Revista Eletrônica de Enfermagem - Vol. 06, Num. 01, 2004 - ISSN 1518-1944
Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO - Brasil).

NASI, Cíntia; STUMM, Lílian Konageski; HILDEBRANDT, Leila Mariza - Convivendo com o doente mental psic[ótico na ótica do familiar. Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 06, n. 01, 2004. Disponível em www.fen.ufg.br

CONVIVENDO COM O DOENTE MENTAL PSICÓTICO NA ÓTICA DO FAMILIAR1
LIVING WITH THE PSYCHOTIC IN THE FAMILIAR POINT OF VIEW
CONVIVIENDO CON EL ENFERMO MENTAL PSICÓTICO EN LA ÓPTICA DEL FAMILIAR
Cíntia Nasi2; Lilian Konageski Stumm3; Leila Mariza Hildebrandt4
 

RESUMO: Muitas pessoas vivenciam situações de adoecimento mental, de caráter psicótico, que desencadeiam sofrimentos tanto para o doente como para os seus familiares. Acreditamos que experimentar tal situação significa conviver com limitações e desgastes no cotidiano familiar, dificultando a convivência com a pessoa que possui quadro de psicose. Considerando esses aspectos, este trabalho tem como objetivo conhecer a percepção do familiar sobre sua vivência com uma pessoa portadora de psicose. Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório e descritivo desenvolvido em um município situado na região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - Ijuí. Os sujeitos da investigação constituíram-se de cinco familiares de indivíduos psicóticos que freqüentam o Grupo de Socioterapia do Bairro Glória. A coleta de informações se deu através de entrevista aberta, gravada e transcrita na íntegra. A análise dos dados obtidos seguiu a proposta metodológica de MINAYO (2002). A partir das informações contidas nos depoimentos dos atores sociais do estudo, emergiram três temáticas com um núcleo de pensamento semelhante. Na primeira, discutimos as dificuldades vivenciadas pelos familiares na convivência com a pessoa psicótica no momento em que ela possui os sintomas agudizados. Na segunda, abordamos a questão da medicação como um elemento terapêutico que ajuda o doente mental a manter-se estável, facilitando a convivência familiar. A terceira apresenta a concepção da família sobre a doença mental. Com este trabalho, concluímos que a convivência com a pessoa acometida por uma doença mental psicótica é desgastante para o familiar e que, por vezes, há dificuldade de entendimento dos sintomas apresentados pelo doente. Além disso, a família considera a medicação como uma das principais possibilidades de intervenção na terapêutica do sujeito psicótico, situação esta reforçada pela equipe de saúde que acompanha essas pessoas.
PALAVRAS CHAVES: Família; Doença Mental; Enfermagem.

ABSTRACT: A lot of people live situations of mental sickness, from psychotic character, that can cause suffering both for the sick and his family. We believe that try this situation means to live with limitations and wearings in the familiar everyday, what makes difficult the living with the psychotic person. Considering these aspects, this research has the purpose of knowing the familiar perception about his living with a psychotic bearer person. It is about a qualitative, explorative and descriptive study, developed in a northwest city of Rio Grande do Sul state, called Ijuí. The people of the investigation are composed of five psychotic’s parents, which frequent the socioterapy group in Gloria district. The information collection happened trough open interviews, recorded and wrote out at all. The analysis of the obtained data followed MINAYO’s (2002) methodological proposition. By the contained information in the stud’s social actor’s declarations, emerged three thematic with a similar nucleus of thoughts. On first thematic, we discussed about the difficulties faced by the familiars in the living with the psychotic in the moment he has the acute symptoms. On the second thematic, we talked about the medical question as bring a therapeutic element that helps the mental sick to keep stable., becoming better the familiars life. The third thematic shows the family conception about mental sickness. With this research we concluded that the living with a mental sick person is taxing for the familiar and, sometimes, there are difficulties to understand the symptoms showed by the sick person. Besides that, the family considers the medication one of the most important possibilities of intervention in the psychotic’s therapy, what is reinforced by the health team that leads with these people.
KEY WORDS: Family; Mental Illness; Nursing.

