TÓPICOS SOBRE SENSUALIDADE, SEXUALIDADE E EMANCIPAÇÃO: UM SURVEY SOBRE AS MULHERES NEGRAS.

 Isabel Cristina Fonseca da Cruz, Andréia Soares Pinto


CRUZ, I. C. F.; PINTO, A. S. - Tópicos sobre sensualidade, sexualidade e emancipação: um survey sobre as mulheres negras. Revista Eletrônica de Enfermagem (online), Goiânia, v.3, n.2, jul-dez. 2001. Disponível: http://www.fen.ufg.br/revista


Considerações Iniciais

Material e Método

Resultados e Discussão

Caracterização da amostra

Quanto à sexualidade da mulher negra

Quanto à emancipação da mulher negra

Considerações Finais

Referências Bibliográficas

Autoras



Resumo: Tópicos sobre sensualidade, sexualidade e emancipação: um survey sobre as mulheres negras. O desconhecimento sobre o bem-estar das mulheres negras compromete as políticas públicas. Para delinear o perfil deste segmento populacional, foi aplicado o questionário CEAP-Data-Uff a 1172 pessoas, no Estado do Rio. A amostra é de 297 mulheres que se auto-declararam pardas ou pretas (25,3%). Destas, 46,5% estão insatisfeitas com a própria aparência. Quanto à emancipação, 93% referem a necessidade de se organizar e 74,7% têm uma escolaridade inferior ao 2o grau. A renda de 42,3% é inferior a R$ 151 e 38% não têm renda. Concluiu-se que o sexismo e o racismo reservaram para as mulheres negras a subalternidade pois as evidências revelaram poucas chances de ascensão social. Portanto, a proposição de políticas públicas deve contemplar as necessidades deste segmento significativo e vulnerável da população. 
Unitermos: racismo – mulher – negros – saúde

Abstract: Topics related to sensuality, sexuality, and emancipation – a survey about African-brazilian woman. African-brazilian women have been excluded from society and research projects. This study points out the social inequality survey in Rio de Janeiro and its impact on the health status of African-brazilian woman. A survey was conducted with a population of 1.172 people and the 297 (25.3%) women compound the sample. The results revealed that 46.5% are unsatisfied with her own appearance; the majority is married, has less than a high school degree, has an income inferior than R$ 151 (US$ 75,5). We concluded that the lower socioeconomic status has its roots on racial discrimination which is a chronic and persistent stressor to the health of African-brazilian women. We suggest the further research on the responses of African-women to the health problems could help clarify the racism as a etiologic factor of many conditions. 
Key-words: racism – woman – African-americans - health

Resumen: Aspectos sobre sensualidad, sexualidad e emancipación: un survey sobre las mujeres negras. El desconocimiento sobre las condiciones socio-económicas de las mujeres negras, compromete las políticas públicas y la calidad de vida. El estudio delinea un cuadro sobre la situación socio-económicas de las mujeres negras. Fue aplicado el cuestionario CEAP-Data-Uff a 1172 personas, en el estado de Rio. La muestra es de 297 mujeres que se auto-declaran pardas o negras (25,3%). Los resultados revelaron que 46,5% de las mujeres negras estan insatisfechas con la propia apariencia; la mayoria es casada o vive maritalmente en relaciones endogamicas. La mayoria absoluta (93%) refiere la necesidad de organizarse y tiene una escolaridad inferior al grado secundario (74,7%). Se concluye que el espacio reservado por el sexismo y por el racismo para las mujeres negras es la subalternidad. Las evidencias revelaron pocas chances de ascención social y que la proposición de políticas públicas de salud/bienestar y educación debe contenplar las necesidades de este segmento significativo y vulnerable de la población.
Termos-clave:
racismo - mujer - negros - salud

 Considerações Iniciais

            O processo saúde/doença e o bem-estar da mulher, no nosso entendimento, são mais do que os tópicos regularmente abordados pelas disciplinas como, por exemplo, maternidade, aborto, entre outros. Carecemos de estudos sistematizados que investiguem o potencial patogênico das ideologias discriminatórias, tais como o sexismo e o racismo. Uma sociedade contaminada inclui as ciências e a academia. Em função disto, persiste a escassez de pesquisas holísticas sobre o gênero feminino, em geral, e sobre as mulheres negras, em particular (CRUZ, 1995; CRUZ & HOGA, 1998), consequentemente pouco ou nada se conhece sobre esta parcela da população.

