIG/2005. E-mail: kpsantos@hotmail.com

IIAcadêmica do Curso de Enfermagem da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Aluna Voluntária. E-mail: alinerodrigues@yahoo.com.br

IIIEnfermeira. Doutora em Enfermagem Psiquiátrica. Docente do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. EEUFMG – ENA. E-mail: amsreinaldo@enf.ufmg.br .

 

 


RESUMO

O tabagismo é um grave problema de saúde pública que aflige a população mundial e a medida mais eficaz e economicamente viável para minimizar o impacto negativo do fumo na saúde das pessoas é a promoção e a prevenção em saúde desenvolvidas na atenção primária. Os agentes da implementação dessas medidas são os profissionais de saúde. O enfermeiro tem em sua formação acadêmica a educação em saúde enquanto uma estratégia de cuidado. O objetivo do presente estudo é conhecer a percepção dos estudantes de enfermagem acerca do tabagismo visando obter informações que possam nos auxiliar a planejar a melhor forma de abordar esse conteúdo nas diversas disciplinas oferecidas na graduação em enfermagem. O estudo foi realizado em uma instituição de ensino superior federal entre os anos de 2005 e 2006 com alunos do curso de enfermagem. Para coleta de dados foi utilizado um questionário e posteriormente foi realizada a análise de conteúdo das respostas obtidas.   Os resultados apontam para uma percepção repleta de juízos de valor e experiências pessoais prévias a respeito do uso de tabaco. Assim, no planejamento da inserção desse conteúdo nas disciplinas do curso de enfermagem é importante que seja considerada esta questão.

Palavras chave: Estudantes de enfermagem; Tabagismo; Educação.


ABSTRACT

Smoking is a severe health problem that affects the global population the most effective and economically viable measure to minimize the negative impact of smoking on people’s health is health promotion and prevention. Health professionals are the agents who put these measures into practice. Academic nursing training deals with health education as a care strategy. In view of this situation, we carried out a study to get to know nursing students’ perception of smoking, in order to obtain information that can help us to plan the best way of addressing these contents in different undergraduate nursing subjects. It is a study carried out at a federal higher education institution between 2005 and 2006 among nursing course students. A questionnaire was used for data collection, followed by content analysis of the obtained answers. Results show a perception loaded with value judgments and earlier personal experiences about the theme. Thus, when planning to insert these contents into nursing course subjects, the question need to be taken into account.

Key words: Nursing; Smoking; Education.


RESUMEN

El tabaquismo es un grave problema de salud que aflige la población mundial La medida más eficaz y económicamente viable para minimizar el impacto negativo del humo en la salud de las personas es la promoción y la prevención en salud. Los agentes de la implementación de esas medidas son los profesionales de salud. El enfermero tiene en su formación académica la educación en salud como una estrategia de cuidado. Ante ese cuadro realizamos un estudio para conocer la percepción de losestudiantes de enfermería acerca del tabaquismo, con objeto de obtener informaciones que puedan ayudarnos a planear la mejor forma de aproximar ese contenido en las diversas asignaturas ofrecidas en los curso de pregrado en enfermera. Es un estudio realizado en una institución de enseñanza superior federal entre los años de 2005 y 2006 con alumnos del curso de enfermería. Para recolectar los datos fue utilizado un cuestionario y posteriormente fue realizado el análisis de contenido de las respuestas obtenidas. Los resultados indican una percepción repleta de juicios de valor y experiencias personales previas respecto al tema. Así, es necesario que el planeo de la inserción de ese contenido en las asignaturas del curso de enfermería considere tal cuestión.

Palabras-clave: Enfermería; Tabaquismo; Educación.


 

 

INTRODUÇÃO

O tabaco é responsável por doenças que podem ser prevenidas. Desde a década de 60, do século passado, vários países do mundo têm se mobilizado na tentativa de diminuir a prevalência do tabagismo, evitando assim, graves riscos de saúde e altos custos para a sociedade (1).

O tabagismo é considerado um dos principais problemas de saúde pública do mundo e não se limita apenas ao consumidor. Suas conseqüências alcançam também as pessoas não fumantes que estão expostas mesmo que involuntariamente ao fumo, mas infelizmente ainda existem alguns grupos da população que desconhecem os efeitos do tabagismo sobre a saúde das pessoas (1-3).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se uma prevalência de 30% de fumantes na população mundial adulta, e entre estes, 3.5 milhões morrerão por ano em conseqüência do fumo. Em 2020 este consumo não diminuirá, podendo chegar a 10 milhões de mortes anuais por enfermidades relacionadas ao uso do tabaco (1-3).