RESUMEN: Muchas personas vivencian situaciones de enfermedad mental, de carácter psicótico que desencadenan sufrimientos, tanto para el enfermo como para sus familiares. Creemos que experimentar tal situación significa convivir con limitaciones y desgastes en el cotidiano familiar, dificultando la convivencia con la persona que sufre psicosis. Considerando esos aspectos, este trabajo tiene como objetivo conocer la percepción del familiar sobre su vivencia con una persona portadora de psicosis. Se trata de un estudio cualitativo, exploratorio y descriptivo desarrollado en un municipio ubicado en la región noroeste del Estado do Rio Grande do Sul- Ijuí. Los sujetos de la investigación se constituyeron de cinco familiares de los individuos psicóticos que frecuentan el Grupo de Socioterapia del Barrio Glória. La colecta de informaciones se dio por encuesta abierta, grabada y transcripta en su totalidad. El análisis de los datos obtenidos consideró la propuesta metodológica de MINAYO (2002). A partir de las informaciones contenidas en las declaraciones de los actores sociales del estudio, surgieron tres temáticas con un núcleo de pensamientos semejantes. En la primera, hemos discutido las dificultades vivenciadas por los familiares en convivencia con la persona psicótica en el momento en que ella posee los síntomas agudizados. En la segunda, abordamos la cuestión de la medicación como un elemento terapéutico que ayuda al enfermo mental a mantenerse estable, facilitando la convivencia familiar. La tercera presenta la concepción de la familia sobre la enfermedad mental. Con ese trabajo, hemos concluido que la convivencia con la persona acometida por una enfermedad mental psicótica es desgastante para el familiar y que, por veces, hay dificultades de entendimiento de los síntomas presentados por el enfermo. Además, la familia considera la medicación como una de las principales posibilidades de intervención en la terapéutica del sujeto psicótico, situación ésta reforzada por el equipo de salud que acompaña a esas personas.
TERMINOS claves: Família; Enfermedad Mental; Enfermería.

 

INTRODUÇÃO

Em janeiro de 1999 e 2001, respectivamente, prestamos vestibular para ingressar na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ no Curso de Enfermagem. A escolha por tal curso deu-se pois o campo da saúde sempre nos atraiu e tínhamos como meta o cuidado daqueles que necessitavam.

Em 2001 fomos selecionadas para participar do Grupo de Estudos em Saúde Mental. Esse, fundado em 1995 por dois alunos e duas professoras, tornou-se em 2002, com a entrada de uma docente do campo da gerontologia em Grupo de Estudos em Saúde Mental e Gerontologia. É composto por 14 acadêmicos da Enfermagem e quatro docentes do referido curso. Reúne-se semanalmente no Campus da Universidade, tendo os encontros duração de uma hora e meia. O grupo tem por objetivo estudar e discutir temas vinculados às áreas afins, socializar vivências e compartilhar experiências vividas pelos integrantes do próprio grupo. Também, coordena eventos, como, a Semana de Saúde Mental e Envelhecimento Humano e a cada trimestre realiza comemorações festivas dos aniversariantes deste período.

Outra atividade realizada é a coordenação do Grupo de Socioterapia do Bairro Glória, que conta com 12 pacientes acometidos por alguma doença mental, de caráter crônico, em sua maioria, psicóticos e neuróticos graves, sendo que grande parte deles realiza acompanhamento psiquiátrico no Centro de Atendimento Psicossocial do município de Ijuí. Os integrantes são de ambos os sexos, com idade entre 25 e 60 anos, residentes no Bairro ou nas proximidades do mesmo. Os encontros realizam-se todas as quintas-feiras, com duração de duas horas, no Salão Paroquial da Igreja Católica do Bairro Glória, com a participação dos pacientes, professores e acadêmicos, sendo que os dois últimos freqüentam o grupo segundo uma escala estipulada pelos mesmos.

O Grupo de Socioterapia do Bairro Glória é mantido através de uma mensalidade paga pelos professores e acadêmicos e por doações esporádicas de Organizações Não Governamentais. Nos encontros, são realizadas atividades artesanais, festivas, conversação e jogos sugeridas pelos pacientes. Estas têm por finalidade promover maior entrosamento social, bem como permitir que expressem seus sentimentos, através da arte ou da verbalização. Quando solicitado, ou quando consideramos necessário, realizamos visitas domiciliárias, com o intuito de conhecer os motivos de faltas de pacientes aos encontros, avaliar situações de cronicidade e a convivência familiar.

