Artigo de Atualização

 

Oliveira SHS, Pagliuca LMF, Barroso MGT. Análise do círculo de contágio da teoria da ação racional e sua adequação à enfermagem. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2007;9(3):866-77. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v9/n3/v9n3a25.htm

 

Análise do círculo de contágio da teoria da ação racional e sua adequação à enfermagem

 

Analysis of the contagion circle in rational action theory and its adequacy for nursing

 

Análisis del círculo de contagio de la teoría de la acción racional y su adecuación la enfermería

 

 

Simone Helena dos Santos OliveiraI, Lorita Marlena Freitag PagliucaII, Maria Grasiela Teixeira BarrosoIII

IEnfermeira Doutoranda em Enfermagem pela UFC, Professora da Escola Técnica de Saúde da UFPB. E-mail: simonehso@yahoo.com.br

IIEnfermeira Doutora em Enfermagem, Professora Titular do Departamento de Enfermagem da UFC. Fortaleza – CE. E-mail: pagliuca@ufc.br

IIIEnfermeira Doutora em Enfermagem, Livre Docente e Profa. Emérita da UFC. Fortaleza – CE. E-mail: grasiela@ufc.br

 

 


RESUMO

A avaliação de teorias é papel de extrema relevância a ser desempenhado pelas enfermeiras com vistas a poderem tomar decisões respaldadas em estruturas teóricas consistentes e adequadas à realidade vivenciada. A partir de tal entendimento, decidiu-se analisar a Teoria da Ação Racional (TAR) no referente ao círculo de contágio e sua aproximação e possível adequação para o estudo dos fenômenos no âmbito da enfermagem.  Trata-se de um estudo de análise interpretativa da TAR para o qual se utilizou o modelo de avaliação de teorias proposto por Meleis, enfocando  especificamente o círculo de contágio. Procedeu-se à busca de periódicos indexados no LILACS, observando-se as áreas do conhecimento em que os estudos foram desenvolvidos e os enfoques abordados. Os resultados evidenciaram onze estudos nas áreas de psicologia, nutrição e enfermagem, em que a teoria foi usada para pesquisas científicas predominantemente no campo da saúde, como possível instrumento para identificação de fatores que funcionem como determinantes positivos ou negativos de influência na realização de um determinado comportamento. A teoria mostra-se pertinente para tratar fenômenos nos diversos campos de atuação da enfermagem, pois enfoca o comportamento humano, presente em todos os locais onde se pretenda investigar e atuar.

Palavras chave: Teorias; Enfermagem; Análise; Modelo; Comportamento.


ABSTRACT

Assessing theories allows for decision making based on consistent and adequate structures. In this study, we analyze Rational Action Theory (RAT) and its approach and adequacy to study nursing phenomena. Meleis’ theory assessment model was used for interpretive analysis, specifically focusing on the contagion circle. We looked for journals indexed in LILACS, cataloging the knowledge areas the studies were developed in and the addressed foci. Results evidenced eleven publications in psychology, nutrition and nursing. The theory has been predominantly used in health, as an instrument to identify factors acting as positive or negative influence determinants in the realization of a specific behavior. This theory is pertinent to address phenomena in different nursing activity areas, as it focuses on human behavior.

Key words: Theory; Nursing; Analysis; Models; Behavior.


RESUMEN

Evaluar teorías permite tomar decisiones apoyadas en estructuras consistentes y adecuadas. Se analizó la Teoría de la Acción Racional (TAR) en cuanto al círculo de contagio y su aproximación y adecuación para el estudio de los fenómenos en el ámbito de la enfermería. El análisis interpretativo utilizó el modelo de evaluación de teorías de Meleis, enfocando específicamente el círculo de contagio. Se investigaron periódicos indexados en LILACS, catalogando las áreas del conocimiento en que los estudios fueron desarrollados y los enfoques tratados. Los resultados evidenciaron once publicaciones en las áreas de psicología, nutrición y enfermería. Fue utilizada para investigaciones predominantemente en el campo de la salud, como instrumento para identificación de factores que funcionan como determinantes positivos o negativos de influencia en la realización de un determinado comportamiento. La teoría se muestra pertinente para tratar fenómenos en los diversos campos de actuación de la enfermería, ya que enfoca el comportamiento humano.