Por considerarmos o sexismo um fator perturbador quanto aos fenômenos de saúde pertinentes à mulher, avaliamos que o sexismo e o racismo de forma sinérgica constituem um fator mais poderosamente patogênico à mulher negra, comprometendo sua identidade pessoal, imagem corporal, autoconceito e auto-estima, entre outros aspectos. Neste sentido, os dados sobre saúde encontrados por BARBOSA (1998) quanto à mulher negra são críticos e evidenciam que elas são as que mais perdem anos de vida devido a uma subordinação secular e tripla: gênero, raça e classe social.

Diante do exposto, consideramos que no Brasil o persistente desconhecimento sobre aspectos de saúde e bem-estar compromete o estabelecimento de políticas públicas que promovam o desenvolvimento social e a qualidade de vida, assim como a implementação de estratégias que combatam o racismo. Neste estudo, apresentamos um perfil sobre a condição da mulher negra no Estado do Rio, acrescentando dados empíricos ao estudo de CRUZ (1995) sobre a subjetividade da mulher negra.

Uma vez que a saúde e o bem-estar compreendem a integração de aspectos físicos, emocionais, intelectuais e sociais que, em conjunto, enriquecem e promovem  a personalidade, a economia e as relações interpessoais e amorosas, avaliamos que  a qualidade destes aspectos e relações pode ser um indicador do nível de qualidade de vida, de saúde e de desenvolvimento do potencial humano e social da mulher negra.

Se levarmos em conta que no aspecto econômico há quinhentos anos, os negros sofrem desvantagens com relação aos brancos, evidenciaremos pelos resultados apresentados a seguir que a situação das mulheres negras está longe de propiciar um estado ideal de saúde, bem-estar e desenvolvimento emancipatório. Por isso a importância de se mostrar um pouco mais sobre essas mulheres com dados do survey sobre relações raciais no Rio de Janeiro.
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 Material e Método

As categorias privilegiadas nesta pesquisa são definidas por uma ótica humanista e feminista mais abrangente que nos ajuda a  compreender a nós mesmas - mulheres negras - como pessoas humanas (relações sensuais corpo/espírito) vivendo e convivendo num mundo de relações interpessoais (sujeito/sujeito), tanto de sexualidade quanto de emancipação e poder (BEAUVOIR, 1990).

            A partir de um survey desenvolvido pelo Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (CEAP) e DATA/UFF, sobre as relações raciais no Estado do Rio de Janeiro, entre janeiro e março de 2000, 1172 pessoas, escolhidas aleatoriamente, foram entrevistadas, por meio de um questionário com 105 perguntas, após o consentimento informado e a garantia de sigilo e anonimato. Dos entrevistados, 607 (51,8%) são mulheres. No grupo feminino, 297 mulheres (49%) se auto-declararam pardas ou pretas (25,3% do total de entrevistados). São estas 297 mulheres negras que compõem a amostra desta pesquisa.

Para delinear o quadro no Estado do Rio sobre as relações interpessoais e de poder das mulheres negras, destacamos para análise as perguntas que no nosso entendimento referiam-se à sensualidade (percepção do eu), à sexualidade (relações interpessoais) e emancipação (poder econômico e político) da mulher negra. Os dados foram organizados e analisados estatisticamente com a ajuda do SPSS 8.0, sendo apresentados descritivamente em números percentuais e absolutos. A discussão dos resultados foi feita à luz da literatura das áreas da saúde e de ciências sociais.
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 Resultados e Discussão

Caracterização da amostra

            As 297 entrevistas que fazem parte da nossa análise encontram-se distribuídas em três grandes regiões de amostragem: Interior (26%), Município do Rio de Janeiro (37,2%) e Região Metropolitana (36,8%). Quanto à idade, 54,5% das mulheres negras entrevistadas encontram-se entre 25 e 44 anos. No que se refere ao estado civil, 59,4% são casadas (uniões legais ou livres).