Cuidar de tais pessoas, os doentes mentais, para nós é prazeroso pois gostamos de tal tarefa e conseguimos construir vínculo com esse contingente de pessoas por nós assistido. Além do mais, tentar compreender o mundo psicótico é fascinante e ajudar a família neste entendimento é um dos papéis dos profissionais do campo de saúde. As psicoses, segundo TOWNSEND (2002, p.21) “são distúrbios psiquiátricos graves, caracterizados pela presença de delírios ou alucinações e o distúrbio do funcionamento interpessoal e da relação com o mundo externo”. A partir da vivência com os pacientes do Grupo nos despertou o interesse em conhecer como se dá o convívio destes com seus familiares.

A família é um suporte básico para a vida de qualquer pessoa, mas para os doentes mentais psicóticos ela possui especial importância, pelo fato desses sujeitos, na maior parte das vezes, necessitarem de cuidados e acompanhamento dos membros do grupo familiar. Conforme WERNET (2001, p.14) “família é uma entidade presente na vida humana, seja ela representada pelos clássicos membros progenitores e toda a linhagem genética ou por pessoas acolhidas como família para outras pessoas”.

Acerca do relacionamento do doente mental e sua família procuramos compreender a forma como pacientes psicóticos do Grupo de Socioterpaia do Bairro Glória interagem com os seus familiares. Desta forma adotamos como pergunta norteadora desta pesquisa: como é para o familiar conviver com o doente mental psicótico?

Este estudo tem por objetivo conhecer como o familiar se percebe convivendo com uma pessoa portadora de psicose no domicílio.

Tivemos como pressupostos que a família tem um relacionamento conflituoso com o doente, particularmente por ter pouca compreensão sobre a doença mental, e pelo fato das psicoses modificarem o comportamento das pessoas acometidas por essa patologia.

Pensamos que esse estudo venha a contribuir para que os profissionais de saúde reflitam sobre suas intervenções junto ao doente mental e seus familiares e identifiquem as necessidades deste contingente de pessoas na tentativa de supri-las, considerando as especificidades de cada situação. 

O DOENTE MENTAL E A CONVIVÊNCIA COM A SUA FAMÍLIA: NOTAS DA LITERATURA

É tido como significado tradicional do termo psicose a perda do teste de realidade e comprometimento do funcionamento mental, expressos por delírios, alucinações, confusão e comprometimento da memória. Além desta conceituação pode se dizer que, na psicose, acontece comprometimento na convivência pessoal e social, caracterizado por retraimento e incapacidade para desempenhar os papéis domésticos e ocupacionais cotidianos. Outra manifestação é uma regressão do ego (KAPLAN et al, 2003).

Para os mesmos autores, as alucinações - uma das características de transtornos psicóticos - são caracterizadas por comprometer o teste da realidade. Já os delírios, outra importante manifestação, podem ser definidos como “falsa crença baseada em interferência incorreta sobre a realidade externa, inconsciente com a inteligência em antecedentes culturais do paciente, que não pode ser corrigida pela argumentação” (p. 294).

Tendo em vista as características de uma pessoa portadora de psicose nos faz remeter à grande importância que a família exerce em sua vida, contribuindo para o processo saúde-doença. A família pode ser considerada como pessoas aparentadas que geralmente vivem na mesma residência, podendo ser unidas por parentesco, laço ou aliança (FERREIRA, 1999).

Corroborando com a concepção acima descrita LUIS et al (1989, p.52) enfatizam que:

“Habitualmente uma família é um pequeno grupo de pessoas ligadas por um acordo legal, sexo e/ou anos, herança, objetivo e/ou costumes e/ou crenças comuns, com o propósito de autoproteger-se frente a um mundo hostil, gerar e criar filhos, transmitir a cultura do subgrupo e companheirismo. Às vezes estão presentes muito poucos desses elementos e, no entanto, o grupo de pessoas envolvidas se considera como sendo família”.

A família enfrenta situações de dificuldade talvez por não ter suficiente conhecimento sobre a doença vivenciada pelo seu familiar, esta geralmente não compreende a sintomatologia e a evolução do quadro clínico da patologia.

Famílias que possuem, dentre os seus membros, um sujeito acometido por uma doença mental freqüentemente tendem a se adaptar com a presença da patologia, inclusive, em alguns casos, precisando se restringir da participação em alguns eventos sociais pelo preconceito existente na sociedade. Além disso, podem precisar mudar determinados hábitos acerca do relacionamento familiar, intensificando a atenção ao doente mental psicótico.