Palabras clave: Análisis; Modelos de enfermería; Teoría de enfermería; Comportamiento.


 

 

INTRODUÇÃO

A análise de teoria é definida como um processo de identificação de partes e componentes examinados em relação ao número de critérios identificados, incluindo a análise de conceito e de teoria. Envolve importantes variáveis possíveis de influenciar o desenvolvimento da teoria e sua estrutura - o teorista, origens paradigmáticas e dimensões internas - critérios estes que oferecem melhor entendimento da escolha da questão central da teoria, objetivos, fenômenos e estratégias para o seu desenvolvimento. Conforme observado, tal análise mostra-se muito útil para o entendimento da experiência de vivenciar a saúde e a doença, em especial com as ciências que lidam com a experiência humana e com o processo orientado para a prática. O objetivo do desenvolvimento de teorias é descrever, explicar e compreender a natureza dos fenômenos e antecipar sua ocorrência, bem como de eventos e situações relacionadas direta ou indiretamente com o cuidado de enfermagem (1).

Considerando a enfermagem como um processo ou sistema no qual são utilizados métodos, normas e procedimentos específicos, organizados e fundamentados em uma filosofia e objetivos definidos, para conhecer e atender as necessidades básicas afetadas da pessoa humana (2) e entendendo-a como ciência cujas ações estão relacionadas com a prática da saúde cabe, pois o desenvolvimento, aprimoramento e uso de teorias que busquem ao máximo se adequar ao estudo da complexidade de fenômenos difundidos na totalidade social.

Assim, ao selecionar uma teoria como referencial para análise de dada situação ou problema, o pesquisador deve estar atento ao arcabouço teórico por ela proporcionado, aos seus limites de uso e a sua coerência com o objeto de estudo ao qual se busca compreender e possivelmente dar respostas. Embora as teorias desenvolvidas no campo da enfermagem tenham servido de suporte na tentativa de compreender diversos fenômenos, parece haver ainda muito a percorrer para estas poderem servir de base para refletimos sobre a complexa magnitude dos problemas surgidos nos campos de ação dessa área – ensino, pesquisa, educação e administração.

Diante disso, em algumas situações particulares é preciso lançar mão de teorias desenvolvidas e utilizadas em áreas afins para descrição, compreensão e intervenção no referente a fenômenos presentes na área da saúde e, de modo particular, na enfermagem. Entretanto, como afirmado, necessário se faz atentar para a pertinência do uso em relação ao objeto estudado.

Segundo se ressalta a avaliação de teorias é papel de extrema relevância a ser desempenhado pelas enfermeiras para melhor utilizá-las no seu campo de atuação, seja na prática assistencial, na administração, no ensino e/ou na pesquisa, a fim de se tomar decisões respaldadas em estruturas teóricas consistentes e adequadas à realidade vivenciada.

A partir de tal entendimento e da constatação de que muitas ações em saúde buscam, por meio da mudança de comportamento, a melhoria da qualidade de vida, decidiu-se analisar a Teoria da Ação Racional (3) no concernente ao círculo de contágio, que em linhas gerais abrange a origem, influência do teorista, desenvolvimento, finalidade de uso da teoria, sua aproximação e possível adequação para o estudo dos fenômenos no âmbito da enfermagem.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo de análise interpretativa (4) da TAR (3) para o qual se utilizou o modelo de avaliação de teorias proposto por Meleis(1), enfocando a etapa crítica do método, especificamente o relacionado ao círculo de contágio.