Quanto à renda, a média mensal é de R$ 241,87, sendo que 38% declararam não ter nenhum tipo de rendimento. A grande maioria pertence às classes C (36,3%), D-E (37%).

            A sensualidade refere-se principalmente aos prazeres associados com a gratificação dos sentidos. Neste domínio, encontramos a consciência sobre o próprio corpo moldada, ou não, conforme os estereótipos femininos. Quanto à mulher negra, temos de considerar a possibilidade de interiorização também dos estereótipos racistas.

Os dados revelaram que a maioria, mesmo se pudesse, não mudaria nada na sua aparência. Porém, uma parcela significativa está insatisfeita com a própria aparência. Nesta pesquisa, 138 mulheres negras (46,5%) declararam que se pudessem mudariam o cabelo (29,6%) e o nariz (9,2%). Destas 47% são pardas e 45,4 % são pretas.

Ainda que o desejo de mudança de um aspecto do corpo possa ser entendido como vaidade, consideramos pelos dados encontrados que a vaidade e a beleza estética feminina nos dias de hoje ainda é influenciada por um padrão europeu de beleza. Portanto, não seria por acaso que 34,2% das mulheres negras que gostariam de mudar o tipo de cabelo o faria para deixá-lo mais liso.

É compreensível que para tentar fugir das desvantagens sociais, as mulheres negras expressem um desejo intrínseco de busca por uma maior semelhança com a parcela branca da população. Pela ótica do processo de enfermagem, neste survey sobre relações raciais, encontramos dados sugestivos de distúrbio da auto-imagem nesta parcela de mulheres negras uma vez que não referem satisfação com o seu corpo por inteiro ou por partes dele (NÓBREGA; GUTIÉRREZ, 2000) por ele diferir do ideal de corpo do grupo racial opressor.

Segundo MURARO (1983) o corpo é uma instituição política e, portanto, pode ser definido conforme as classes sociais ou grupos étnicos. No Brasil, o preconceito racial basicamente é fundamentado nas características físicas, corporais, do indivíduo, o que NOGUEIRA (1998) conceitua como “preconceito de marca”, ou seja, preconceito ligado ao estereótipo, enquanto que em outros países o preconceito é de “origem”, isto é, vinculado à descendência étnica do indivíduo. Assim, as características físicas que reforçam o preconceito de “marca” passam a ser objeto de desconforto da mulher negra com a própria aparência, no que ela tem de relação com sua identidade étnica. Este desconforto, que pode evoluir até se um distúrbio da auto-imagem , leva a mulher negra a abrir mão de sua sensualidade e, principalmente, de sua humanidade, podendo transforma-la em um mero objeto passível da exploração de qualquer natureza.

            Em que pesem as limitações deste estudo, estes resultados têm implicações para a área da saúde e educação e para o movimento negro feminista. Eles indicam a necessidade de se estabelecer atividades sistemáticas e sistematizadas para a promoção da auto-estima e da auto-imagem da mulher negra. Seguramente, o movimento Black is Beautiful deu a sua parcela de contribuição para o resgate da  sensualidade negra. Dele deve ser mantida a proposta de autocontrole do corpo, uma vez que isto é fundamental para o estabelecimento  de  relações inter-subjetivas (sujeito-sujeito).
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Quanto à sexualidade da mulher negra

No nosso entendimento, a sexualidade envolve todas as relações humanas e inclui os aspectos referentes à interação e à  comunicação, sendo tanto uma experiência  individual, quanto interpessoal (cultural) (CHAUI,  1984; HILL; SMITH, 1985). Se a experiência erótica é vivida em privacidade, a libertação sexual das mulheres, por sua vez, representa uma luta política contra uma cultura patriarcal. Mas, as mulheres negras, além do jugo patriarcal, sofrem o jugo colonial, caracterizado pelo racismo. Assim sendo, as suas experiências eróticas (no âmbito da privacidade) e a sua libertação sexual (no âmbito público) devem dar uma outra “tonalidade” à sua luta política.

Nesta pesquisa, tangenciamos a sexualidade pela caracterização da vida conjugal das mulheres negras. Os dados revelaram um maior número de casamentos informais e endogâmicos. Das mulheres que responderam à entrevista, 59,2% são casadas ou vivem maritalmente (a maioria não é casada legalmente).

