Revista Eletrônica de Enfermagem - Vol. 06, Num. 01, 2004 - ISSN 1518-1944
Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO - Brasil).
 

BONI, Robison; PILON, Sandra C.; SANTOS, Elisangela C.; CAMATA, Marcio W.; MACIEIRA, Marluce S - Os conteúdos álcool e drogas no ensino de enfermagem da UFES: uma análise crítica. Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 06, n. 01, 2004. Disponível em www.fen.ufg.br

OS CONTEÚDOS ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS NO ENSINO DE ENFERMAGEM DA UFES: UMA ANÁLISE CRÍTICA
ALCOHOL- AND DRUG-RELATED CONTENTS IN THE NURSING PROGRAM AT ESPÍRITO SANTO FEDERAL UNIVERSITY: A CRITICAL ANALYSIS
LOS CONTENIDOS ALCOHOL Y OTRAS DROGAS EN LA ENSEÑANZA DE ENFERMERÍA DE LA UFES: UNA ANÁLISIS CRÍTICA
Robison Boni1; Sandra C Pillon2; Elisangela C. Santos3 ;Marcio W. Camata4 ;Marluce S. Macieira5
 

RESUMO: O estudo foi baseado no projeto da OEA e adaptado pela Escola de Enfermagem da UNIFESP, buscando analisar a situação sobre os conteúdos de álcool e outras drogas ministradas na graduação de enfermagem no Brasil. O objetivo desse trabalho foi avaliar a situação do ensino sobre a temática, álcool e drogas, na graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Através de um "levantamento" descritivo, aplicado a 86 estudantes de Enfermagem. Para 95% dos estudantes, o problema do uso de álcool e drogas representa um tema de grande interesse. A inclusão desses temas no curso de enfermagem torna - se uma condição facilitadora para a atuação do enfermeiro nessa área.
PALAVRAS CHAVES: Álcool; Drogas; Enfermagem; Educação.

ABSTRACT: The study was based on the project sponsored by the Organization of American States which was developed by São Paulo Federal University College of Nursing aiming at analyzing the alcohol- and drug-related course contents taught in undergraduate nursing programs in Brazil. Its purpose was to evaluate teaching conditions concerning this theme in the undergraduate nursing program at Espírito Santo Federal University through a descriptive survey  applied to 86 nursing students. To 95% of the students, the problem related to the consumption of alcohol and drugs is a theme of great interest. The inclusion of these themes in nursing programs is a facilitating condition for the education of nurses in this area.

KEYWORDS:  Alcohol; Drugs; Nursing; Education.

 RESUMEN: El estudio fue basado en el proyecto de la Organización de los Estados Americanos, desarrollado por la Escuela de Enfermería de la Universidad Federal de Sao Paulo, buscando analizar la situación sobre los contenidos de alcohol y drogas ministrados en el pregrado de enfermería en Brasil. El objetivo de este trabajo fue evaluar la situación de la enseñanza sobre esa temática en el pregrado en Enfermería de la Universidad Federal de Espírito Santo, a través de un "survey" descriptivo, aplicado a 86 alumnos de Enfermería. Para 95% de los alumnos, el problema del consumo de alcohol y drogas representa un tema de grande interés. La inclusción de eses temas en el curso de enfermería es una condición facilitadora para la  actuación del enfermero en el área.
TERMINOS CLAVES: Alcohol; Drogas; Enfermeria; Educación.

 INTRODUÇÃO

No Brasil, os problemas relacionados ou conseqüentes do uso do álcool e outras drogas tem sido, cada vez mais, objeto de preocupação por parte de familiares, profissionais da saúde, educação e governo, em decorrência do crescente aumento do consumo pela população especialmente os jovens (BRASIL, 1991).