Conforme MORENO (2000), há uma maior tensão na convivência, a família procura se isolar, ocorre restrição de visitas, diminuem as saídas para passeios, ou seja, o período de lazer diminui.

Para CAVALHERI (2002), quando a família possui um membro com uma doença mental, toda ela acaba mobilizando-se inteiramente. Independente de ser orgânica ou mental, o desgaste é agravado quando se trata de uma doença de duração prolongada, com freqüentes casos de agudização de sintomas e quando é considerada incapacitante e estigmatizadora. Sobre o mesmo tema, OLIVEIRA & JORGE (1998, p.380) afirmam que “a doença seja ela física ou psiquiátrica afeta seriamente o grupo familiar. Quando se adoece, há uma interrupção de suas atividades normais e algumas destas atividades precisam ser desempenhadas por outras pessoas”.

Além do mais, os estudos de KOGA & FUREGATO (1998) tratam das sobrecargas que a família passa em decorrência da convivência com o doente mental, classificando-as como financeira, nas rotinas familiares, como doença física ou emocional e alterações das atividades de lazer e relações sociais.

PERCURSO METODOLÓGICO

Em virtude do objeto deste estudo, optamos por realizar uma pesquisa de natureza qualitativa, descritiva e exploratória. Segundo MINAYO (2002, p.21) a pesquisa qualitativa “trabalha com um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis”.

A pesquisa exploratória, de acordo com GIL (1996), visa uma maior aproximação com o problema para torná-lo mais explícito, mais claro ou desenvolver hipóteses, sendo que, principalmente, visa aperfeiçoar idéias ou descobrir intuições. Já o estudo descritivo, para o mesmo autor, tem por finalidade descrever as características de determinada população ou fenômenos ou estabelecer relações entre variáveis.

Os sujeitos do estudo foram familiares de integrantes do Grupo de Socioterapia do Bairro Glória, portadores de psicose, residentes no referido bairro do município de Ijuí\RS. Entrevistamos o membro familiar mais próximo dos componentes do grupo que possuíam alguma psicose, sendo, um pai, uma mãe, uma filha, um filho e um esposo. Dos integrantes da pesquisa, três permanecem no mercado formal de trabalho e dois são aposentados. As entrevistas foram realizadas no domicílio dos sujeitos do estudo.

Utilizamos como instrumento de coleta de dados a entrevista; já que nesta há uma relação de interação entre quem pergunta e quem responde, permitindo a coleta imediata e corrente da informação desejada (LÜDKE & ANDRÉ, 1986). O tipo de entrevista escolhida foi a não-estruturada, a qual possibilitou ao informante falar livremente sobre o assunto. As entrevistas foram gravadas em audio tape (fita cassete) e posteriormente transcritas de forma literal e após analisadas. Na entrevista tivemos como questão norteadora: Como é para você conviver com o doente mental? A coleta dos dados aconteceu nos meses de março e abril de 2003.

Este estudo respeitou os aspectos éticos da pesquisa englobando seres humanos, de acordo com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos (BRASIL, 1996). Isso implica que seja mantido o anonimato da população alvo do estudo, que estes tenham consciência e sejam esclarecidos sobre a pesquisa a ser realizada e que os dados obtidos na mesma serão usados para fins científicos.

A fase de análise das informações tem por objetivo “estabelecer uma compreensão dos dados coletados, confirmar ou não os pressupostos da pesquisa e/ou responder as questões formuladas, e ampliar o conhecimento sobre o assunto pesquisado, articulando com o contexto cultural da qual faz parte” (MINAYO, 2002, p.69).

Nesta etapa seguimos os passos preconizados por Minayo (2002) que são:

a) ordenação dos dados: reunimos todos os dados obtidos no trabalho de campo e realizamos a transcrição das entrevistas gravadas;

b) classificação dos dados: procedemos a leitura exaustiva e repetida do material obtido para estabelecermos questões importantes e construirmos as categorias empíricas do estudo;

c) análise final: relacionamos os dados aos referenciais teóricos da pesquisa, procurando elucidar a pergunta de investigação.

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS DA PESQUISA

Após leitura e releitura do material obtido junto aos atores sociais da pesquisa buscamos apreender o conteúdo que estivesse relacionado à convivência do familiar com o doente mental no domicílio. A partir daí emergiram três temáticas de análise que serão discutidas a seguir.