            Uma vez que a maioria das mulheres encontra-se na faixa etária entre 25 e 44 anos (54,5%), havendo uma concentração maior na faixa entre 25 a 34 anos (30%), consideramos que elas se encontram na fase do ciclo vital onde o desenvolvimento profissional e a constituição da família são alguns dos principais desafios. No entanto, comparando o estado civil de pardas e pretas, controlado pela idade, verificamos que as mulheres pardas casadas, com idade entre 25 e 34 anos, são em maior número (72,7%) do que as mulheres pretas casadas na mesma faixa etária (48%).

Outro dado que suscita nossa atenção é o de mulheres casadas na faixa de 18 a 24 anos, onde as pretas somam 40 % e as pardas, 21,4 %. Ou seja, mulheres pretas mais jovens constituíram casamento com maior freqüência do que as pardas. Essas jovens pertencem às classes mais baixas (76,5% das mulheres entre 18 a 24 anos pertencem às classes C [47,1%], D e E [29,4%]).

O tipo de pesquisa realizado não nos permite explicitar as circunstâncias em que esses casamentos se constituíram, mas a associação entre pobreza, juventude e casamento não parece levar a bons resultados. Estudos sobre a saúde reprodutiva das mulheres negras revelam que elas são inexperientes e não contam com o acompanhamento médico necessário quando apresentam problemas de saúde ou precisam de assistência perinatal (ARAÚJO, 2001).

Concordamos com REICH (s.d) quando afirma que a saúde mental da pessoa baseia-se num modelo de relação sexual duradoura, enfim, no amor. Porém, quanto ao aspecto familiar (pressupondo que a constituição da família é o espaço das relações duradouras e amorosas), a Síntese de Indicadores Sociais (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2000), com dados da PNAD 98, mostrou que as mulheres pretas são abandonadas com maior freqüência. Estes dados da PNAD 98 evidenciaram também que, em geral, as mulheres pretas têm uma condição social desvantajosa não só em relação às mulheres brancas, mas também com relação às pardas. No Estado do Rio de Janeiro, enquanto 15,3% das mulheres brancas são chefes de domicílio sem cônjuge com filhos, o percentual de mulheres pretas na mesma situação é de 22,4%, e 21% para mulheres pardas. Infelizmente, neste estudo, só pudemos evidenciar a qualidade das relações das mulheres negras apenas quanto à (in) formalidade do casamento, mas esperamos que pesquisas posteriores possam coletar dados também quanto à duração.

            Ainda que a civilização patriarcal tenha destinado a mulher à castidade e ao casamento para a satisfação dos desejos sexuais do homem, serviço este retribuído com presentes ou com a manutenção numa relação sem nenhuma reciprocidade, pelos dados encontrados vemos que são outros os papéis (também negativos) que sociedade patriarcal e colonial destinou para as mulheres negras.

Historicamente, enraizou-se no senso comum a imagem da pessoa negra como pertencente a uma “raça quente”, possuidora de uma sensualidade natural. O negro e, principalmente, a mulher negra, era (é) visto como símbolo de sensualidade e de fertilidade, e com uma construção moral diferente da cultura branca judaico-cristã. Isto pode ter facilitado as relações sexuais entre os diferentes grupos étnicos, mas não conduziu propriamente ao casamento. A relação sexual inter-racial sempre se deu mais facilmente fora do casamento legal, por isso, parece que a restrição das pessoas ao namoro com pessoas negras é menor do que com relação ao casamento.

A este respeito estudos como os de PIERSON (1971), na Bahia, e de HASENBALG & Silva (1992) mostraram que as relações sexuais inter-raciais se davam na informalidade, enquanto que os casamentos legais estruturavam uma sociedade endogâmica, o que poderia ser explicado como resquício da antiga sociedade escravocrata. Além disso, há outros elementos ligados à seletividade matrimonial como a composição demográfica por grupos de cor, a razão de masculinidade (a relação numérica entre homens e mulheres de um mesmo grupo), a distribuição populacional e a distância social. O Rio de Janeiro é um dos estados com maior grau de miscigenação, conseqüência da diversidade de raças que compõem sua população, que facilitou o grande número de uniões exogâmicas (uniões livres ou legais) comparado a outros estados brasileiros.

