LUIS, M. A. V.; PILLON, S. C.O conhecimento dos alunos de Enfermagem sobre álcool e drogas. Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 5 n. 1, 2003. Disponível em http:/www.fen.ufg.br/revista

O CONHECIMENTO DOS ALUNOS DE ENFERMAGEM SOBRE ÁLCOOL E DROGAS

THE KNOWLEDGE OF NURSING STUDENTS ON ALCOHOL AND DRUGS

EL CONOCIMENTO DE LOS ALUMNOS DE ENFERMARIA ACERCA DE ALCOHOL Y DROGAS

Margarita A. Villar LUIS1, Sandra Cristina PILLON2

INTRODUÇÃO
MATERIAL E MÉTODO
RESULTADOS
DISCUSSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AUTORAS

 

RESUMO: O objetivo desse estudo foi apresentar o conhecimento dos alunos de graduação de enfermagem sobre álcool e drogas. Pesquisa realizada em 1998 na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – USP cujos resultados mostram que a maioria não se lembrava ou aparentemente não presenciou as aulas quando o tema foi abordado; nunca atendeu dependente químico; responderam corretamente os conceitos de dependência química, tolerância e abstinência; afirmaram que o tema deve ser inserido no currículo. Conclui-se que os conhecimentos adquiridos pelos alunos apresentam deficiências nos conteúdos ou na forma de abordagem, pois os dados sugerem que não foram incorporados adequadamente, embora os alunos revelaram interesse pelo tema.
PALAVRAS - CHAVE: Álcool; Drogas; Ensino de Enfermagem.

ABSTRACT: This study aimed to know the knowledge acquired by undergraduate nursing students concerning  alcohol and drugs. The research was developed in 1998 at the University of São Paulo at Ribeirão Preto College of Nursing. Results: most students did not remember or attend classes  discussing that topic; they had never dealt with substance users; however, they correctly responded to the concepts of substance addiction, tolerance and abstinence; they expressed their opinion that the topic must be included in the nursing curriculum. Conclusion: the knowledge acquired by students is deficient with regard tocontent or to the way it is addressed once the data suggested that content was not adequately incorporated, although students were interested in the topic.
KEY WORDS: Alcohol; Drugs; Nursing Teaching.

RESUMEN: El objetivo de ese estudio fue presentar el conocimiento obtenido sobre alcohol y drogas por alumnos de enfermería. La investigación fue realizada en 1998 en la Escuela de Enfermaría de Ribeirão Preto – USP. Resultados: la mayoria no se recordaba o no estuvo presente en las clases cuando se presentó el tema; nunca dió atención al dependiente químico; pero contestaron correptamente conceptos de dependencia química, tolerancia y abstinencia; afirmaron que el tema deve ser incluido en el currículo. Conclusión: el conocimiento adquirido por los alumnos presentó deficiências en los contenidos o en la forma de presentarlos, los resultados sugieren, que no fueron incorporados adecuadamente aunque los alumnos mostraron interés por el tema.
TERMINOS CLAVES: Alcohol; Drogas; Enseñanza de Enfermería.

INTRODUÇÃO

Atualmente, vivencia-se uma situação em que o uso do álcool e drogas tem sido um tema de ampla complexidade, pois os órgãos governamentais, não governamentais, e outros, não têm conseguido gerar respostas efetivas para o problema. Essa situação pode ser estendida à toda sociedade, na medida em que a família e outras instituições, como igreja e escolas representados por seus membros, têm enfrentado dificuldades para reagir frente à ocorrência vinculadas ao uso de álcool e de drogas.

Vem sendo difícil o desenvolvimento de ações alternativas, realistas, que estimulem nas pessoas atitudes de rechaço para com as práticas do uso de álcool e drogas, ao contrário, verifica-se entre os diversos grupos da população a busca por uma substância, sob a forma de uma pílula, por exemplo, que magicamente resolva, de imediato, os problemas do cotidiano.

Desde a década de oitenta, os especialistas têm apontado vários fatores que estariam influenciando o uso de álcool e drogas. Dentre esses, destacam-se fatores socioeconômicos e políticos, como o desemprego, insegurança do indivíduo em relação ao futuro, carência de alternativas de lazer e trabalho para os jovens; a repressão política, a atividade educativa opressiva, ambas restringindo a postura crítica e a ação criativa, tudo isso surge como fatores geradores de angústia e depressão, conduzindo à necessidade de evasão psicológica e a busca de satisfação propiciadas por substâncias como álcool e drogas psicoativas (OEA, 1986).