De acordo com o I Levantamento Domiciliar Nacional sobre o uso de drogas psicotrópicas, envolvendo as 24 maiores cidades do Estado de São Paulo, realizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas – da Universidade Federal Paulista – UNIFESP (CEBRID, 2002), a prevalência do uso na vida de qualquer droga psicotrópica, varia bastante em relação ao sexo e a faixa etária. Neste estudo, verificou – se que 11,6% dos entrevistados já fizeram uso de algum tipo de drogas, excluindo – se da análise o álcool e o tabaco, por serem drogas legalizadas (CEBRID, 2002). O estudo mostra ainda uma prevalência do uso de álcool na vida 53.2% e para dependência do álcool é maior no sexo masculino (10.9%) do que para o feminino (2.5%). No total há estimativas de 6.6% de dependentes de álcool nas 24 maiores cidades do estado de São Paulo. Reforçando esses dados, Noto (2001) afirma que o uso do álcool foi o principal causador de internações por transtorno mental no país entre 1988 e 1999, sendo por 90% dos casos. Com relação ao número de internações a mesma autora cita que, das 422.836 internações por transtornos mentais ocorridas no país no ano de 2000, 84.872 internações são decorrentes do uso do álcool.

Segundo o Ministério da Saúde os gastos relativos a internações decorrentes do uso abusivo e da dependência de álcool e outras drogas, no triênio 1995 a 1997, ultrapassaram os 310 milhões de Reais, e, ainda, neste período, o alcoolismo ocupava o 4º lugar no grupo das doenças mais incapacitantes, considerando a prevalência global, e responsável por 3.5% das mortes anuais que ocorrem em um país (Leite, 2002). Segundo Moura (1992) o alcoolismo constitui a segunda principal causa de internações psiquiátricas e o quinto mais freqüente dos diagnósticos ambulatoriais.

De acordo com a demanda de usuários de álcool e de outras drogas, faz – se necessário à preparação técnica e educativa da equipe de saúde, em específico a do enfermeiro para atender as necessidades de saúde da população, promovendo uma melhoria na qualidade da assistência oferecida.

Pouco é sabido sobre as atitudes (pensar, sentir e comportar – se) dos enfermeiros em relação aos pacientes usuários de álcool e drogas, além de serem escasso os estudos,  a literatura também mostra que em relação aos treinamentos (educação continuada) ou mesmo ensino formal com essa temática, tem sido pouco explorada nos currículos de graduação em Enfermagem, os quais são considerados indispensáveis na formação dos enfermeiros com vistas à oferta de uma assistência qualificada a essa população.

A dependência da substância psicoativa, por ter suas características peculiares em graus de severidade ao longo de um continuum, torna –se uma situação delicada e relevante a ser considerada na realização de seu diagnóstico por parte dos profissionais de saúde que prestam atendimento ambulatorial e/ou hospitalar. Esses quando não capacitados, podem avaliar a dependência como uma entidade única, da qual todas as pessoas sofrem e direcionam - o a um objetivo unilateral, não ajustando as suas abordagens adequadamente (Edwards, 1997).

Os profissionais da saúde têm consideráveis contatos com indivíduos com problemas de alto – risco de saúde em conseqüência do uso de substâncias psicoativas. Se os enfermeiros, em especial, assumem a função de assistência específica a essa população, podem proporcionar cuidados efetivos, prevenindo assim o agravamento dos problemas (Rassool, 2000).

Allen (1993) evidencia a deficiência na experiência prática e teórica do enfermeiro quanto aos assuntos referentes ao uso e a dependência de substâncias psicoativas, bem como sobre os usuários, tornando muito limitada a intervenção efetiva deste profissional. No entanto, essa situação tem sido mudada em países como EUA, Inglaterra e Austrália. Já no Brasil, essa iniciativa vem sendo modificada ao longos dos últimos anos, pois treinamentos e cursos em nível básico, avançado e especializado em álcool e drogas têm sido desenvolvidos e oferecidos para os enfermeiros especializados ou não e de acordo com a necessidade profissional, além da implantação desse tema nos currículos de graduação de enfermagem em várias universidades (Pillon e cols. 2002). E ainda, a função do enfermeiro na área da dependência química, em especial do álcool, tem crescido consideravelmente nos últimos anos (Ryan, 1999).

Face ao exposto, a Organização dos Estados Americanos - OEA vem implementando desde 1998 um “Projeto de Capacitação de Docentes de Escolas de Enfermagem do Brasil na Área de Álcool e Drogas”, que visava construir um conjunto de conhecimentos sobre álcool e outras drogas a serem inseridos nos currículos de graduação em Enfermagem das escolas brasileiras. Posteriormente, o referido projeto sofreu adaptações pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP (Ramos e cols. 2001), a qual assumiu a coordenação em parceria com 25 instituições de ensino superior interessadas, entre elas a Universidade Federal do Espírito Santo - UFES.