1 – As dificuldades do familiar na convivência com o doente mental

Alguns entrevistados se reportaram a convivência cotidiana com o doente mental como geradora de dificuldades. Para os entrevistados, quando da agudização dos sintomas da psicose, a pessoa doente não conseguia ficar em casa e dar conta das atividades cotidianas, exigindo da família a disponibilidade de ir busca-la todas as vezes que saía de casa e de realizar as tarefas domésticas, como mostra as falas abaixo:

“quando ela ficava bem fora ela só queria ficar fora de casa, só queria sair (...) quantas vezes fui buscar ela na rodoviária que ela fugia, trazia ela para casa e ela ia nos vizinhos (...) não fazia fazer almoço, janta, não se interessava em nada (...) quando dá as crises nela não tem vontade de as coisas” (E 1).

“ela saía, ninguém via, saia pelos vizinhos, a gente tinha que sair atrás e ela não queria vir, queria ficar lá” (E 2).

“(...) ela saía na rua, não comia, não se alimentava (...) quantas vezes ela saiu, isso antes, ia para a rua, saía, eu tinha que ir atrás, ia lá ‘mãe vem para casa’, tu acha que ela vinha, pegava pelo braço assim ‘vem mãe, vem para casa, vem comer, vem tomar banho’, queria ficar lá na esquina, lá ela ficava, ou ela saía não voltava, aí tu tinha que sair atrás, tu não imagina” (E 5).

Outras situações são relatadas por alguns sujeitos do estudo quando colocam das mudanças de comportamento do doente mental com sintomatologia manifesta, de acordo com seus depoimentos:

“(...) ele não dorme, caminha a noite inteira, daí ele sai para a rua, fica caminhando, deita, levanta (...) e vive se olhando no espelho e depois diz que eu fiquei botando as coisas no rosto dele (...) (E3).

“(...) ela estava fora da realidade, fora da realidade, era muito difícil (...) sabe o que ela fazia, aquelas mortadela, presunto fatiado, ela atava, botava um negócio daqueles aqui (abdome) ou aqui (braços) ou aqui (coxas), um pão com manteiga em cima, em vez de comer, a gente contando não acredita, ou pegava um bife, em vez de fazer um bife atava ou no braço ou na perna, na barriga, a gente fala pensam que é invenção, isso ficou  na mente. A comida, faziam rancho uma vez por mês, pegava pacotes de arroz, feijão, abria tudo, jogava no meio da rua, isso ficou na mente, farinha, açúcar, voava assim, vocês não imaginam o que era ela em crise” (E 5).

“quando deu nele, esses terrenos tudo ele corria, ele enlouqueceu, corria por tudo, não dava para pegar ele, pulava de um terreno para o outro, não dava para pegar, dormia na capoeira, mato (...)” (E4).

Considerando os depoimentos dos atores sociais do estudo, percebemos que há uma sobrecarga da família em especial diante da agudização dos sintomas. Fica evidente nas falas as mudanças de comportamentos dos doentes mentais, situação essa de difícil entendimento tanto para a família como para a sociedade em geral. Essas idéias são reforçadas por Oliveira & JORGE (1998, p. 381) quando afirmam que “o desgaste, tensões e conflitos causados por uma pessoa mentalmente perturbada constituem os maiores problemas que a família enfrenta. A imprevisibilidade do paciente é outra fonte de tensão em casa”.

Por outro lado, o arrefecimento dos sintomas ao até mesmo a ausência dos mesmos torna a convivência familiar mais tranqüila. As manifestações abaixo denotam esses aspectos:

“(...) a convivência é muito boa, é maravilhosa porque ela está bem hoje (...). A convivência hoje eu acho normal, uma convivência boa, hoje, isto o atual, o passado foi muito difícil, muito sofrido, vocês não imaginam a situação que foi” (E 5).

O que se percebe no depoimento acima é que, na medida que a pessoa reduz sintomatologia, a convivência familiar fica muito próxima da normalidade cotidiana de qualquer família.  Toda a mudança de comportamento, decorrente da psicose, mobiliza muito os familiares, até porque há um certo desconhecimento dos mesmo em relação ao que fazer e como cuidar de uma pessoa com tais características.