Procurou-se, então, identificar se a TAR é adotada por pesquisadores de outras áreas além da psicologia. Para tanto, procedeu-se à busca de periódicos indexados no banco de dados da Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) no período de 16 a 30 de outubro, utilizando como descritor o próprio nome da teoria, obtendo-se onze publicações nas áreas de psicologia, nutrição e enfermagem, constituídas por artigos, dissertações e teses. Considerando o pequeno número de estudos obtidos, decidiu-se incluir todos, independente do ano de publicação, haja vista nossa investigação delimitar-se a avaliação do circulo de contágio da teoria. Foram analisados os resumos, observando-se as áreas do conhecimento nos quais os estudos foram desenvolvidos e os enfoques abordados. Em atendimento ao método de análise selecionado, foram propostas as seguintes questões analíticas: Onde a teoria foi inicialmente introduzida? Onde a teoria tem sido desenvolvida? Qual a finalidade do seu uso? Pesquisa, educação, administração ou prática clínica?

A partir de leituras, análises e releituras dos resumos e considerando os questionamentos recomendados pelo modelo de análise adotado, procurou-se verificar a aproximação e adequação de uso da TAR, desenvolvida por teóricos em psicologia social para entender e predizer o comportamento humano, relacionando-a ao estudo dos fenômenos no âmbito da enfermagem, cujo alvo seja o comportamento em saúde e para a promoção da saúde.

Modelo de Análise de Teoria

Conforme estabelecido, o modelo adotado para avaliação de teorias consta de cinco etapas: descrição, análise, crítica, teste e apoio da teoria. A descrição compreende componentes estruturais, isto é, os pressupostos, conceitos e proposições, e componentes funcionais, que consideram cuidadosamente a antecipação das conseqüências e dos propósitos da teoria, envolvendo: foco, cliente, enfermagem, saúde, ambiente, problemas de enfermagem e terapêutica de enfermagem(1).

A análise é definida como um processo de identificação de partes e componentes examinados em relação ao número de critérios identificados e inclui a análise de conceito e de teoria. Enquanto a análise do conceito é um processo útil para o desenvolvimento e avaliação da teoria e compreende as análises da semântica, da derivação lógica e do contexto, a análise da teoria envolve importantes variáveis que podem influenciar o desenvolvimento da teoria e sua estrutura, abrangendo o teorista, as origens paradigmáticas e as dimensões internas (1).

Já a crítica de teorias objetiva estabelecer a relação entre estrutura e função, analisar o diagrama da teoria e o círculo de contágio. O círculo de contágio, enfoque central deste estudo, apresenta como unidades de análise a origem geográfica da teoria e a influência do teorista versus teoria, mediante questões analíticas que investigam o campo onde a teoria foi inicialmente introduzida, a influência do teorista na sua implementação, onde tem se dado o seu desenvolvimento e qual sua finalidade de uso na pesquisa, educação, administração ou prática clínica (1).

Ao tentar identificar onde a teoria foi inicialmente introduzida, o pesquisador tem a possibilidade de se deparar com as inquietações e as especificidades que motivaram teóricos a desenvolverem e proporem novas teorias. A ampliação dessa aproximação inicial do pesquisador com a teoria expande-se mais com o segundo questionamento, que busca identificar onde a teoria tem sido desenvolvida ou aplicada. Pode-se, a partir deste questionamento, identificar as áreas ou os problemas nas quais a teoria pode ser adequadamente aplicável ou não, tornando claro ao pesquisador seus limites de uso, aspecto reforçado quando se procura a resposta para a finalidade de sua utilização, seja na pesquisa, educação, administração ou prática clínica.

A crítica a teorias, tomando como base algumas das questões analíticas do círculo de contágio, possibilita ao pesquisador discernir sobre as possibilidades de uso de um referencial teórico para a compreensão e possível intervenção em fenômenos presentes em diversas áreas do conhecimento.