O uso das drogas é concebido como uma das formas de marginalização dos jovens pela sociedade. Como justificava à essa colocação, o autor discorre sobre os significados atribuídos ao uso de drogas nos Estados Unidos e Europa ao longo do tempo: nos anos sessenta; usar drogas representava a busca do prazer, da comunicação, de novos meios de estilos de vida e de trabalho (Werebe, 1980). Foi quase uma ideologia num espírito contestador - inovador; nas décadas sucessivas, cada vez mais, o uso de drogas passou a representar uma maneira de enfrentar a monotonia, a angústia e a busca de um “embrutecimento” para esquecer a realidade; nos anos oitenta, usar drogas para a maioria dos jovens, não constitui mais a busca de uma esperança, mas “uma fuga da desesperança”.

Foi justamente, a partir da década de oitenta, que os profissionais ligados à saúde mental começaram a se preocupar com esse problema, tentando analisar as motivação pessoais para o uso de álcool e drogas.

Estudos revelaram que os jovens constituem um grupo da população bastante vulnerável ao uso de álcool e drogas, pelas características do período do desenvolvimento vivenciado. Além disso, foi observado entre esse segmento população um maior número de alterações do comportamento e problemas psicológicos decorrentes do uso de substâncias (PIMONT & BARRERA, 1982; KANDEL e cols., 1994).

Os resultados das pesquisas realizadas vêm indicando que o problema é de âmbito mundial, pois a prevalência do uso de álcool e drogas tem aumentado em todos os países (KESSLER e cols., 1994). No Brasil, esse problema pode ser avaliado pelos estudos sobre a freqüência de internações em instituições psiquiátricas e pesquisas realizadas no meio estudantil.

No que se refere a internações o uso do álcool foi o principal causador de internações por transtorno mental no País entre 1988 e 1999, respondendo por 90% dessas, segundo levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid/Unifesp). A pesquisa também revelou, no mesmo período, um aumento de 4,7% para 15,5% na proporção das internações provocadas pela dependência de outras drogas. No período, as internações por uso de cocaína passaram de 0,8% para 4,6%. Nos dois primeiros anos do trabalho, 88 e 89, a maconha era a droga mais consumida depois do álcool (Noto, 2002).

Os estudos epidemiológicos entre estudantes (CARLINI-COTRIM e col., 1989; CARLINI e col., 1989; GALDURÓZ e col., 1994) revelaram que, na maioria das vezes, esse uso de substâncias psicoativas é esporádico e experimental, sendo entre estudantes universitários da cidade de São Paulo a prevalência que o uso de drogas é semelhante a dos estudantes de primeiro e segundo graus. Mudando apenas a ordem das substâncias utilizadas (MAGALHÃES e col, 1991). A pesquisa sobre os problemas relacionados ao álcool e drogas, deve contemplar estudos epidemiológicos nos diversos grupos da população geral, a criação de sistemas de coleta de informações sobre populações que procuram estabelecimentos de saúde com problemas relacionados ao uso de drogas e a busca de índices de morbidade e mortalidade diretamente relacionados ao uso de drogas (CARLINI - COTRIM & BARBOSA, 1993).

A coleta sistemática desses dados propiciará uma visão mais clara do problema e a possibilidade de intervenções mais racionais e eficientes. Acresca – se ainda os estudos sobre a influência exercida por aspectos, políticos, jurídicos e sociais os quais, certamente, impedem conclusões simplistas (ANDRADE e cols., 1997). Além disso, a integração dos dados de pesquisas regionais propiciará um quadro fidedigno sobre a magnitude desse problema nas diversas regiões do Brasil.

A história da droga nas sociedades contemporâneas tem demonstrado que os mecanismos de fiscalização e de repressão da oferta de drogas no mercado são insuficientes para diminuir esse consumo (BASSIT, 1995).

No Brasil, uma análise do material didático para esse fim, realizada por CARLINI-COTRIM & ROSEMBERG (1991) revelou que o conteúdo veiculado, situava-se, em sua maioria, na perspectiva de modelos preventivos de amedrontamento e de princípio moral. Todavia, educação preventiva baseada em informações alarmistas não se mostrou eficazes, obtendo - se resultados mais favoráveis quando os programas de prevenção enfatizam o uso racional e responsável de drogas (BASSIT, 1995).