Mas, se levarmos em conta que a segurança e a estabilidade do casamento têm influência na qualidade de vida da família, e principalmente da mulher, então podemos dizer que as uniões livres produzem um certo estado de insegurança quanto ao futuro da família. Nos dias de hoje, as mulheres ganharam terreno com relação ao mercado de trabalho, conquistaram espaços e independência profissionais, mas, em muitas das vezes, esta situação foi uma imposição para elas, em vez de ser uma conquista, por terem que assumir o papel do chefe de família. Neste sentido, segundo a PNAD de 98, no Estado do Rio de Janeiro, o percentual de mulheres sem cônjuge com filhos era de 17,6%. Esses dados observados pela cor mostram que, 15,3% das mulheres brancas estão nesta situação, ao passo que 22,4% das mulheres pretas e 21,0% das pardas compartilham situação parecida, deixando as mulheres negras acima da média do estado, com relação às mulheres que assumem sozinhas as responsabilidades do domicílio e da criação da prole.
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Quanto à emancipação da mulher negra

            No nosso entendimento, o trabalho remunerado é um dos fatores que permite à mulher se afirmar enquanto sujeito, sem a necessidade de um mediador/provedor masculino entre ela e o universo. A independência econômica da mulher é inclusive uma das condições sociais apontadas por REICH (s.d) para uma sexualidade sadia.

Os dados encontrados revelam um rendimento mensal médio R$ 241,87. Porém, cabe ressaltar que 42,3% recebem menos de um salário mínimo nacional (R$ 151,00) como rendimento mensal (Os percentuais apresentados sobre a renda das entrevistadas correspondem somente aos casos válidos. Foram excluídos os casos de pessoas que declaram não saber ou não quer responder a pergunta sobre renda mensal). Uma parcela significativa, constituída por 38% das mulheres negras, não tem nenhum tipo de rendimento próprio. A média de rendimento familiar é de R$ 814,62, porém, a maioria das famílias (55,5%) possui uma renda familiar de até quatro (04) salários mínimos.

            Segundo dados da PNAD de 98, a parcela parda da população se assemelha, quanto ao padrão de vida, mais à parcela preta do que à parcela branca da população. Os dados encontrados em nosso estudo falam por si só. Inserção no mercado de trabalho e condições para aquisição dos bens de consumo são aspectos muito distantes do cotidiano das mulheres negras do Rio de Janeiro.

Quanto à escolaridade, que apenas sete mulheres, ou seja 4% da amostra estudada, possuem o nível superior completo. O restante da amostra está distribuído da seguinte forma: 33,1% possuem o primeiro grau incompleto, 22,6% possuem o segundo grau completo ou o curso superior incompleto; 22,3% são analfabetas ou possuem uma escolaridade inferior às quatro primeiras séries; e 19,6% possuem o primeiro grau completo ou o segundo grau incompleto.

Quanto à ocupação, os dados evidenciaram que a maior parcela das mulheres negras (47,1%) é dona de casa ou doméstica. Em seguida, encontramos as empregadas em serviços administrativos  (5,8%), as estudantes ou que nunca trabalharam (5,5%)  e as professoras (3,4%).

Quando comparamos os dados encontrados aos descritos na Síntese de Indicadores Sociais 1999, pág 210, vemos que a situação das mulheres negras no Estado permanece desfavorável. Segundo a Síntese, os anos médios de estudos e rendimento médio em salários mínimos (s.m.) da população ocupada parda e preta têm aspectos muito parecidos: a população ocupada preta tem 5,8 anos médios de estudos contra 6,6 da população parda e 8,7 da população branca; quanto ao rendimento mensal, a população preta recebe 2,84 s.m. em média, enquanto que a parcela parda tem 3,30 s.m. e a parcela branca 6,87 s.m. em média

Quando observamos de maneira conjunta os dados referentes à ocupação e à escolaridade da mulher negra, observamos uma negativa relação direta entre eles: ocupação subalterna acompanha a baixa escolaridade. Se tomarmos o pressuposto de que a escola reitera e transmite todo o sistema ideológico e simbólico que existe na sociedade (FONSECA, 1995), podemos concluir com base nos dados encontrados neste estudo que a mulher negra constitui a parcela excluída da sociedade brasileira.