No modelo inclui-se ainda o teste ou verificação de teorias como uma das etapas de análise de teorias. O teste consiste em um processo sistemático de proposições teóricas sujeitas ao rigor da pesquisa em todas as suas formas e abordagens, proporcionando resultados que podem modificar ou refinar as proposições da pesquisa.

Outro critério para avaliação de teorias é o apoio, e a partir dele se verifica até que ponto a teoria possui fundamento, atraindo estudiosos dedicados e leais, que utilizam a teoria em trabalhos e situações diversas.

Conforme se ressalta, a finalidade da avaliação de uma teoria não é somente sua validação, pois é essencial considerar o fundamento e a afirmação/prova das partes da teoria, assim como seus componentes. Ante as exposições aludidas, buscou-se, por meio da etapa crítica do modelo de análise, especificamente do círculo de contágio, verificar a pertinência de uso de uma teoria desenvolvida no âmbito da psicologia social, a Teoria da Ação Racional, para o estudo de problemas tidos como fonte de preocupações e pesquisas na enfermagem.

A Teoria da Ação Racional

A Teoria da Ação Racional tem sido aplicada para predizer o comportamento do indivíduo diante de determinada situação. De maneira geral, a teoria baseia-se na hipótese de que os indivíduos são completamente racionais e fazem uso sistemático das informações que lhes são disponíveis, ou seja, antes de realizarem ou não dado comportamento avaliam as conseqüências de suas ações. Desta forma, a teoria opõe-se à visão de que o comportamento social humano seja controlado por motivos inconscientes ou desejos dominadores, bem como de que ele possa ser caracterizado como não volitivo (3).

Seus objetivos finais são entender e predizer o comportamento do indivíduo. Para predizer um comportamento de interesse faz-se necessário, em primeiro lugar, identificá-lo e mensurá-lo. Se este está claramente definido, é possível perguntar o quê o determina. Para a teoria, o determinante imediato do comportamento é a intenção de uma pessoa em executá-lo ou não, embora isto não signifique que sempre haverá perfeita correspondência entre intenção e comportamento. No entanto, de maneira geral, uma pessoa sempre agirá em concordância com sua intenção (3).

Contudo, a noção de que as intenções predizem o comportamento não fornece, por si só, informações sobre as razões para a ocorrência deste. Então, para entender o comportamento humano, a teoria propõe, como segundo passo, a identificação dos determinantes da intenção. Assim, segundo se considera, esta é uma função de dois determinantes básicos: um, de natureza pessoal, e outro, de influência social.

Diante disso, a Teoria da Ação Racional utiliza cinco construtos – as crenças comportamentais (e as avaliações de suas conseqüências), a atitude, as crenças normativas (e as motivações para concordar), a norma subjetiva e a intenção comportamental, para predizer e explicar comportamentos específicos. Considera ainda a importância relativa dos componentes atitudinais e normativa (Figura 1).

figura1

Para cada comportamento, a teoria permite determinar o componente que mais exerce influência sobre a intenção comportamental, ou seja, se a intenção é influenciada por fatores atitudinais, normativos, ou por ambos.

As crenças das pessoas com base na informação disponível originam a atitude e a norma subjetiva. A atitude “refere-se à quantidade de afeto pró ou contra um objeto psicológico, objeto este que pode ser uma pessoa, um comportamento ou algo qualquer”. Quanto à medição do afeto, pode ser realizada por meio de procedimentos que localizem o sujeito numa dimensão bipolar, colocando-o de frente a um objeto específico (3). A medida direta da atitude pode ser obtida por um diferencial semântico, geralmente do tipo “bom-mau, agradável-desagradável, benéfico-nocivo, prudente-imprudente” (5)

O componente atitudinal denominado atitude comportamental é um fator de ordem pessoal determinado pelas crenças comportamentais, associadas à avaliação feita pelo indivíduo sobre as conseqüências de um comportamento, ou seja, a atitude comportamental é uma função entre o que a pessoa acredita que vai acontecer, em conseqüência de um comportamento (crenças comportamentais), e das suas avaliações positivas e negativas sobre as conseqüências deste (avaliação das conseqüências), constituindo um dos aspectos envolvidos na decisão (4,5).