Portanto, o objetivo deste trabalho foi analisar, especificamente, os dados referentes à situação do ensino teórico e prático sobre os conteúdos álcool e outras drogas no curso de graduação em Enfermagem da UFES - Universidade Federal do Espírito Santo.

 MÉTODOS 

O estudo foi realizado na Escola de Enfermagem pertencente ao Centro Biomédico da UFES, encontra-se situado no Campus Universitário de Maruípe – Vitória, ES. O estudo envolveu 184 alunos do 1º ao 4º ano do curso de graduação em Enfermagem, sendo a amostra foi constituída por 86 (100%) alunos do 3º e 4º ano de 1998, os quais tinham cursado alguma disciplina que abordava o conteúdo sobre álcool e outras drogas.

Os dados foram obtidos através de um questionário semi - estruturado com questões abertas e fechadas. Envolvendo questões como, informações sócio – demográficas, idade, sexo, ano de graduação; questões específicas referentes aos principais conceitos utilizados nessa temática, como tolerância, abstinência e dependência de drogas, estratégia de ensino utilizada pelos docentes, disciplinas que abordam o tema, importância da inserção do tema no currículo de enfermagem, tipo de enfoque dado ao problema, procedimentos adotados na sistematização, reconhecimentos de sinais e sintomas do uso de substâncias psicoativas, tipos de droga que provocou a dependência nos pacientes, tipos de programas que assistem os pacientes com dependência de álcool e outras drogas.

Este questionário foi elaborado pela coordenação do projeto e distribuído para os pesquisadores colaboradores de 25 universidades parceiras envolvidas (RAMOS, 2001), estabelecidas de acordo com as rotas de tráfico de drogas no país (UNDCP, 2002).

O método utilizado na análise dos dados foi um “levantamento” descritivo, os  resultados foram obtidos através de análise quanti-qualitativa e apresentados sob a forma de tabelas e gráficos.

 Comitê de Ética: Para a participação do aluno, foi orientado quanto ao objetivo da pesquisa, oferecido informações necessárias e a garantia do anonimato, mediante a autorização no consentimento – livre esclarecimento, de acordo com a resolução 196/1996 do CNS. O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram entrevistados 86 (100%) estudantes do curso de graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES, dos quais 57% cursavam o 3º ano e 43% o 4º ano. A idade média foi de 24 anos, variando entre 20-32 anos, com desvio padrão médio de 3 anos. A maior parte dos entrevistados era do sexo feminino (92%), o que se justifica pela história da profissão estar ligada ao cuidado e a doação, características tipicamente do universo feminino (Meyer, 1993) 

 Gráfico 1 – Apresentação das respostas em número e porcentagem dos conteúdos sobre álcool e outras drogas ministrado no currículo de graduação em Enfermagem da UFES, 1998. (N= 86)

 

 

Com relação ao currículo de enfermagem, 83 alunos referiram ter sido ministrado conteúdo sobre álcool e outras drogas durante o 3º e 4º ano e que esses conteúdos se concentraram principalmente no 4º e 5º períodos do curso. As estratégias de ensino e aprendizagem utilizadas pelos professores envolveram aulas teóricas (84%) e práticas/estágio curricular (73.2%).

Dentre as disciplinas que abordaram o conteúdo sobre álcool e outras drogas, a Enfermagem Psiquiátrica (86%) e a Enfermagem em Saúde Mental (50%) obtiveram destaque (Gráfico I)

Tabela 1 – Apresentação das respostas em número e porcentagem do enfoque dado ao problema de álcool e outras drogas no currículo de graduação em Enfermagem da UFES, 1998. (N = 86) 

Problemas Sociais

Problemas Físicos

Problemas Psíquicos

 

N

%

 

N

%

 

N

%

Adultos

78

90.6

Doença

78

90.6

Psiquiátrico

75

87.2

Família

76

88.3

Orgânicos

74

86

Personalidade

26

30.2

Influência do grupo

66

76.7

Causa genética

64

74.4

Falta de caráter

06

7.0

Hábito cultural

66

76.7

 

 

 

 

 

 

Trabalho

63

73.2

 

 

 

 

 

 

Curiosidade

56

65.1

 

 

 

 

 

 

Adolescentes

54

62.7

 

 

 

 

 

 

A tabela 1 apresenta que o enfoque dado ao uso de álcool e outras drogas no currículo de enfermagem da UFES, estão bastante centrados nos problemas relacionados aos adultos 90.6%, numa perspectiva de doença 90.6% e voltado aos aspectos psiquiátricos 87.2%, com uma visão muito pequena de falta de caráter 7%.