Além disso, a convivência com o doente mental pode provocar ansiedade e sensação de perda de controle nos demais membros da família:

 “a gente fica nervoso vendo ela daquele jeito (...) todo mundo fica nervoso de ver a mãe da gente daquele jeito, fazer o quê?” (E1).

“(...) as vezes eu fico mais louca do que ele (...)” (E3).

“(...) tu imagina o pai trabalhava o dia inteiro, um monte de filho para sustentar, sempre trabalhou, pedreiro, chegava em casa de noite, a mãe sei lá onde andava, nós em casa sujos, sem comer, ninguém foi na escola, não tinha comida, a roupa suja, a pessoa enlouquece (...)” (E5).

A família tem poucas respostas para as suas inquietações, por isso fica nervosa, ansiosa e com medo, como é possível evidenciar nos depoimentos acima. Além disso, há sobrecarga física em função da convivência com um doente mental, pois é necessário que os integrantes “sadios” do núcleo familiar dêem conta de todas as atividades cotidianas, inclusive aquelas atribuídas ao doente mental antes da exacerbação dos sintomas. Também há reflexos no cuidado dos filhos, principalmente quando os mesmos ainda são crianças, podendo repercutir no seu futuro.

Corroborando com as idéias expostas acima Koga; Furegato (1998) apontam que o familiar vai se desgastando em conviver com a pessoa portadora de transtorno mental acarretando sobrecarga física e emocional, privando-se da sua própria saúde para poder prestar assistência adequada ao doente. Já para Oliveira; J. (1998) é o comportamento imprevisível do doente mental que debilita as expectativas sociais e origina incerteza e insegurança nos seus familiares.

2 – A medicação como elemento facilitador da convivência familiar

A maior parte dos entrevistados afirma que o uso de medicamentos mantém o doente mental estável e facilita a convivência no ambiente familiar. As manifestações abaixo apontam tais concepções:

“(...) depois que ela toma o remédio de novo volta ao normal” (E1).

“(...) mas quando ele continua o tratamento está bem” (E4).

“(...) agora se ele não toma o remédio de noite ele não dorme (...) de vez em quando ele não quer tomar, daí tem que gritar com ele, daí toma, ele tem que tomar (...)” (E3).

Tais falas vêm ao encontro da afirmação de KOGA & FUREGATO (1998) que dizem que os familiares procuram o médico para adquirir receitas de medicamentos quando o doente mental piora. De acordo com a experiência familiar o uso de psicofármacos mostra-se eficiente nos momentos de agudização de sintomas psicóticos.

Esta concepção, muitas vezes, é reforçada pela equipe de saúde que atende o doente mental, centrando na medicação como o principal elemento terapêutico, como evidencia a fala a seguir:

“(...) o médico disse que tem que tomar o remédio, se ele parar volta tudo” (E4).

A equipe de saúde, freqüentemente, só atenta para o que está acontecendo com a pessoa acometida pelo adoecer psicótico e com sua medicação. Reforça ao familiar que a única alternativa é o uso correto da medicação e muitas vezes esquece de se aproximar sesta família que também precisa de atenção e de acompanhamento adequado.

A equipe de saúde, no entendimento de Saraceno apud Moreno (2000), deve pensar em um todo e compreender a atenção em saúde mental como sendo “um processo de reconstrução, um exercício pleno da cidadania e também de plena contraturalidade nos três grandes cenários: habitat, rede social, trabalho com valor social”. Portanto, conforme os apontamentos do autor, a família faz parte do tripé que compõe os elementos necessários à intervenção junto ao doente mental. 

Por outro lado, um dos integrantes do estudo entende que o uso da medicação é importante mas não essencial. Na sua concepção, o convívio com a família é um fator primordial. O seu depoimento mostras esses aspectos:

“É, eu sei que a medicação ajuda, mas ter só a medicação e não ter esse convívio (...). Eu acho que se não tem o todo, eles entram em crise, não adianta entupir eles de medicamento, não adianta, vai cair um dia (...)” (E 5).

A compreensão deste familiar vai ao encontro daquilo que acreditamos, pois sabemos da importância do uso de psicofármacos e do quanto eles auxiliam na redução de sintomas psicóticos. No entanto, o uso destes medicamentos, por si só, é pouco eficaz na recuperação de uma pessoa acometida por psicose. Essa concepção é reforçada por TOWNNSEND (2002, p.252) quando diz que “as medicações psicotrópicas se destinam a serem usadas como terapia adjuvante à terapia individual ou de grupo”.