O número de pessoas que morrem por danos causados pelo tabagismo é cinco vezes maior que todas as outras mortes evitáveis, considerando os acidentes de trânsito, incêndios e demais acidentes, suicídios, assassinatos, HIV e uso de substâncias ilícitas. O reconhecimento dos riscos de saúde provocados pelo fumo e os benefícios em parar de fumar, servem para a maioria dos fumantes como um impulso para modificar esse comportamento (1-3).

A nicotina é o princípio ativo do cigarro, ou seja, da droga responsável pela dependência. É uma substância psicoativa que têm capacidade de produzir efeitos em seu uso comparável a cocaína e aos opiáceos. A nicotina é um exemplo de substância ativa que subjetivamente produz efeitos compensadores, como alívio do estresse e melhora do humor e atenção (4).

A literatura aponta uma distinção clara ente os fatores que levam as pessoas a experimentar drogas e os que as levam a desenvolver dependência. Sabemos também que existe uma relação entre o hábito de fumar e a busca pela independência, rebeldia e uma imagem cultural associada ao prazer e bem estar, presença de fumantes na família, ou a vivência entre eles. Estes entre outros fatores são considerados fatores de reforço do hábito de fumar (5).

A fase da adolescência se caracteriza pelo grande interesse do jovem em experimentar novos comportamentos, os jovens nesse período estão mais suscetíveis, incluindo o estímulo que é dado pelos amigos mais velhos e pela publicidade.

À medida que o consumo do cigarro se intensifica, tornando-se diário, alguns sintomas de abstinência da nicotina podem ser facilmente observáveis, entre eles, irritabilidade e diminuição da atenção, imperceptível no início, e que geralmente aparecem depois de um período de ProductID="1 a" w:st="on"> 1 a 2 horas sem fumar (2).

A partir de certo momento, os fatores sociais que apontam para o início do uso da nicotina passam a contar menos. O fumante passa a ser motivado ao uso do tabaco, mais para controlar os sintomas da abstinência, do que pelo prazer. Pode-se avaliar isso, por meio, do padrão de consumo dos fumantes, onde apenas 5% fumam menos de cinco cigarros por dia (2,6).

Nos últimos 20 anos o número de publicações e investigações sobre o comportamento de fumar entre os enfermeiros, estudantes e docentes de enfermagem tem sido crescente, principalmente fora da América Latina. A maioria dos estudos que tratam do tema, incluindo aqui as investigações epidemiológicas, sugerem propostas de implementação de estratégias preventivas e anti-tabagistas no nível primário e secundário buscando incentivar um ambiente de trabalho livre do cigarro (5,7,8).

Nas escolas de enfermagem existem iniciativas no sentido de incluir essa temática no âmbito dos currículos. Identificar os fatores que levam ao uso do tabaco entre enfermeiros e auxiliares de enfermagem, pode auxiliar os profissionais de saúde para o planejamento de intervenções entre esses profissionais em relação ao uso do tabaco. A literatura também tem demonstrado que o ato de fumar por parte dos profissionais de saúde na presença dos pacientes que estão tentando parar de fumar, pode estimular os mesmos a manterem o uso do tabaco. Por outro lado, esse grupo de profissionais é mais numeroso dentro da equipe de saúde e pode auxiliar no tratamento de pessoas que estão motivadas a modificar esse comportamento (7,9,10).

Estudos latino-americanos sobre o uso do tabaco na população geral, com variadas metodologias mostram que, a maioria dos fumantes começa a fumar antes dos 18 anos (1,5,8). O comportamento de fumar entre estudantes de enfermagem nas duas maiores universidades do Estado de São Paulo, Brasil, em 1998 apresentou a prevalência de tabagismo de 15% entre 254 estudantes, e que estes começaram a fumar entre 16 a 20 anos. Dentre os fatores que levaram a fumar, 95.4% apontaram a curiosidade e 47.4% por influência dos amigos, a amostra em sua maioria era composta por mulheres, e 57% fumavam de 6 a 20 cigarros ao dia. A autora conclui que existe uma grande necessidade de campanhas preventivas anti-tabagismo na universidade e divulgação de dados e estatísticas da Organização Mundial de Saúde sobre conseqüências do tabagismo, embora estas estratégias não tenham grande impacto na decisão de fumar ou não (10-11).