Avaliamos que diante dos dados sobre escolaridade evidenciarem que as mulheres negras, em sua maioria (74,7%), não têm o 2º grau, são substancialmente pequenas as suas chances individuais de ascensão social. Fora da escola, instituição responsável pela qualificação da força de trabalho, pela integração do indivíduo ao sistema produtivo, a mulher negra tem um handcap que a impede de ocupar até mesmo as posições subalternas e secundárias destinadas às mulheres pela sociedade patriarcal.

Ainda no que se refere à emancipação, as relações de poder, verificamos que as mulheres negras, em sua maioria absoluta (93%), referem a necessidade de se organizarem para a superação dos problemas sociais. Estudos futuros devem investigar quais as estratégias de organização utilizadas pelas mulheres negras.

            Em síntese, os dados revelam o sucesso das estratégias da cultura patriarcal/colonial brasileira quanto à manutenção da repressão sexual/racial e de um sistema político de dependência sócio-econômica das mulheres negras. Assim, com uma frágil consciência crítica sobre si própria e o mundo à sua volta, a mulher negra está vivendo no espaço da exclusão social sob relações de dominação nas quais é tratada como objeto.

Os dados sócio-econômicos encontrados evidenciam um potencial para uma precária condição de saúde e bem-estar das mulheres negras e de suas famílias. As mulheres negras têm a mais baixa expectativa de vida da população, ou seja, 66 anos, contra 66,8 anos para o restante. Nossos dados não diferem dos encontrados na Síntese de Indicadores Sociais de 99, nem de outros estudos semelhantes (BARBOSA, 1998; ARAÚJO, 2001; SANT´ANNA, 2001) e reforçam ainda mais a nossa avaliação sobre o racismo enquanto uma categoria relevante para a compreensão plena do processo saúde-doença na população brasileira.
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Considerações Finais

            Procuramos neste estudo abordar três dimensões que entendemos ser  fundamentais  para a saúde/bem-estar da  mulher negra: a sensualidade, a sexualidade e a  emancipação. Estas  dimensões resgatam a sexualidade o seu aspecto político e transcendente. Vimos que a literatura profissional da área  de  saúde  sobre mulher negra  além de escassa era inespecífica quanto à sustentação da hipótese de que o racismo é um fator patogênico para a saúde e o bem-estar.  Assim  sendo, desenvolvemos  o  texto  e  as  discussões com  base em  textos sociológicos, dentro de uma perspectiva feminista e progressista.

            Esta pesquisa traz para o campo das evidências o que na sociedade ainda é senso comum. Os dados encontrados evidenciam para nós que o espaço determinado pelo sexismo e pelo racismo para o segmento de mulheres negras na sociedade fluminense é o da subalternidade. Porém, em que pese a negatividade dada pela  insatisfação consigo própria de uma parcela significativa, a vida marital informal, a baixa escolaridade e renda, a mulher negra em sua maioria absoluta considera necessária a organização feminina para a emancipação.

Com base no exposto, concluímos as condições sobre as relações interpessoais e econômicas das mulheres negras no Estado do Rio de Janeiro são precárias e têm o potencial de comprometer a saúde física, mental e social das mulheres negras, enfim, a sua existência enquanto ser humano.

Assim, avaliamos que a ciência e a academia precisam realizar pesquisas sistemáticas sobre mulheres negras, a partir de um referencial humanista e emancipador. Os resultados não permitem ainda a generalização, mas constituem um relevante subsídio para as proposições sobre políticas públicas de saúde, economia  e educação que devem contemplar as necessidades deste segmento significativo e vulnerável da população: a mulher negra brasileira. Visamos, portanto, sugerir a correção, em curto e médio prazos, das distorções apontadas, as quais colocam a mulher negra à margem  da sociedade e da sua humanidade, além de comprometer a sua saúde e o seu bem-estar.

            Dentre as implicações desta pesquisa, apontamos a necessidade de se desenvolver estudos especificamente na área da saúde. Estes estudos são fundamentais para habilitar os profissionais de saúde quanto ao diagnóstico e ao tratamento dos distúrbios de auto-estima, auto-imagem e auto-conceito que muito provavelmente têm como fator causal o racismo.