Esta tabela apresenta que os aspectos enfocados nas disciplinas de graduação de enfermagem estão mais centralizados nos problemas sociais, físicos e psiquiátricos, numa visão dos modelos psicossocial e de doença do que na visão moralista (Modelo Moral), a qual vem sendo abandonada ao longo do tempo, mas ainda estão presentes nos estudos.

Tabela 2 – Apresentação das respostas em número e porcentagem dos procedimentos adotados na sistematização da assistência no currículo de graduação em Enfermagem da UFES, 1998. (N = 86)

Procedimentos

N

%

Etapas envolvidas na intervenção em dependentes químicos*

77

89.5

Consultas de enfermagem

42

48.8

Visita domiciliar

12

14

Processo de enfermagem

03

3.5

Não responderam

09

10.5

 *Grupos de ajuda mútua, atendimento ambulatorial, hospitalar e outros

A tabela 2 apresenta que entre a sistematização da assistência de enfermagem, foram mencionados a consulta de enfermagem 48.8%, a visita domiciliar 14%e o processo/teorias de Enfermagem 3.5%.

Apresenta ainda que 89.5% dos alunos assinalaram às etapas envolvidas na intervenção aos dependentes de álcool e outras drogas, como os grupos de ajuda mútua, atendimento ambulatorial e hospitalar, em detrimento dos procedimentos integrais envolvidos na sistematização da assistência de enfermagem.

Estes resultados são peculiares da graduação de enfermagem da UFES pois os estudantes de enfermagem participam do programa de atendimento a pacientes alcoolistas. Onde segue uma proposta de atendimento por meio da sistematização da assistência de enfermagem (identificação dos problemas, planejamento da assistência), o qual favorece uma assistência mais direcionada aos usuários do programa, além da integração  no aprendizado pelos estudantes, BARROS (2000)

Tabela 3 – Apresentação das respostas em número e porcentagem sobre o conceito de dependência química segundo acadêmicos de graduação em Enfermagem da UFES, 1998. (N = 86)

Conceitos

N

%

Necessidade da droga no organismo

36

42

Necessidade psíquica, física e orgânica

19

22

Vício em drogas e álcool

12

14

O indivíduo que apresenta tolerância e crise de abstinência

05

6

Utilizar a droga para obter aceitação social

03

3.5

Não responderam

10

12

 

A tabela 3 apresenta as respostas quanto ao reconhecimento dos sinais e sintomas da dependência química respondidas pelos acadêmicos nos campos de estágio, 89.5% afirmaram saber identificar as características manifestadas pelo dependente químico. Porém, ao conceituar dependência química, notamos que 42% dos estudantes responderam como “a necessidade da droga no organismo” e 22% referiram “necessidade psíquica, física e orgânica da substância psicoativa”. Entretanto, o conceito preconizado pelo DSM-IV (1995) considera “a presença de um agrupamento de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos indicando que o indivíduo continua utilizando uma substância apesar de problemas significativos relacionados a ela”, diferindo do conceito expressado pelos estudantes, a qual demonstra uma visão simplista da necessidade da droga no organismo.

Tabela 4 – Apresentação das respostas em número e porcentagem sobre o conceito de tolerância de álcool e drogas segundo acadêmicos de graduação em enfermagem da UFES, 1998. (N = 86)