Estudos realizados com alunos da graduação em enfermagem apontaram que eles desconhecem a temática álcool e drogas, incluindo aqui o uso do tabaco. Quando questionados sobre informações recebidas durante a graduação os alunos informaram não lembrar ou nunca ter tido contato com o tema, em contrapartida sugerem a inserção deste na grade curricular do curso. De forma geral diante dos resultados as autoras concluíram que o conhecimento adquirido pelos alunos apresentou deficiência nos conteúdos ou na forma de abordagem, pois os dados sugerem que não foram incorporados adequadamente à disciplina, embora os alunos revelassem interesse pelo tema (11-12).

Em relação às atitudes diante dos usuários de álcool as atitudes dos enfermeiros diante do tema revelam que os mesmos obtiveram pouco ou nenhum conhecimento sobre o tema, o que interfere diretamente na atuação profissional do enfermeiro quando está diante dessa clientela (12).

O mesmo ocorre com o tabagista. Durante a graduação esse tema, em geral, não é abordado de forma direta, mas apenas como elemento de agravo à saúde quando relacionado a patologias de base clínica. A outra questão é que segundo a literatura, cada vez mais encontramos profissionais de saúde fumantes, o que nos leva a crer que, mesmo conhecendo os problemas causados pelo fumo, não deixam de fazer uso do cigarro. Até do ponto de vista ético esta questão é polêmica, pois um profissional que fuma em geral pouco crédito terá quando orienta seus pacientes a não fumarem, quer seja pela questão da manutenção da própria saúde (13).

Outro dado importante na literatura é o fato dos acadêmicos da graduação também estarem utilizando álcool e substâncias psicoativas em larga e preocupante escala e cultivando hábitos que se mantêm após o término da graduação (9-14).

A segunda investigação brasileira com 189 enfermeiros, 248 estudantes e 71 docentes de enfermagem, em 2002, encontrou dados similares à investigação apresentada anteriormente, e revelou que 73% dos fumantes iniciaram o uso do tabaco antes dos 18 anos (11).

Uma revisão de literatura de 73 estudos sobre o uso do tabaco por enfermeiros, em 21 países, entre os anos de 1959 a 1988, demonstrou um uso considerável de fumantes entre os enfermeiros de ambos os sexos. Os fatores que contribuíam para tal comportamento foram a socialização profissional, a dualidade de funções, o estresse no trabalho, as diferentes expectativas em relação à profissão e a falta de apoio social (13).

No Reino Unido, um projeto preliminar de intervenção na tentativa de reduzir o número de fumantes, durante 3 anos, foi realizado com 368 estudantes de enfermagem, sendo encontrados 43% de fumantes, 625 iniciaram o uso do tabaco antes de iniciar a graduação, as principais razões consideradas para tal comportamento foi o estresse e a influência dos amigos (8,12,15).

Diante da gravidade do problema realizamos este estudo para conhecer a percepção dos estudantes de enfermagem quanto ao tabagismo relacionando-as às questões da formação profissional.

 

METODOLOGIA

Estudo descritivo cujos sujeitos foram os alunos de graduação do curso de enfermagem de uma Universidade Federal de Ensino Superior no interior de Minas Gerais que responderam a um questionário, contendo perguntas abertas e fechadas sobre o tema. A coleta de dados ocorreu entre o segundo semestre de 2005 e o primeiro semestre do ano de 2006 com alunos do terceiro, quinto e sétimo período do curso de enfermagem que nesta instituição possui apenas uma entrada anual com 30 vagas.

O questionário abordou dados de identificação, tais como: idade, sexo e informações acerca do hábito de fumar, entre elas: quantos cigarros fumam por dia, idade do início do consumo de tabaco, percepção do aluno em relação ao uso de tabaco no ambiente universitário e possíveis fatores que influenciam o hábito de fumar, entre eles, estresse, família, saúde, meios de comunicação relacionando-os com o que consideramos um dilema ético visto que o hábito de fumar é sabidamente prejudicial à saúde e o profissional de saúde tem por função precípua promover a mesma.