Os dados aqui apresentados e discutidos reforçam a nossa convicção de que o racismo é um fator etiológico, e não só ideológico, para os problemas de saúde e bem-estar para a população afro-brasileira, em geral, e para a mulher negra em particular, devido a concomitância do sexismo. Este conhecimento é de fundamental importância para capacitação dos profissionais de saúde quanto às terapêuticas dirigidas a ajudar no  desenvolvimento de uma auto-imagem e uma auto-estima positivas, visando  numa  última instância o auto-governo, a auto-determinação da mulher negra. Neste sentido, pesquisas desta natureza poderão contribuir não só para subsidiar o estabelecimento de políticas públicas, mas também para a perene luta política de libertação feminina.
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Referências Bibliográficas

ARAÚJO, M.J. de O. Reflexões sobre a saúde da mulher negra e o movimento feminista. Jornal da Rede Saúde, n23, p. 24-26, 2001.

BARBOSA, M. I. Racismo e saúde. São Paulo, 1998. 112p. Tese (Doutorado) – Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo

BEAUVOIR, S. de O  segundo sexo. A experiência  vivida. Vol. 1 e 2. 7ª ed. São  Paulo.  Nova Fronteira, 1990.

CRUZ,  I.C.F.  da;  HOGA,  L.A.K.  Alguns aspectos sobre saúde/doença em mulheres negras. Rev Baiana de  Enfermagem v. 11, n. 1, p. 75-85, 1998.

CRUZ, I.C.F. da Sensualidade, sexualidade e emancipação. subsídios para a .discussão sobre a subjetividade da mulher negra. Revista de Enfermagem UERJ, v. 3, n. 2, p. 227-32, out. 1995.

FONSECA, R.M.G.S. da A educação e o processo de inclusão-exclusão social da mulher: uma questão de gênero? R Bras Enferm, v. 48, n. 1. p. 51-59, 1995.

HASENBALG, C. A; SILVA, N. do V. Relações Raciais no Brasil Contemporâneo, Rio de Janeiro, Rio Fundo Editora-IUPERJ. p.26, 1992.

HILL,  L;  SMITH,  N.   Self-care nursing. Englewood  Cliffs, Prentice  Hall, 1985.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA Síntese de Indicadores Sociais 1999, nº 4, Departamento de População e Indicadores Sociais, Rio de Janeiro: IBGE, 2000. pág.143, 200 a 202.

MURARO, R.M.   Sexualidade  da  mulher  brasileira.  Corpo  e classe social no Brasil. Petrópolis. Vozes,  1983.

NÓBREGA, M.M.L. da; GUTIÉRREZ, M.G.R.  Equivalência semântica da classificação de fenômenos de enfermagem da CIPE. Versão Alfa. João Pessoa. Idéia, 2000.

NOGUEIRA, Oracy. Preconceito de Marca: As Relações Raciais em Itapetininga, São Paulo, EDUSP, 1998.

PIERSON, D. Brancos e pretos na Bahia (estudo de contacto racial), São Paulo, 2ª edição, Editora Nacional, 1971.

REICH, W.   Casamento  indissolúvel  e  as  relações  sexuais duradouras.   In:  REICH, W.; ALZON, C.  Casamento indissolúvel ou relação sexual duradoura? 3ª ed. São Paulo. Martins Fontes, (s.d.)

SANT´ANNA, W. Desigualdades étnico/raciais e de gênero no Brasil: as revelações possíveis do IDH e IDG.  Jornal da Rede Saúde, n23, p. 24-26, 2001.

 NOTA: Agradecemos ao Diretor do Núcleo de Pesquisa e Informação Data-UFF, Prof. Dr. Zairo Cheibub, a disponibilização dos dados.

Autoras

Isabel Cristina Fonseca da Cruz - Doutora em Enfermagem. Titular do Deptº de Enfermagem Médico-Cirúrgica/UFF. Coordenadora do NESEN - Núcleo de Estudos sobre Saúde e Etnia Negra . E-mail: isabelcruz@uol.com.br.

 Andréia Soares Pinto -  Cientista social.

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