A título de esclarecimento, a Organização Mundial da Saúde editou em 1979, relatório no qual critica algumas crenças e atitudes em relação as ações informativas que seguem diretrizes de ensino autoritárias, apresentação do tema de forma restrita, descontextualizada e centrada no alarmismo. O enfoque meramente informativo está cedendo lugar a outras estratégias, nas quais a informação é apenas um dos componentes da educação preventiva. Essa nova postura está mais voltada a formar pessoas, no sentido de encorajá-las à auto-realização e à auto-estima, propiciando o desenvolvimento do senso de responsabilidade com a própria vida. Na implementação de propostas de prevenção há de se considerar as necessidades de ordem pessoal e social da realidade em questão, na qual o uso de drogas é inserido apenas como uma manifestação entre outras.

Conforme apresentado, nos últimos 20 anos a literatura específica tem direcionada para estudos epidemiológicos realizados em populações específicas, como estudante e pacientes que buscam tratamentos, e outros que enfatizam os custos sociais. Há poucas pesquisas abordando a formação de profissionais de saúde dentre eles os enfermeiros nesta área, a despeito da demanda de pacientes, da gravidade dos problemas, de toda sorte, os quais solicitam habilidade específica e encaminhamentos multidisciplinares.

Apesar disso, os enfermeiros e docentes de enfermagem, freqüentemente têm sido requisitados para darem informações a grupos da população sobre o tema álcool e drogas (LUIS & SOUZA, 1996). Entretanto, há poucas indicações sobre o enfoque que permeia o conteúdo oferecido e a origem desse conhecimento.

As questões de saúde relacionadas ao álcool e drogas não são novas, contudo, a enfermagem não tem contemplado esses temas com a devida importância.

Procurando dar início a um processo de busca de respostas e mesmo de avaliação, o presente trabalho se propôs a investigar junto aos alunos de enfermagem, o conteúdo que adquiriram no curso de graduação sobre os temas álcool e drogas, bem como identificar o enfoque utilizado ao ministrar as informações.
Topo

MATERIAL E MÉTODO

A pesquisa teve como população alvo os alunos do 4° ano de graduação em enfermagem da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, no ano de 1998. Foi utilizado um questionário anônimo de auto-preenchimento.  O instrumento usado consiste de um questionário estruturado, com questões como identificação pessoal: sexo, idade, questões específicas a respeito da temática álcool e drogas, conceitos como dependência, tolerância, síndrome de abstinência, e assistência oferecida pelos alunos em seus campos de estágios a pacientes usuários ou problemas associados. Este questionário foi baseado no questionário desenvolvido pelo Projeto CICAD - OEA (Comission Interamericana para el Control del Abuso de Drogas), no ano de 1998 por especialistas desta área. Quanto aos critérios de respostas, os alunos foram orientados para que respondessem de acordo com os seus conhecimentos adquiridos durante a graduação de enfermagem.

O referente estudo foi avaliado e aprovado pelo Comite de Ética e acordo com a resulução 196/96. Para a coleta de dados, os alunos foram convidados a participarem do estudo, mediante as orientações e esclarecimentos quanto a leitura e assinatura do termo de consentimento. Além de serem tomada as seguintes precauções, local adequado e horários viáveis de preenchimento dos questionários, forma de abordagem dos alunos, padronização de informações, dentre outros. livre

A escolha da amostra de alunos do Quarto ano de graduação da referida instituição, deu-se em função de que essa população já cursou a totalidade das disciplinas que abordaram ou poderiam ter incluído o assunto em seus conteúdos. A pesquisa foi realizada no mês de Março de 1998, cujo número total de alunos era de 79 (100%); destes, apenas 58 (73,4%) alunos responderam ao questionário.
Topo

RESULTADOS

A amostra do estudo é constituida em sua maioria (88%) por estudantes do sexo feminino com idade entre os 20 e 25 anos.