O estudo atendeu as normas da Resolução 196/96 que regulamenta as pesquisas envolvendo seres humanos e foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição onde foi realizada tendo parecer favorável (nº protocolo 126/2005). Os alunos foram convidados a participar do estudo após apresentação do seu objetivo. Aqueles que aceitaram participar foram orientados a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Após esse procedimento o questionário foi aplicado em sala de aula durante período acordado entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa.

Após sua leitura, as respostas foram organizadas por temas convergentes e para análise foi utilizado o referencial teórico de análise de conteúdo (16).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram ouvidos 60 alunos do curso de enfermagem do primeiro, terceiro, quinto e sétimo período. Sendo 50 do sexo feminino e 10 do sexo masculino. As idades variaram entre 17 e 29 anos, prevalecendo alunos com 20 anos de idade. Em relação ao tabagismo 6,7% dos acadêmicos de enfermagem informaram fazer uso de tabaco, dentre estes encontramos um consumo de cinco a dez cigarros por dia.

Quando questionados se o hábito de fumar poderia estar associado ao fato de ser popular ou de se obter status entre seus pares, 66.7% dos entrevistados responderam que não, apesar de esse sabidamente ser um dos motivos elencados por diferentes estudos sobre risco para o uso de substâncias lícitas ou ilícitas e padrão de consumo (10,14,15).

Dentre os estudantes entrevistados 85% consideraram incoerente o enfermeiro fumar. Esse aspecto é visto como um problema pelos alunos uma vez que o enfermeiro trabalha com questões como a prevenção, a promoção e o cuidado com a saúde. Ao mesmo tempo alguns, uma minoria de entrevistados afirma que o uso de tabaco pelo profissional de saúde não deve ser considerado um empecilho para sua prática.  

Avaliamos que existe uma tendência a perceber o tabagismo entre profissionais de saúde como uma questão ética, mesmo que velada. Essa associação está visivelmente relacionada ao juízo de valor que os alunos fazem em relação ao profissional que prescreve condutas e comportamentos saudáveis, mas ao mesmo tempo não os adota em sua vida diária. Isso pode gerar embates teóricos e mesmo não sejam consistentes, guardam em suas entrelinhas as dúvidas que os alunos têm sobre a questão ética e bioética do cuidado em sua formação, o que vai ao encontro do que Boemer e Zanatta discutiram em sua pesquisa a respeito do tema (17-18).

A maioria dos graduandos de enfermagem entrevistados (51,7%) considerou-se capaz de intervir e ajudar na interrupção do uso de tabaco sendo que do total de alunos que responderam ao questionário, 33,3% avaliaram que não estão preparados para trabalhar de forma efetiva a questão. Quando afirmam que podem desenvolver ações destinadas ao tratamento da pessoa dependente de tabaco a questão não fica clara em relação a que ações poderiam efetivamente ser realizadas. O entendimento da questão está relacionado aos agravos, a patologias associadas e não necessariamente às abordagens terapêuticas que são desconhecidas pelos alunos.

Dentre os familiares fumantes foram citados os tios (43,3%), pai (28,3%), primos (23,3%), tias (21,7%), mãe e irmão (8,3%), avô (6,7%), avó (5%) e irmã (3,3%), totalizando 75% parentes tabagistas. Entre os estudantes pesquisados 60% consideram a convivência com familiares e amigos fumantes como influencia ao uso do tabaco, apesar dos alunos afirmarem em sua maioria que não possuem amigos que fumam a presença de familiares que fazem uso de tabaco é significativa.

Entre os entrevistados 71,7% concordam que o tabagismo pode vir a ser um problema ético para os enfermeiros, 20% acreditam não haver problema, 43,3% apontam que em alguns casos pode ser uma situação problemática e 36,7% consideram isso um sério problema. Os dados demonstraram que 58,3% dos entrevistados nunca utilizaram tabaco como um meio de interagir com seus pares. O tabagismo foi considerado como uma doença (81,7%) e todos os alunos entrevistados afirmaram que o mesmo tem cura.

Os homens (40,2%), adolescentes (30,4%) e adultos (23,9%), foram considerados os que mais fumam. Dentre os acadêmicos tabagistas três são do sexo feminino e um do sexo masculino, as idades são 19, 20, 22 e 29 anos. Todos à época da coleta de dados estavam motivados a pararem de fumar nos próximos seis meses.

