ASSISTÊNCIA EM SAÚDE MENTAL.

A INSERÇÃO DA FAMÍLIA NA ASSISTÊNCIA PSIQUIÁTRICA

Artigo de Opinião

 

Elizabeth Esperidião


 ESPERIDIÃO, E. - Assistência em saúde mental. A inserção da família na assistência psiquiátrica. Revista Eletrônica de Enfermagem (online), Goiânia, v.3, n.1, jan-jun. 2001. Disponível: http://www.fen.ufg.br/revista


 

INTRODUÇÃO

 

A psiquiatria traz ao longo da sua história alguns marcos que nortearam o atendimento ao doente mental, como por exemplo, a revolução de Pinel, a introdução dos psicofármacos, o uso da psicoterapia, o desenvolvimento dos recursos terapêuticos e de diagnóstico, entre outros. Atualmente estamos vivendo o período de mudanças ideológicas, estruturais e políticas nas ações de saúde mental, mais especificamente em relação à institucionalização da assistência.

Os movimentos precursores da Reforma Psiquiátrica brasileira, surgidos nos Estados Unidos e Europa a partir de meados do século XX, apontavam críticas ao atendimento dispensado aos portadores de doença mental, quando eram excluídos e segregados da sociedade, demandando ações com vistas a um atendimento mais humanizado, de forma a garantir sua dignidade, enquanto cidadão.

No Brasil, depois de 12 anos tramitando no Congresso, foi aprovado por unanimidade no dia 12 de março de 2001, na Câmara de Deputados, o substitutivo do Projeto de lei (PL 3657/89) do deputado Paulo Delgado, que dispõe sobre a extinção dos manicômios, a implantação de serviços alternativos e regulamenta a internação psiquiátrica compulsória. Esta aprovação constitui um avanço histórico, culminado pelo empenho de uma série de segmentos sociais engajados no Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, embora signifique que temos um longo caminho pela frente, a fim de incorporar as alterações decorrentes da lei nas ações de saúde relativas à área.

Sabemos também que a Organização Mundial da Saúde recomenda investir menos recursos aos hospitais psiquiátricos, voltando-se às estruturas comunitárias mais elásticas e contextualizadas, possibilitando-se intervir de maneira mais individual e humana (EVARISTO, 1998).

 

E AGORA?

 

 Especialmente no Brasil, espera-se que a partir deste momento seja construída uma nova história sobre o tratamento psiquiátrico, voltando-se mais para o indivíduo portador de algum sofrimento psíquico, procurando não somente atender as transformações da assistência impostas pelo desenvolvimento da ciência e tecnologia, mas para posicionamentos profissionais adequados para o enfrentamento da atual realidade. Assim, vimos como fundamental que sejam criados e adaptados estruturas e recursos de atenção ao doente mental, de forma a incluí-lo no seu meio social.

Faz-se necessário, portanto, construir um projeto terapêutico cujas transformações devem ser discutidas, elaboradas, incorporadas e articuladas com os setores sociais envolvidos no modelo de atenção em saúde a ser proposto.

De acordo com CAMPOS (1992) um projeto deve ser composto de interesses e necessidades da sociedade, das noções disciplinares, de diretrizes políticas e dos modos de gestão dos sistemas públicos. Para ele, ainda não conseguimos historicamente realizar negação/superação das práticas tradicionais, na medida em que o projeto reformista em saúde ainda é muito anti e pouco pró. Defende enfim, o direito à saúde, a intervenção do Estado, a democratização da gestão, entre outros elementos essenciais à construção de uma cidadania efetiva.

Mesmo estando continente a esse pensamento, percebo algum esforço na busca de alternativas com vistas a uma nova proposta assistencial, denotando alguns avanços da psiquiatria, ocorridos diferentemente nas várias regiões brasileiras em função de movimentos neste sentido, que embora insuficientes fazem-nos repensar acerca da problemática do atendimento psiquiátrico que temos disponibilizado à nossa população.

Tal situação, conflituosa e de contrastes, é inerente a momentos de transição, faz parte de um processo decorrente do contexto sócio-político-econômico e cultural, onde o discurso teórico-prático do movimento reformista recebe influência e também influencia o modelo assistencial vigente e aquele a que se propõe.

Vale lembrar que também na Itália, berço da Reforma Psiquiátrica, houve impasses na desconstrução de um modelo de assistência cronificante até chegar aos dias atuais, quando ainda se constrói um sistema reconhecido como referência dentro da assistência psiquiátrica no mundo.

Assim, a trajetória brasileira, segue seu percurso na construção de um modelo de atendimento em Saúde Mental em consonância aos pressupostos do movimento antimanicomial e às doutrinas e filosofia da política de saúde, o Sistema Único de Saúde.