Na questão sobre o conteúdo de álcool e drogas ministrado, percebeu-se que a quase totalidade dos alunos 88% (N = 51) afirmou que o mesmo esteve presente em seu currículo, abordados predominantemente pelas disciplinas de Farmacologia (38%) e Enfermagem Psiquiátrica (22%). Segundo 42 alunos, esse conteúdo foi ministrado no 2° e ou 3° ano de graduação do curso de enfermagem. Quanto à carga horária destinada às aulas, a maioria não respondeu (62%) ou não soube (24%). Nesse ponto, nota-se uma contradição ao observar-se que 42 alunos afirmaram haver tido esse conhecimento, assinalando inclusive as disciplinas onde foram ministradas, entretanto, em questão anterior, 50 alunos omitiram, não souberam, ou não se lembram dos conteúdos. Isso leva a pensar que, os alunos não estavam presentes na aula, o assunto ou a estratégia utilizada não os motivou.

Tabela 1 – Apresentação das respostas em número e porcentagem sobre as estratégias de ensino-aprendizagem utilizada pelos docentes na abordagem do tema, segundo os alunos de enfermagem (N – 58).

 

N

%

Aula expositiva

25

43

Não responderam

21

36

Aula expositiva e atividade prática (seminários, aplicação de questionário, dinâmicas)

8

14

Não sabem

4

7

Total

58

100

Tabela 2 – Apresentação do número de respostas sobre o enfoque dado ao problema no conteúdo das aulas ministradas sobre álcool e drogas, apontado pelos alunos1.

 

N

%

Como problema psiquiátrico

46

79.3

Em adultos

41

70.6

Como problemas orgânicos

40

68.9

Como doença

38

65.5

Por influência do grupo

35

60

Em adolescentes

29

50

Como hábito cultural

28

48.3

Por curiosidade

28

48.3

No trabalho

20

48

Como fraqueza de personalidade

17

34.5

Como causa genética

6

10.3

Como falta de caráter

4

6.8

Não responderam

7

12

1Cada aluno respondeu mais de um enfoque

A forma de abordagem do conteúdo relatada pelos alunos como a mais freqüente foi a aula expositiva (43%), seguido dos alunos que não responderam (36%), contudo, houve outras estratégias utilizadas, na medida em que alguns alunos (14%) as referiram.

Quanto ao enfoque dado ao tema no conteúdo das aulas, predominaram os seguintes em ordem decrescente: “problema psiquiátrico” (afirmado por 79%), “em adultos” (70.6%), “problema orgânico” (68.9%), “doença” (65.5%), “por influência do grupo” (60%), “em adolescentes”.

Esses dados são indicadores de que o conhecimento transmitido enfatizou a questão como uma doença de maior ocorrência entre os adultos, comprometendo o indivíduo como um todo (psíquico e físico), onde o grupo surge como indutor do uso. Além disso, o problema também foi relacionado aos adolescentes, aparecendo ainda a curiosidade e o hábito cultural como outros enfoques abordados. Felizmente, parece que os enfoques mais negativos atribuídos à questão do uso de álcool e drogas não foram tão enfatizados, ou talvez, a pessoa respondeu com base na opinião pessoal.

A respeito do que se compreende por conceitos de dependência química, tolerância e abstinência, a maioria das respostas estava correta. Assim, em relação a: 1) dependência química, 57% dos alunos responderam tratar-se de uma “necessidade da substância no organismo ou dependência física e/ou psíquica”; 2) tolerância, 36,2% referiram tratar-se de “necessidade de aumento da dosagem da droga/álcool para se obter o mesmo efeito”; 3) abstinência, 74,2% definiram-na como “interrupção do uso ou reações físicas e/ou psíquicas decorrentes da suspensão do uso de droga/álcool” (Tabela 3, 4 e 5 respectivamente).

Tabela 3– Apresentação das respostas em número e porcentagem sobre o conceito de dependência de substâncias psicoativas, segundo os estudantes de enfermagem (N = 58).

 

N

%

Necessidade da substância no organismo/ Dependência física e/ou psíquica

33

57

Não responderam

13

22

Vício e hábito

6

10

Sinais e sintomas

3

5

Reações de abstinência

1

2

Intolerância

1

2

Não esclareceram

1

2

Total

58

100

Tabela 4 – Apresentação das respostas em número e porcentagem sobre o conceitos de tolerância, segundo os estudantes de enfermagem (N = 58).

 

N

%

Necessidade de aumento da dosagem da droga/álcool para se obter o mesmo efeito

21

36

Não respondeu

11

19

Dosagem de droga/álcool suportável pelo organismo

9

15,5

Outros

9

15,5

Não sabem

8

15

TOTAL

58

100

Tabela 5 – Apresentação das respostas em número e porcentagem quanto a compreensão sobre o conceito de Síndrome de abstinência, segundo os estudantes de enfermagem (N = 58).