Os estudantes em sua maioria consideram que enquanto enfermeiros detêm competências para desenvolver um programa de prevenção ao uso do tabaco, mas não conseguem especificar isso claramente e nem tão pouco utilizam exemplos para tal.

Estes alunos relataram fumar o primeiro cigarro após acordarem (60 minutos em média), porém citaram que o cigarro que traz maior satisfação não é o primeiro, mas sim aquele que está associado ao alívio de situações de estresse. Entre os alunos desse grupo foi citado que não fumar em locais proibidos não é considerado um incômodo, o que aponta para uma dependência baixa ou moderada à substância, visto que fumantes com dependência grave relatam que esta é uma situação de incômodo (8).  

Os entrevistados que usam tabaco relataram que em média fumam 10 cigarros ou menos por dia e que não fumam quando doentes, associando o uso do mesmo a piora do quadro clínico de qualquer patologia.

Um estudo realizado em quatro capitais brasileiras com 800 fumantes avaliou que a maioria dos entrevistados declarou desejar deixar de fumar e apresentou grau de dependência de nicotina de baixo a moderado. Quanto maior a motivação dos indivíduos para deixar de fumar, maior o número de tentativas que já haviam feito,  e maior a probabilidade de terem recebido conselho médico. Apenas 21% do total da amostra foram aconselhados pelos seus médicos a parar de fumar. Para os autores o Brasil, se comparado a países europeus, parece ter uma população com um alto grau de conscientização na “luta anti-tabaco” (2).

Estudo realizado com graduandos de enfermagem aponta que estes alunos tiveram contato com o tema tabagismo apenas nas disciplinas de psiquiatria e saúde pública, estando a primeira relacionada a questões de uso, abuso, tolerância e dependência e a segunda à prevenção e às medidas educativas. Já em outros momentos o acadêmico em seu período de formação terá contato com este conteúdo específico quando o mesmo estiver atrelado às suas complicações, tais como o câncer e as doenças coronarianas (3).

As questões relacionadas ao entorno da pessoa, tais como fatores culturais e sociais, são consideradas preocupantes em relação ao uso do tabaco. Estudo realizado sobre a epidemiologia do tabagismo entre estudantes das ciências da saúde em Barcelona – Espanha detectou que o fato de ser um estudante da área da saúde não interfere no hábito de fumar. Segundo os autores da pesquisa talvez fosse necessário planejar de programas educativos destinados à educação pré-universitária e a introduzir disciplinas específicas sobre o tabagismo na grade curricular dos cursos de graduação em saúde (13).

Para os acadêmicos ouvidos em nosso estudo a questão entre ser um profissional de saúde e fumar tem contornos diferentes, no primeiro caso o profissional é visto como “pessoas que não prezam sua saúde, não deviam trabalhar na área da saúde e geralmente desrespeitam o ambiente alheio. Deixando aquele cheiro desagradável por onde passam” (A1.7), ou seja, está associado à questão de decisão pessoal e desrespeito à sua saúde e a dos que o cercam. O fumante passivo está exposto tanto quanto o fumante contumaz aos males causados pelo tabaco e os alunos que participaram do estudo demonstram claramente esta associação, entretanto a afirmativa acima também apresenta juízo de valor em relação ao tema (4).

Outra questão está ligada à responsabilização desse profissional pelos seus atos, quando perguntado sobre o que acha do profissional de saúde que fuma:

Não tenho nada contra, principalmente se for uma pessoa instruída como um enfermeiro, a pessoa sabe o mal que o cigarro esta fazendo e fuma porque quer. Por isso não sou contra profissionais da área da saúde fumar. Se a pessoa quer se prejudicar com consciência o problema é dela. Preocupo mais com a falta de instrução, principalmente adolescentes que começam a fumar sem saber as conseqüências desse ato. (A2.3)

De acordo com esse aluno, o profissional de saúde deve se preocupar apenas com aquelas pessoas que fumam, mas que não têm informação suficiente a respeito dos malefícios causados pelo uso do tabaco. Já o profissional de saúde por ter informação e formação suficiente torna-se responsável pelos agravos causados por essa prática, passando a ser responsável por sua decisão de fumar e sua condição de tabagista é agravada teoricamente por estar ciente dos malefícios que advém do uso da nicotina.