Conceito

N

%

Necessidade de aumentar a dosagem para o efeito terapêutico inicial

40

46.5

Não souberam conceituar

21

24.4

Limite / limiar que o organismo tolera

13

15

Capacidade de o organismo ser resistente a determinada droga

06

7

Não responderam

04

4.6


A tabela 4 apresentação das respostas quanto ao conceito de tolerância do álcool e outras drogas, 46.5% dos acadêmicos relataram como “uma necessidade de aumentar a dose da substância para o efeito terapêutico inicial”, estando compatível com a literatura especializada (DSM-IV, 1995) que define como "necessidade crescentes de quantidades da substância para atingir o efeito desejado, ou um efeito acentuadamente diminuído com o uso continuado da mesma quantidade da substância”. No entanto 24.4% não souberam conceituar, o que pode ser sugestivo da dificuldade do acadêmico de enfermagem em identificar a tolerância às substâncias psicoativas. Estes resultados nos leva, a refletir sobre as formas de como está sendo oferecido o ensino sobre essa definição, pois a maioria dos estudantes não souberam responder de uma foram convincente a tolerância de álcool e drogas.

Tabela 5 – Apresentação das respostas em número e porcentagem do conceito de abstinência de álcool e outras drogas, segundo os acadêmicos de graduação em Enfermagem da UFES, 1998. (N = 86)

Conceito

N

%

Período em que o dependente químico fica sem consumir a droga

46

53.5

Resposta do organismo à ausência da droga

16

18.6

Causas e conseqüências ocasionadas pela retirada da droga

17

19.7

Não soube conceituar

05

5.8

Não responderam

04

4.6

A tabela 5 apresenta a definição de abstinência de álcool e outras drogas, observamos que 53.5% dos estudantes referiram ser “o período em que o dependente fica sem fazer o uso da droga”. Podemos notar que a aplicação deste conceito está consoante com a definição estabelecida pela DSM-IV (1995) para abstinência de álcool e outras drogas, refere – se a “alteração comportamental mal adaptativa com elementos fisiológicos e cognitivos, que ocorre quando as concentrações de uma substância no sangue e tecidos declinam em um indivíduo que manteve um uso pesado e prolongado da substância. Após o desenvolvimento dos sintomas desagradáveis de abstinência, a pessoa tende a consumir a substância para aliviar ou para evitar esses sintomas”.

Outra questão referente à identificação dos sinais e sintomas de abstinência do álcool e outras drogas pelos acadêmicos de enfermagem, houve uma grande dificuldade em caracterizar a abstinência em relação às drogas, exceto o álcool. A ênfase aos problemas pertinentes ao alcoolismo deve-se a atuação dos estudantes no Programa de Atendimento ao Alcoolista - PAA, na vigência da disciplina Enfermagem Psiquiátrica, justificando esta tendência.

Quando solicitados para caracterizarem os tipos de dependência de drogas mais comum (álcool, cocaína e maconha, por exemplo), a maioria dos alunos indicou a provocada pelo álcool (82.5%), pois durante o período de estágio os alunos tiveram maior contato com pacientes com problemas relacionados ao do álcool. Estes dados reforçam e vão de encontro com as citações de NOTO (2001) o álcool é uma droga que causa dependência que tem provocado grande número de internações no Brasil.

Tabela 6 – Apresentação das respostas em número e porcentagem quanto aos tipos de drogas usadas pelos pacientes, segundo os acadêmicos de graduação em Enfermagem da UFES, 1998.

Drogas estimulantes

Drogas depressoras

Drogas perturbadoras

 

N

%

 

N

%

 

N

%

Cocaína

26

30.2

Álcool

40

46.5

Maconha

46

53.5

Nicotina

11

12.7

Psicotrópicos

10

11.6

 

 

 

Crack

06

7.0

Cola

03

3.5

 

 

 

Anfetamina

01

1.1

Inalantes

01

1.1

 

 

 

Heroína

02

2.2

 

 

 

 

 

 

Total

46

 

Total

54

 

Total

46

 

A tabela 6 apresenta a classificação das drogas quanto ao seu mecanismo de ação, os estudantes encontraram 54 citações referentes às drogas depressoras (álcool, medicamentos psicotrópicos, cola e inalantes), seguidas de 46 citações para drogas perturbadoras (maconha) e 46 citações para drogas estimulantes (cocaína, nicotina, crack, heroína e anfetaminas).

 A tabela 7 apresenta as respostas quanto aos programas que oferecem tratamentos aos dependentes de álcool e drogas conhecidos pelos estudantes, houve 86 citações sobre os grupos de mútua ajuda, 74 sobre o atendimento ambulatorial e apenas 9 citações referentes ao tratamento hospitalar. Dentre os tipos de tratamento, foram destacadas algumas modalidades de intervenção como orientações, encaminhamentos, visita domiciliar e sistematização da assistência.