 

N

%

Interrupção do uso/ Reações físicas e/ou psíquicas decorrentes da suspensão do uso de droga/álcool

43

74

Não responderam

11

19

Não esclareceram

2

3,4

Não sabem

2

3,4

TOTAL

58

100

Avaliando o tipo de dependência de substância psicoativa entre os pacientes no campo de estágio, 38% encontraram pacientes usuários de drogas e álcool, 34,4% pacientes alcoolistas e 1,7% pacientes dependentes de drogas; 56% referiram não ter encontrado nenhum tipo de dependência ou não responderam à questão.

Quando questionados se sabiam identificar as características de um paciente dependente químico, 48,3% negaram saber e 46,5% responderam afirmativamente, sendo que os demais não responderam.

Referente à questão sobre o conhecimento sobre a assistência de enfermagem sistematizada para dependentes químicos, 62% (N = 36) dos alunos responderam negativamente; 31% (N = 18) responderam afirmativamente; o restante não respondeu.

Tabela 6 – Apresentação das respostas em número e porcentagem quanto aos tipos de intervenções de enfermagem realizadas aos pacientes com dependência química, segundo os estudantes de enfermagem (N = 58)

 

N

%

Não responderam

24

41.4

Orientações quanto ao uso da substância psicoativa, dependência, medicação Necessidade de acompanhamento a pacientes e familiares

16

27.6

Nunca ofereceu intervenção

6

10.4

Apoio e incentivo em relação ao alívio de ansiedade, Interrupção do uso de drogas/álcool, reinserção social

4

6.8

Não sabem

4

6.8

Tratamento clínico, acompanhamento psicossocial, encaminhamento

2

3.5

Assistência clínica (observação, controle, administração de medicação prescrita)

2

3.5

TOTAL

58

100

A tabela 6 apresenta o tipo de assistência de enfermagem efetuada aos pacientes com dependência de substâncias químicas, 41.4% dos alunos não responderam ou nunca ofereceram intervenções; 10.4% afirmaram ter realizado “orientações quanto ao uso, dependência, medicação e necessidade de acompanhamento a paciente e familiares”.

            Quando indagados à habiliadade de identificar os sintomas de intoxicação e abstinência, 88% dos alunos (não esclareceram, não se lembram, não sabem, ou não responderam; 12% mencionaram conhecer (descrevendo os sinais e sintomas da síndrome de abstinência alcoólica).

Tabela 7 – Apresentação das respostas em número e porcentagem quanto aos tipos de tratamento para os pacientes com problemas do uso de álcool e/ou drogas, segundo os alunos de graduação (N = 58).

 

N

%

Não responderam

41

70.6

Tratamento psiquiátrico e/ou psicológico

7

12

Terapia de apoio

5

9

Tratamento medicamentoso e psicoterapia

3

5

Não sabem

2

3

TOTAL

58

100

O tipo de tratamento conhecido por 26% dos alunos foi o “tratamento psiquiátrico e/ou psicológico”, “terapia de apoio”, ou “tratamento medicamentoso e psicoterapia”; embora 74% não responderam ou desconheciam o mesmo.

Em relação ao local adequado para encaminhamento do paciente, dentre os locais identificados, 26% dos alunos apontaram ser a “Clínica Psiquiátrica em Hospital Geral e/ou tratamento em Núcleo de Apoio Psicosocial, serviços geralmente caracterizados pelo atendimento a doentes mentais.

Sobre o conteúdo álcool e drogas, 91,3% dos alunos (N = 53) referiram que o problema do uso de drogas representa um tema de grande interesse, 94,8% (N = 55) julgam que a temática deve ser inserida no currículo e, finalmente, 96,5% (N = 56) consideram importante a inclusão do enfermeiro na equipe de saúde enquanto membro que poderá promover a melhora da qualidade de vida dos usuários de substâncias psicoativas.

Tabela 8 – Respostas em número e porcentagem sobre o local de encaminhamento para os pacientes que fizeram uso nocivo de drogas e/ou álcool, segundo os estudantes de enfermagem (N = 58).