Por meio dessas crenças, a pessoa pondera cada uma das conseqüências de uma futura ação, numa dimensão de favorabilidade ou desfavorabilidade. A soma dos produtos da probabilidade de ocorrência de cada crença, pela sua avaliação, irá se constituir numa medida indireta da atitude. Conforme referido, ao se mensurar a força das crenças modais salientes e sua avaliação, obtém-se uma medida indireta da atitude que irá fornecer a predição e explicar os elementos que a constituem. São as chamadas de crenças comportamentais.

Em linhas gerais, uma crença liga-se a um objeto por meio de atributos, os quais têm como função qualificar o objeto. O fator que liga um objeto, associando-o a um atributo, é denominado de força da crença. Esta, por sua vez, irá expressar o grau em que o sujeito acredita que determinado objeto está ligado a uma qualidade ou atributo (4,5).

A norma subjetiva, segundo componente do modelo, origina-se da percepção do sujeito acerca da aprovação ou não do comportamento que ele pretende desempenhar, por um conjunto de pessoas importantes para ele, ou seja, consiste na percepção sobre as pressões sociais por ele sofridas para realizar ou não um comportamento em questão. Caracteriza-se pelos aspectos da influência do ambiente social sobre a intenção e o comportamento a ser desempenhado, e refere-se a uma prescrição comportamental atribuída a um agente social mais genérico (3).

De acordo com a teoria, a norma subjetiva é determinada pelas crenças normativas modais salientes, sendo estas definidas como as crenças do sujeito sobre as expectativas normativas de outras pessoas específicas (referentes), pertencentes ao seu meio, em relação ao desempenho, ou não, de determinado comportamento, pelo sujeito. Os referentes podem variar conforme com o comportamento sob investigação, e o peso de cada referente depende do nível de motivação da pessoa para seguir aquilo que esperam dela. A soma dos produtos entre a força das crenças normativas e a motivação para concordar com os referentes constituir-se-á a medida indireta da norma subjetiva.

A importância relativa dos componentes atitudinais e normativos na determinação da intenção dependem dos tipos de comportamento, da situação e das características da pessoa. Para algumas pessoas, as considerações atitudinais podem ser mais importantes do que as normativas, enquanto, para outras, as considerações normativas podem predominar, ou seja, os pesos relativos dos fatores normativos e atitudinais podem variar de pessoa para pessoa. Freqüentemente, ambos os fatores são determinantes importantes da intenção (3).

Para muitos propósitos práticos este nível de explicação pode ser suficiente, sendo possível predizer e obter alguma compreensão da intenção de uma pessoa por meio da mensuração da atitude e da norma subjetiva, em relação à execução de um comportamento e seus pesos relativos. Entretanto, para uma compreensão mais completa das intenções, faz-se necessário explicar por que as pessoas adotam certas atitudes e normas subjetivas, e a teoria também procura responder a estas questões.

Como visto as crenças das pessoas com base na informação disponível, originam a atitude e a normasubjetiva. Estas exercem influência sobre a intenção comportamental, considerada o melhor preditor do comportamento (6).

Considerada o melhor preditor do comportamento, no seu sentido mais amplo, a intenção comportamental refere-se ao propósito de determinada pessoa em desempenhar certo comportamento. Considera-se esta variável como um tipo particular de crença segundo a qual a pessoa é o objeto, e o atributo a ela associado é sempre um comportamento. Semelhante às crenças, existe a força da intenção, definida como o grau em que a pessoa acha que vai desempenhar aquele comportamento, cuja medição deve ser realizada colocando-se o indivíduo ao longo de uma dimensão probabilística subjetiva, para, desse modo, considerar o comportamento em questão. Por sua vez, o comportamento, irá expressar a escolha ponderada entre as várias alternativas existentes (3,5).