Tabela 7 – Apresentação das respostas quanto aos programas que oferecem tratamentos para dependentes de álcool e outras drogas, mencionados pelos acadêmicos de graduação de Enfermagem da UFES, 1998.

Ambulatorial

Hospitalar

Grupos de ajuda mútua

*

N

*

N

*

N

PAAa

49

HPMd

04

AAf

43

CPTTb

16

HUCAMe

02

NAg

26

CAPSc

02

Outros

03

AL - ANONh

13

Serviço especializado

07

 

 

AL - ATEENi

04

Total

74

Total

09

Total

86

a Programa de Atendimento ao Alcoolista - PAA; b Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos - CPTT; c Centro de Apoio Psico - social- CAPS,  d Hospital da Polícia Milita r- HPM; e Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes - HUCAM; f Alcoólicos Anônimos - AA; g Narcóticos Anônimos - NA; h Familiares de Alcoólicos Anônimos - ALANON  e  i Filhos de Alcoólicos Anônimos - ALATEEN.

Em relação ao que representa para o profissional de enfermagem o problema do consumo de álcool e outras drogas 95% dos estudantes, responderam que é um tema de grande interesse. Além disso, 97.6% dos acadêmicos mencionaram que a inserção do enfermeiro na equipe interdisciplinar pode contribuir muito para uma melhoria na qualidade da assistência de enfermagem aos indivíduos. Finalmente, 93% dos alunos apontaram que os conteúdos sobre álcool e outras drogas deveriam ser inseridos no currículo de graduação, de forma a possibilitar aprendizagem destes temas face à problemática das drogas na atualidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como o objetivo analisar, os  conteúdos teóricos e práticos  sobre os principais aspectos relacionados ao álcool e outras drogas abordados no curso de graduação de Enfermagem da UFES - Universidade Federal do Espírito Santo.

Entre os principais resultados observamos algumas proximidades e outros distanciamentos das formulações da literatura especializada proposta para os principais conceitos em álcool e outras drogas como tolerância, abstinência e dependência. O ensino sobre essa temática está centrado na visão tradicional do modelo médico, e o tratamento direcionando pelas modalidades da proposta psiquiátrica com uma abertura para os aspectos sociais do problema, o que não diferencia do estudo de RAMOS e cols. (2001).

Este tema é de extrema importância para reflexões sobre o ensino atual com vistas a mudanças numa perspectiva de continuidade e extrapolar o modelo de doença, além de utilizar propostas de ensino baseado em evidencia, pressupondo que o campo de estágio  nessa área é amplo (o ambulatório da UFES, conta com um programa de atendimento a dependentes de álcool que atende (ambulatório, hospital e domicilio) um grande número de pacientes), o que facilita o ensino de forma criativa, com uma diversidade de estratégias para o aprendizado do aluno, o que favorecendo a quebra de visões simplistas do problema.

Os resultados evidenciam ainda a importância da inclusão dos conteúdos sobre álcool e outras drogas no currículo de graduação em Enfermagem da UFES, de forma a facilitar o preparo dos futuros profissionais com mais qualificação na identificação e intervenção aos pacientes usuários ou dependentes de álcool e ou outras drogas. Além disso, tanto os alunos quanto os profissionais de enfermagem necessitam de educação formal e ou treinamentos de forma contínua, pois a temática é universal e com inúmeras conseqüências para a saúde da população.

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Texto recebido em 03/02/2004
Última revisão recebida em 31/03/2004
Publicação aprovada em 30/04/2004

1Acadêmico do curso de graduação em Enfermagem e monitor de Extensão PAA/  HUCAM/ UFES.

2Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – EERP.USP. Centro 3Colaborador da OMS, para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem.

3 Acadêmica do curso de graduação em Enfermagem e bolsista Extensão PAA/ HUCAM/ UFES.

4 Acadêmico do curso de graduação em Enfermagem e bolsista de IC/ PIBIC-CNPq.

5 Profª Adjunta do Deptº de Enfermagem/ CBM, Coordenadora do NEAD/ CBM/ UFES e Orientadora.