Local de Encaminhamento

N

%

Não respondeu

22

38

Clínica Psiquiátrica em Hospital Geral e/ou Tratamento em NAPs

15

26

Clínica de desintoxicação

9

15

Unidade de Emergência

5

9

Não sabe

4

7

Grupos de apoio da comunidade

2

3

Hospital psiquiátrico tradicional

1

2

TOTAL

58

100

Topo
DISCUSSÃO

A amostra foi composta em sua maioria por mulheres com idade entre os 20 e 25 anos. Referentes aos conteúdos de álcool e drogas ministrado, 88% alunos afirmaram que esta temática está presente entre os temas curriculares, e que foram abordados nas disciplinas de Farmacologia e Enfermagem Psiquiátrica (38%), ministrado no Segundo e ou Terceiro ano de graduação. Quanto à carga horária destinada às aulas, a maioria não respondeu (62%) ou não soube (24%). Nesse ponto, nota-se uma contradição ao observar-se que 72% dos alunos afirmaram haver tido esse conhecimento, assinalando inclusive as disciplinas onde foi ministrado, entretanto, em questão anterior, 86% alunos omitiram, não souberam, ou não se lembram dos conteúdos. Isso nos leva a refletir que, os alunos não estavam presentes na aula, e ainda assunto referente e a estratégia de ensino utilizada não os despertaram interesses. Outra reflexões a este respeito pode estar relacionado a falta de clareza sobre a atuação do enfermeiro nesta área, ainda considerada nova em nosso meio, como vimos que estes conteúdo estão muito inseridos na enfermagem psiquiátrica e não na interdisciplinariedade, com responsabilidade de todas outras disciplinas também.

Tanto que para este estudo os estudantes entrevistados estimaram 38% de usuários de álcool e drogas e 34% de usuários de álcool. Quarenta e seis porcento sabem identificar os sintomas, porém apenas 31% reconhecem a assistência de enfermagem de maneira sistematizada.

O currículo de graduação da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – USP possui efetivamente 3 disciplinas que contemplam esse conteúdo – Farmacologia, Saúde Mental e Enfermagem Psiquiátrica, havendo o registro de conteúdos referentes a drogas psicotrópicas, alcoolismo e problemas relacionados. Entretanto, essas informações são esparsas, não ultrapassam doze horas (a maioria aulas expositivas), perdendo-se no conteúdo programático geral das disciplinas. Talvez por isso, a grande ocorrência de alunos que não responderam as questões ou que manifestaram desconhecimento sobre os itens, formas de abordagens e intervenção de enfermagem.

Quanto ao usuário de álcool e drogas, o aluno toma ciência do que seja um dependente apenas nos estágios (aulas práticas) realizados em serviços psiquiátricos, por isso, assimilou a idéia da dependência de substância psicoativa como um problema psiquiátrico, embora também o tenha percebido como orgânico e ainda com um fundo moral do problema presente, certamente pela experiência do cuidado ao alcoolista na urgência psiquiátrica e clínica médica.

Embora a dependência de álcool e drogas possa vir acompanhada de quadros psiquiátricos (comorbidade), não se pode caracterizar todo usuário de álcool ou drogas como um doente mental. Vários aspectos devem ser considerados, dentre eles as motivações do uso e o relacionamento que a pessoa estabelece com a substância. Portanto, na abordagem do usuário de álcool ou drogas, o conhecimento que o aluno adquiriu para assistir ao doente não é o suficiente para oferecer uma assistência adequada e direcioanda aos probelamas relacionados ao uso e dependência de substâncias.

É prudente que, no decorrer do curso, se procure minimizar a influência de idéias e preconceitos que o aluno pode estar trazendo do seu meio, pois em geral, ele tem experiências negativas na família (álcool) e, às vezes, não tão ruins (drogas), provenientes do convívio com colegas que podem fazê-lo perceber a questão com maior ou menor gravidade.
Topo

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo revelou que o conteúdo sobre álcool e drogas deveria ser reavaliado buscando novos caminhos para ser ministrado de maneira mais consistente e contínua, uma vez que apenas alguns conceitos foram assimilados pelo aluno. A aula expositiva como estratégia de ensino -aprendizagem, mostrou-se pouco eficaz enquanto meio de transmissão de conhecimento e, portanto, deverá ser reavaliada.