Embora a definição e a mensuração de um comportamento pareçam ser tarefas simples, segundo os autores afirmam numa visão mais detalhada, esses procedimentos não são tão simples como parecem. Um dos aspectos a ser levado em conta refere-se à distinção entre o comportamento investigado e suas conseqüências, pois, muitas vezes, confunde-se comportamento e resultadosdecomportamento. Estes, além de constituírem-se conjuntos de vários comportamentos, freqüentemente incluem fatores alheios à ação isolada do sujeito (5).

A categoria comportamental diz respeito, de forma específica, a atos observáveis do sujeito, obtidos por registros de observação, relatos verbais, ou mediante respostas a questionários. Em última análise, é determinada pelas crenças. Tal fato, porém, não permite se afirmar que exista uma relação direta entre crenças e comportamento. Diante disso, torna-se necessário observar as relações entre os construtos da teoria (3).

Entretanto, alguns fatores interferem no nível de determinada relação entre intenção e comportamento, e um deles refere-se à estabilidade da intenção comportamental. A exemplo disso, fatos acontecidos ao longo do tempo podem modificar a intenção de uma pessoa. Então, quanto menor for o intervalo de tempo entre uma medida da intenção e a observação do comportamento, maior será a probabilidade de ser esta relação mais forte. De forma inversa, quanto maior o intervalo entre a medida da intenção e a observação do comportamento, menor a probabilidade da relação entre eles (5).

Um dos pontos essenciais na teoria consiste no fato de que as atitudes e normas subjetivas dependem de fatores de natureza cognitiva, ou seja, as crenças. Portanto, não basta apenas identificar o determinante que controla o comportamento, mas também identificar e modificar as crenças que determinam estas variáveis (3).

Como observado, os estudos ora desenvolvidos, tomando como base a Teoria da Ação Racional, têm apontado caminhos para a mudança de comportamentos de natureza diversa, a partir da predição destes, por meio da identificação das crenças que influem no seu desempenho.

O Círculo de Contágio da Teoria da Ação Racional e sua Adequação ao Estudo dos Fenômenos no Campo da Enfermagem

A TAR foi inicialmente apresentada em 1975 por Ajzen e Fishbein, professores e pesquisadores americanos na área da psicologia social. Na primeira versão a teoria descreveu as relações entre crenças, atitude, intenção e comportamento. Na segunda versão foi apresentada uma revisão geral da teoria, bem como pesquisas relativas às aplicações práticas desta, complementando o volume precedente. Como ressaltado, os teoristas procuram demonstrar as diferentes aplicações do referencial teórico e metodológico proposto em diversos problemas de significação social, abrangendo temáticas que envolvem a predição e o entendimento de comportamentos relativos à perda de peso, à orientação ocupacional de mulheres, ao planejamento familiar, ao consumidor, ao voto e ao alcoolismo.

Neste estudo, o levantamento no banco de dados LILACS evidenciou a existência de publicações nas áreas de psicologia, nutrição e enfermagem. No âmbito da psicologia, foram identificados cinco artigos, cujas temáticas enfocaram questões diversas, como: aspectos psicossociais na prevenção do infarto (7); crenças de mulheres em relação à prática do auto-exame da mama (8); intenção de jovens em candidatar-se a um cargo governamental eletivo (9); relação atitude-comportamento (10) e influência da atitude e da norma subjetiva sobre a intenção comportamental relativa ao comportamento sexual pré-marital (11).

Dos cinco artigos, três se voltaram para aspectos concernentes à saúde, sendo dois direcionados de modo particular ao campo da prevenção. Nestes estudos, procurou-se identificar os determinantes da intenção comportamental de adotar comportamentos preventivos a agravos à saúde, como a prática da caminhada três vezes por semana para prevenção da ocorrência de infarto do miocárdio (7) e a realização do auto-exame de mama em mulheres de baixa renda e escolaridade para prevenção do câncer de mama(8). Percebem-se, então, com clareza a determinância predominante de fatores de origem atitudinal ou normativa ou de ambos. Conforme demonstraram os resultados obtidos nestas investigações, o modelo da TAR é capaz de predizer os comportamentos em questão, bem como de identificar os fatores que o determinam.