Há de se reforçar as iniciativas que procuram redefinir o papel dos profissionais e dos serviços de saúde, colocando a discussão sobre o significado do cuidado em Saúde Mental, sobre o sentido do processo de cura, nas parcerias interinstitucionais, além da criação de uma cultura de solidariedade e vivência de cidadania que garanta a inclusão social do indivíduo, sua autonomia e dignidade.

 Nesse sentido, CAMPOS (1992) considera que o objetivo de todo trabalho terapêutico é ampliar a capacidade de autonomia do paciente. Alguns aspectos da assistência psiquiátrica que levam à cronicidade, na medida em que  esta não oferece respostas às crises e a seus significados, desconsiderando a interdependência dos problemas psicofísicos-sociais, permitindo que estes e o mal estar se cronifiquem EVARISTO (1998). O autor ao mencionar a institucionalização, enquanto isolamento, reclusão, abandono, estigmatização e tratamentos inadequados como elementos propiciadores de um percurso institucional cronificante sugere reflexões cujos primeiro objetivo seja o de evitar ou não dar lugar a um percurso patogênico para depois criar um percurso terapêutico.

Considera ainda que a cronificação dos sintomas é, sobretudo a cronificação da falta de recursos institucionais e, neste sentido propõe descronificar a instituição, o que significa modificar regras não mais funcionais, mas de valorização dos sujeitos nas suas funções dentro das instituições, suas individualidades e a criatividade dos trabalhadores de saúde. Significa destruir regras manicomiais considerando-se os direitos de liberdade de cada um, que certamente modificará a dinâmica dos hospitais psiquiátricos. Significa enfim, transformar as relações de poder existentes entre instituição e indivíduo (não mais paciente), compreendendo-o como membro de um grupo social.

Tais considerações tem embutidas a visualização de um outro modelo assistencial com diversas modalidades de atendimento, mais voltadas à comunidade e às necessidades do cidadão portador de um sofrimento psíquico, num tratamento mais humanizado, mais socializante, mais solidário e mais eficaz.

É evidente que o processo requer discussões no contexto do qual o indivíduo faz parte, visando suas relações familiares, de trabalho e também assistenciais, de forma a melhor inseri-lo seu meio, dando-lhe a assistência devida, oportunizando mais espaços de socialização, de recuperação de suas potencialidades (muitas vezes desprezadas), reabrindo sua comunicação na família e no seu ambiente social, trazendo a ele  possivelmente um sentido mais significativo de existência.

Isto significa incluir a família no tratamento, dando-lhe suporte, além de ampliar a compreensão da dinâmica das suas relações, com vistas a nortear a atenção dispensada à este núcleo social.

De acordo com BASSITT (1992) há uma corrente dominante que acredita no papel da família na determinação do surgimento de doença mental em um de seus membros, tornando-o bode expiatório sobre o qual são jogados todos os problemas.

Macedo apud WAIDMAN (1999) lembra que por muito tempo os profissionais de Saúde Mental tinham a família como produtora de doença mental e não como aliada para recuperar o doente institucionalizado.

Atualmente é consensual que quando a família é apoiada e orientada tem condições de compartilhar seus problemas e pode ser percebida com a estrutura existente para a desinstitucionalização e reinserção social do indivíduo. Estudos citados por WAIDMAN (1999) apontam que a família é fundamental na manutenção do doente fora da instituição psiquiátrica, reforçando a idéia da necessidade dela ser preparada e apoiada pelos profissionais de saúde da área de Saúde Mental com vistas ao seu convívio com o portador de transtorno mental.

Portanto, cabe-nos crer cada vez mais na possibilidade de se construir uma nova ética no estabelecimento de relações indivíduo-sociedade, onde se insere a relação saúde-doença possibilitando que as relações terapêuticas sejam estabelecidas entre cidadãos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BASSITT, W. O conceito de família. In: D’INÁCIO, M.ª (org) Doença mental e sociedade: uma discussão interdisciplinar. Rio de janeiro, Qrad, 1992. p.278-287

CAMPOS, G.W.S. Modelos de atenção em saúde pública: um modo mutante de fazer saúde. Saúde em debate, nº 37, p.16-19, 1992.

EVARISTO, P. Gestão da psiquiatria na comunidade. Trad. M. Alice Pereira. Itália/Mimeografado, 1998.

WAIDMAN, M.A.P. Enfermeira e família compartilhando o processo de reinserção social do doente mental. In: LABATE, R.C.(org) Caminhando para a assistência integral. Ribeirão Preto, FAPESP,1999. P,389-407.

 

Autora:

Elizabeth Esperidião - Docente da Faculdade de Enfermagem/UFG. Doutoranda em Enfermagem Psiquiátrica EERP/USP.