Corroborando esta percepção, apresentamos aqui trechos de respostas que associam o tabagismo a uma questão pessoal, que deve ser respeitada, mas que não deve incomodar as pessoas.

Não gosto de cigarro, mas acho uma escolha de cada um (A 3.5),

Acho ruim quando fumam perto de mim em lugar fechado, mas não tenho nada contra quem fuma (A 3.11)

Não gosto de cigarros, mas não tenho nenhum problema com pessoas que fumam (A 3.9)

É uma opção. Não dá pra julgar. Eu acho que é uma questão de comportamento (A 1.19)

Percebemos que há uma inclinação para a aceitação do tabagismo enquanto um direito, mas que este é rechaçado quando passa a incomodar, em especial o incômodo causado pela fumaça. Para os alunos o fumante deve ser orientado de alguma forma como sugerem as falas a seguir:

Respeito à opção da pessoa, mas se eu puder fazer algo que faça mudar de idéia ou pensar no assunto, farei. (A 3.12)

Acredito que fumar prejudica tanto o fumante quanto as pessoas que não fumam e estão no mesmo ambiente. (A 4.7)

O tabagismo é um dos principais problemas de saúde pública. Médicos e enfermeiros que fumam dedicam-se menos à orientação dos pacientes em relação aos malefícios do tabagismo, pois a credibilidade das suas palavras poderá ser colocada à prova quando mostrarem seu comportamento tabágico. A literatura demonstra que os profissionais de saúde que fumam, acabam influenciando um comportamento doentio e desencorajando a cessação do fumar, pois reforçam para o paciente que talvez o tabaco não faça tão mal quanto se diz (6).

É importante, também chamar a atenção para o fato dos acadêmicos de enfermagem apresentarem um discurso conflitante em relação à consciência ou não dos enfermeiros sobre os males do fumo.

Eu acho que as pessoas estão cometendo um grande erro com elas mesmas, prejudicando sua própria saúde (A 1.5)

Acho que o fumante é irresponsável com a sua saúde (Aluno 4.9). Se auto- prejudicam. (A1.14)

Acho que a pessoa não tem consciência do mal que está causando com sua saúde.  (A 1.15)

É inconseqüente, porque não pensa ou liga para o que possa acontecer com sua saúde.  ( A 1.17)

Não tem consciência dos males que o cigarro causa.  (A 4.6)

As pessoas devem se conscientizar do mal que o cigarro faz à saúde. Não reprimo, mas também não apoio.  (A 4.5)

Os alunos percebem o tabagista enquanto uma pessoa que não tem consciência dos males advindos do fumo e de outro como alguém que apesar de ter essa informação não se importa com que os agravos à sua saúde. Essa percepção talvez esteja associada a dificuldade que o aluno possui em relação à compreensão do tema, enquanto doença que causa dependência física e psíquica e que possui estratégias de tratamento que consideram essa questão.

Quando perguntamos o que acham dos profissionais de saúde que fumam, os alunos responderam:

Pessoas que sabem do perigo à saúde, mas o vício é maior que isso.  (A 1.3)

São pessoas que, na sua maioria, sabem que estão caminhando para um grande problema. (A1.2),

Tolas, pois sabem dos males causados pelo fumo e mesmo assim o consomem.  (A 1.12)

Eles sabem dos males do cigarro então fumar é uma opção de cada um e não julgo quem faz uso de cigarro.  (A 2.3)

As respostas compiladas apresentam nitidamente um discurso do senso comum, sem fundamentação teórica consistente com a epidemiologia do uso do tabaco, seus efeitos deletérios e seu tratamento, o que novamente chama a atenção para a necessidade de formação do aluno de graduação em relação a esse tema.

Os caminhos para combater o tabagismo vão desde a informação, prevenção e educação em saúde, até tratamento clínico medicamentoso e psicoterápico. A síndrome de abstinência, caracterizada pela fissura, irritabilidade, alterações do sono, aumento do apetite, sintomas depressivos dificultam o abandono do hábito de fumar e geram sofrimento ao tabagista (11). Os estudantes de enfermagem consideram que os fumantes são pessoas que têm problemas e precisam de ajuda, mas em suas falas não apresentam elementos que possam dar indícios sobre o seu conhecimento científico sobre o tema.