Cabe ressaltar o interesse do aluno a respeito do assunto álcool e drogas e a importância atribuída ao profissional enfermeiro como participante da equipe de saúde, responsável pelo cuidado do dependente de substâncias psicoativas. A valorização disso, certamente constitui o elemento mais importante para motivar o aluno no estudo desse tema. Compete aos docentes das Escolas de Enfermagem e seus respectivos alunos, encontrarem juntos os meios eficazes de transmitir o conhecimento específico necessário para a atividade prática (assistência, ensino e pesquisa).
Topo

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, A G. e cols. Uso de álcool e drogas entre alunos de graduação da Universidade de São Paulo (1996). Revista ABP-APAL, v.19, n.2, p.53-59, 1997.

BASSIT, A.Z. Prevenção ao uso de drogas. In: ANDRADE, A.G. & BASSIT, A.Z. e col. Avaliação de programas de prevenção de drogas. São Paulo, cap.1, p.9-20, 1995.

CARLINI-COTRIM, B. e cols. (1989). Consumo de drogas psicotrópicas no Brasil, em 1987. Centro de Documentação do Ministério da Saúde, Brasília.

CARLINI-COTRIM, B.; BARBOSA, M.T.S. (1993). Pesquisas epidemiológicas sobre o uso de drogas entre estudantes: um manual de orientações gerais. Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID). Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina.

CARLINI-COTRIM, B.; ROSEMBERG, F. Os livros didáticos e o ensino para a saúde: o caso das drogas psicotrópicas. Revista de Saúde Pública, v.25, n.4, p.299-305, 1991.

CARLINI, E.A.; CARLINI-COTRIM, B.; SILVA-FILHO, A.R. e col. (1990). II Levantamento nacional sobre o uso de psicotrópicos em estudantes de 1° e 2° graus, 1989. Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID). Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina.

GALDURÓZ, J.C.F.; D’ALMEIDA, V. e col. (1994). III Levantamento sobre uso de drogas entre estudantes de 1°. e 2°. graus em dez capitais brasileiras – 1993. Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID). Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de medicina.

KANDEL, D.B.; YAMAGUCHI, K.; CHEN, K. Stages of progression in drug involviment from adolescent to adulthood: further evidence for the gateway theory. Journal of studies on alcohool, v.53, p.447-457, 1994.

KESSLER, R.C.; Mc GONAGLE, K.A.; ZHAO, S. e col. (1994). Lifetime and 12-month prevalence of DSM-III-R Psychiatric Disorders in the United States. Arch Gen Psychiatry, v.51, p.8-19, 1994.

LUIS, M.A.V.; SOUZA, M.C.B.M. Questionamentos dos jovens sobre álcool e drogas. Acta Paulista de Enfermagem. São Paulo, v.9, n.2, p.39-46, maio/ago., 1996.

MAGALHÃES, M.P.; BARROS, R.S.; SILVA, M.T.A. Uso de drogas entre estudantes universitários: a experiência com maconha como fator delimitante. Revista ABP-APAL, v.13, n.3, p.97-104, 1991.

Noto, A.R.. Álcool provoca 90% das internações por drogas – Gazeta Mercantil de São Paulo, SP. Disponível em <http://www.unifesp.br/comunicações>. Acesso em: 27 de junho de 2002.

oea. Organización De Los Estados Americanos. La oportunidad de crescer: educación frente a las drogas. Grupo de Expertos – Departamento de Assuntos Educacionales de la OEA. La Educacion – Revista Interamericana de Desarrollo Educativo, ano XXX, n.99, p.11-135, 1986-I.

PIMONT, R.P.; BARRERA, L. O universitário brasileiro frente ao problema dos tóxicos. Revista Ciência e Cultura, v.14, n.10, p.1279-1285, 1982.

WEREBE, S. Toxicomania como uma das formas de marginalização de jovens em nossa sociedade. Revista Ciência e Cultura, v.33, n.3, p.319-324, 1981.

Texto original recebido em 23/02/2003
Publicação aprovada em 25/04/2003
Topo

AUTORAS

1 Professora Titular do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – EERP.USP. Centro Colaborador da OMS, para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem.

2 Enfermeira Doutoranda do Departamento de Psiquiatria: Ciências/Saúde Mental da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP/EPM.  Professora Assistente do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – EERP.USP. Centro Colaborador da OMS, para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem. Laboratório de Pesquisa em Álcool e Drogas. Av: Bandeirantes, 3900, Campus Universitário - Ribeirão Preto - SP, Brasil, CEP 14.040-902  e-mail: pillon@eerp.usp.br