No concernente à nutrição, foi identificado um artigo cujo teor aponta o uso de abordagens cognitivo-comportamentais como possível método auxiliar para o tratamento da obesidade. Segundo observado, é pequeno o número de estudos que contemplam o enlace da nutrição e psicologia na modificação de comportamentos ligados à saúde, mostrando a importância dessa interligação no contexto da Saúde Pública, especialmente no tratamento da obesidade.  Contudo, a utilização da TAR, como uma abordagem cognitivo-comportamental, é apontada como possível fonte para a modificação de comportamentos ligados à saúde, pois busca medir a intenção pessoal de aderir a uma modificação de hábitos para, mediante comunicações persuasivas específicas, motivar a adesão a comportamentos mais saudáveis. Todavia, conforme se espera, futuramente, a aplicação desta teoria em conjunto com o tratamento nutricional inovador, poderá conduzir os pacientes obesos a assumirem comportamentos mais favoráveis à perda de peso, aumentando sua persistência terapêutica (12).

No campo da enfermagem foram encontrados cinco estudos, quais sejam: um artigo publicado em periódico, três dissertações de mestrado e uma tese de doutorado. As temáticas versaram sobre: crenças de adolescentes relacionadas ao uso do preservativo (13); fatores que influenciam o uso do preservativo entre adolescentes (14); crenças mais significativas em relação ao transplante e doação de órgãos (15); conhecimentos sobre os tipos de alimentos ricos em gordura e crenças sobre o consumo desses alimentos (16) e determinantes do comportamento caminhar junto a pacientes infartados (17). Quatro desses estudos se referiram à possível mudança de comportamentos para prevenção de agravos à saúde e um enfocou a doação de órgãos, ato cuja finalidade é a manutenção da vida de outrem.

Em relação ao estudo centrado na investigação, junto a adolescentes, das crenças acerca das vantagens e desvantagens de usar camisinha durante as relações sexuais, os resultados evidenciaram um índice elevado de crenças negativas que precisam ser desmistificadas e revelaram a família como o fio condutor capaz de gerar intenção comportamental e comportamento pautado em práticas sexuais seguras, levando a uma diminuição significativa de casos de infecção pelo HIV nesse grupo (13). De modo semelhante, o estudo dos determinantes do referido comportamento em adolescentes de ambos os sexos evidenciou a importância relativa de fatores atitudinais e normativos quando considerado o gênero dos sujeitos participantes da pesquisa, sendo a intenção comportamental dos homens determinada predominantemente pela atitude e a intenção das mulheres exclusivamente ocasionada por aspectos normativos (14).

As crenças pessoais e normativas mais significativas em relação ao transplante e doação de órgãos junto a estudantes do ensino médio foi outro fenômeno que serviu de fonte de inquietação e estudo para pesquisadores enfermeiros, sendo também possível, por meio da aplicação da teoria, identificar as crenças positivas e negativas do grupo sobre a temática (15).

Outra pesquisa também realizada junto a clientes atendidos em instituição hospitalar, para avaliação de saúde, teve como um dos seus objetivos identificar as crenças comportamentais e normativas sobre o consumo de alimentos ricos em gordura. Os resultados permitiram ao enfermeiro pesquisador visualizar uma diversidade de crenças positivas e negativas em relação ao consumo desses alimentos, tais como: sabor e prazer, saúde e disponibilidade, ou seja, aspectos ligados a gostos pessoais, a preservação da boa função biológica e a questões de cunho socioeconômico, como disponibilidade, praticidade e acesso a eles. Além desses elementos, foi possível identificar os referentes sociais facilitadores e inibidores do comportamento pesquisado (16).