Que é uma pessoa que precisa de ajuda (A 3.13)

Acredito que uma pessoa fumante necessita de apoio, ajuda (A 3.15)

Acho que são pessoas que precisam de ajuda, pois o cigarro causa dependência que não pode ser vencida facilmente (A 4.3)

As medidas empreendidas para que a população deixe de fumar estão baseadas na perspectiva de que o profissional de saúde estimule e motive as pessoas a adotarem hábitos de vida mais saudáveis (11).

Os enfermeiros diante desse problema de saúde pública têm desempenhado ações de relevância não só no âmbito da atenção primária, mas também no nível terciário de atenção à saúde. As estratégias de intervenção vão da utilização das terapias de grupo, passando pela intervenção breve, psicoterapia individual, intervenções de caráter cognitivo comportamental, psicoeducação, até a utilização da terapia farmacológica (13).

De acordo com as respostas dos estudantes, observamos que o senso comum se manteve em relação ao tratamento, intervenção, cuidado do usuário de tabaco. Verificamos a opinião dos alunos sobre o tema é construída de acordo com suas vivências do dia-a-dia. Em nenhum momento a questão do conhecimento científico acerca do tabagismo foi utilizada para embasar suas idéias e que mesmo diante dessa observação os alunos não fazem essa crítica à formação.

Outra questão importante é que esses alunos não receberam durante a graduação conteúdo específico ao uso de tabaco o que explica as questões anteriores, mesmo o tema sendo abordado em outras disciplinas enquanto um problema de saúde pública.

Não foi encontrado nenhum indício explicito de que o fato de ser um aluno da área da saúde pudesse estar associado ao não uso de tabaco, embora mesmo no senso comum, as falas dos alunos tragam a incoerência do ser enfermeiro e fazer uso dessa substância.

Acreditamos que diante dessas informações podemos estar inserindo o tema em diferentes momentos das disciplinas da graduação, em especial àquelas que fazem interface com a questão, tais como clínica médica, enfermagem psiquiátrica, saúde pública, saúde da criança e adolescente entre outras, dado que o uso de tabaco influencia vários aspectos da área da saúde.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Toda e qualquer intervenção no sentido de auxiliar o tabagista a abandonar o tabagismo é válida e deve ser considerada. O tabagismo é um fenômeno mundial mantido por processos que vão desde a fisiologia e condicionamento comportamental, até as políticas internacionais. Os enfermeiros podem e devem estar engajados nessas políticas, utilizando as estratégias possíveis para o combate ao tabagismo de forma interdisciplinar.

Conhecendo a compreensão do aluno de enfermagem a respeito do tema, podemos planejar e avaliar de que forma este conteúdo específico deve ser trabalhado durante a graduação. Ao entrevistarmos alunos que estão no início, meio e fim do curso e observamos nítidas lacunas em relação ao conhecimento científico estruturado sobre o tema, dado que as informações estão soltas e baseadas no senso comum, acreditamos que a temática deve ser trabalhada de foram mais clara, prática e conceitual, quer seja em uma disciplina ou perpassando todo o currículo.

O fato dos alunos afirmarem com convicção que estão aptos a realizarem ações de prevenção e combate ao uso do tabaco, mesmo apresentando um discurso frágil em relação ao ‘como fazer’ nos preocupa e aponta para a necessidade de trabalhar a questão. Diante desse conhecimento cabe repensar nossa prática enquanto docentes da área de enfermagem psiquiátrica que vem trabalhando historicamente a questão há mais tempo.

É necessário também incentivar que este conteúdo seja trabalhado em outras disciplinas e que o aluno tenha a possibilidade de realizar ações práticas, quer seja nos estágios curriculares ou em ações vinculadas a projetos de extensão.

Acreditamos que a participação do enfermeiro nessa área passa pela formação acadêmica e pelo desenvolvimento de competências e habilidades para o trabalho com as ações anti-tabágicas.

O conhecimento da percepção que os alunos de enfermagem têm sobre o tabagismo pode orientar os formadores a planejar uma abordagem significativa sobre o tema quando este for abordado em forma de conteúdo nas diferentes disciplinas que compõem a matriz curricular dos cursos de enfermagem.

 

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Artigo recebido em 20.11.06

Aprovado para publicação em 27.08.07

 

 

1Trabalho financiado pelo Programa de Iniciação Científica – BIC Júnior/FAPEMIG/2005.

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