3 – Concepção da família sobre a doença mental

Percebemos no discurso dos depoentes que existem algumas dificuldades de entendimento da doença mental, bem como da instabilidade afetiva, fatores estes que interferem na convivência com a pessoa com transtorno psiquiátrico. Por outro lado, entendem que sofrimento mental possui como característica a cronicidade e incurabilidade desta doença. Os depoimentos abaixo mostram estes aspectos:

“(...) sei lá eu não entendo essas doenças (...) o doutor disse que é uma doença que não adianta” (E3).

“é um carma, Deus que me livre, ela fica braba de repente, de repente ela fica boa” (E1).

“(...) o doutor A. disse que é para o resto da vida” (E4).

Tais falas mostram que o familiar tem pouca compreensão sobre a sintomatologia e as mudanças de comportamento do sujeito em sofrimento psicótico, o que se deve, talvez pela falta de esclarecimento acerca da doença. MORENO (2000), citando Rabelo et al, coloca que o diagnóstico da doença é muito valorizado pelo familiar, mas, na maioria das vezes, ele não possui o entendimento da patologia propriamente dita. Cabe ressaltar que as orientações a respeito da doença devem ser fornecidas pela equipe de saúde, tanto ao paciente quanto ao familiar, o que provavelmente contribuiria na compreensão do processo de adoecer e na convivência familiar.

A expressão utilizada por um dos depoentes “é um carma, Deus que me livre (...)” demonstra o sacrifício do familiar em cuidar do doente mental psicótico com instabilidade afetiva. No entanto, não nos parece que o familiar não queira se responsabilizar pelo cuidado, mas reforça o desgaste familiar decorrente da psicose. FREITAS & MENDES (1999) ressaltam que o cuidado de pessoas em condições crônicas exige adaptação e readaptação da família e um gasto cotidiano da mesma para que este processo adaptativo se efetive. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com este trabalho tivemos como objetivo conhecer a percepção do familiar sobre a convivência com uma pessoa portadora de psicose. Para realização deste estudo nos apoiamos na pesquisa qualitativa, descritiva, exploratória e lançamos mão da entrevista aberta para obtenção dos dados.

Ao analisarmos as informações percebemos que a convivência com uma pessoa psicótica desgasta a família e dificulta as inter-relações. Tais dificuldades se acentuam quando da agudização dos sintomas psicóticos.

Grande parte dos entrevistados atribui exclusivamente à medicação a melhora do quadro clínico do doente. Somente um dos depoentes acredita que a medicação constitui-se em um adjuvante na terapêutica da pessoa acometida por psicose.

Outra situação evidenciada no discurso dos atores sociais da investigação é o pouco conhecimento a respeito da patologia, caracterizando-a como crônica, incurável e irreversível. Talvez isso se deva á concepção social da loucura que ainda perpassa no nosso cotidiano.

Para finalizar gostaríamos de ressaltar a importância da inserção da família na assistência ao indivíduo psicótico, bem como a necessidade de cuidado, por parte da equipe com o grupo familiar que, na maioria das vezes, se encontra desgastado.

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Texto original recebido em 12/08/2003
Publicação aprovada em 30/04/2004

1Trabalho de iniciação científica  desenvolvido no 1º semestre de 2003, como parte das atividades do Grupo de Estudos em Saúde Mental e Gerontologia do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ.

2Acadêmica do 7º semestre do Curso de Enfermagem da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, integrante do Grupo de Estudos em Saúde Mental e Gerontologia do Departamento de Ciências da Saúde/UNIUÍ, bolsista PIBIC/UNIJUÍ. E-mail: cintianasi@hotmail.com Endereço: Rua Frederico Steinmetz, nº 126, Bairro Lulu Ilgenfritz, Ijuí/RS, CEP 98700-000.

3Acadêmica do 4º semestre do Curso de Enfermagem da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, integrante do Grupo de Estudos em Saúde Mental e Gerontologia do Departamento de Ciências da Saúde/UNIUÍ.

4Enfnermeira, mestre em Enfermagem Psiquiátrica, docente do Curso de Enfermagem da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grade do Sul – UNIJUI, integrante do Grupo de Estudos em Saúde Mental e Gerontologia do Departamento de Ciências da Saúde/UNIJUÍ. E-mail: leilah@unijui.tche.br