Estudo semelhante, porém mais aprofundado, realizado junto a pacientes com antecedentes de infarto do miocárdio atendidos no ambulatório de uma instituição hospitalar especializada em cardiologia, buscou identificar as crenças comportamentais e normativas quanto ao comportamento de caminhar no mínimo 30 minutos, três vezes por semana, e verificar a relação dos componentes atitudinais, normativos e intenção comportamental, suas correlações e pesos relativos, evidenciando a adequação do suporte teórico para a compreensão do fenômeno ao qual o pesquisador se propunha investigar (17).

Conforme observado, os resultados evidenciados nos estudos das áreas de psicologia, nutrição e enfermagem retratam o uso da teoria para pesquisas científicas, predominantemente no campo da saúde, como possível instrumento para identificação de fatores que funcionem como determinantes positivos ou negativos de influência na realização de um dado comportamento. Portanto, o estudo dos instrumentos de trabalho empregados em suas práticas pode proporcionar informações pertinentes para análise de sua adequação ao objeto e a sua finalidade (18).

Voltando-se especificamente para a enfermagem, segundo se entende, informações dessa natureza são de substancial importância para o planejamento, implementação e avaliação das suas ações, haja vista apresentarem, com a precisão que a teoria e os recursos estatísticos de análise permitem resultados palpáveis e objetivos possíveis de serem manipulados na tentativa de contribuir para a adoção de comportamentos saudáveis.

Assim, a enfermagem parece estar diante de um referencial que se coaduna, sobretudo, com as atividades de educação em saúde, tão valorizada no processo de cuidar, quer este se dê no âmbito da prática clínica ou na saúde coletiva, pois a educação em saúde, quando dirigida para o favorecimento e fortalecimento da autonomia e cidadania dos sujeitos, converte-se em um dos pilares essenciais para a promoção da saúde.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os achados nos artigos selecionados se reportaram, sobretudo a comportamentos ligados à saúde. Conforme se verificou nos objetivos traçados e nas considerações finais dos estudos, objeto desta investigação, a TAR forneceu suporte teórico-metodológico para tratar os temas abordados nas pesquisas, mostrando caminhos percorríveis na tentativa de estimular a adoção de comportamentos que exercem influência sobre a saúde. Como a TAR constitui uma teoria cujo foco central é entender e predizer o comportamento, sua finalidade de uso pode se dar em qualquer campo de saber, como educação, sociologia, saúde, entre outros.

A partir deste entendimento pode-se considerar que esta teoria mostra-se adequada ao estudo dos fenômenos no âmbito da enfermagem no que concerne, sobretudo, ao desempenho de comportamentos para a saúde, pois enfoca o comportamento humano, que está presente em todos os locais onde se pretenda investigar e atuar. Resta, pois, aos estudiosos e pesquisadores da área ampliar o uso da teoria aos diversos campos de atuação da enfermagem – educação, pesquisa, administração ou prática clínica – como forma de verificar e, possivelmente, ampliar seu leque de aplicações.

Outrossim, ante as evidências obtidas nesta investigação, pode-se considerar que o modelo de análise de teorias adotado para avaliar a adequação da TAR para o estudo dos fenômenos no âmbito da enfermagem, de modo especial o círculo de contágio, mostrou-se pertinente para esta finalidade, permitindo não só a identificação das áreas de conhecimento onde a teoria tem sido desenvolvida, como também evidenciando outras possibilidades de aplicação. Cabe, pois, novos estudos com vistas a aplicação das demais etapas do modelo de análise, a fim de verificar adequação e aplicabilidade não somente da TAR, mas também das teorias de enfermagem e de outras de áreas afins para o estudo dos fenômenos relacionados à saúde da população, com vista ao uso de suportes teóricos coerentes às investigações propostas.

 

REFERÊNCIAS

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Artigo recebido em 09.03.07

Aprovado para publicação em 10.12.07

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