ree Início
Atual
Expediente
Instruções aos autores
Sistema de submissão
Artigo de Revisão
 
Bassora JB, Campos CJG. Metodologia clínico-qualitativa na produção científica no campo da saúde e ciências humanas: uma revisão integrativa. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2010 out/dez;12(4):753-60. Available from: http://dx.doi.org/10.5216/ree.v12i4.5804.

Metodologia clínico-qualitativa na produção científica no campo da saúde e ciências humanas: uma revisão integrativa

 

Clinical-qualitative methodology in scientific production in health and human sciences: an integrative review

 

Metodología clínico-cualitativa en la producción científica en salud y ciencias humanas: una revisión integradora

 

 

Jennifer Bazilio BassoraI, Claudinei José Gomes CamposII

I Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Campinas, SP, Brasil. E-mail: jenniferbazilio@yahoo.com.br.

II Enfermeiro. Doutor em Ciências Médicas. Professor Doutor, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil. E-mail: cjcampos@fcm.unicamp.br.

 

 


RESUMO

A pesquisa qualitativa vem ascendendo sua utilização, por profissionais de saúde, principalmente nas últimas décadas. Desta forma, o objetivo deste estudo foi caracterizar as pesquisas produzidas nas diversas áreas da saúde e ciências humanas, utilizando especificamente a metodologia clínico-qualitativa. Trata-se de uma revisão integrativa que abarcou as publicações nacionais de 2000 a 2010, nas bases de dados Cinahl,  PubMed e nas bibliotecas virtuais Bireme e SciELO, utilizando as palavras-chave pesquisa qualitativa, método clínico-qualitativo, metodologia clínico-qualitativa. Foram identificados 55, dos quais 33 compuseram a amostra do estudo. Os resultados apontaram crescimento nas publicações nos últimos anos. A aplicação deste referencial metodológico apresentou-se pertinente, especialmente nas pesquisas vinculadas aos settings de saúde, porém percebemos deficiências na produção de alguns destes artigos, sobretudo em relação a abordagem metodológica. Por tratar-se de um método de recente utilização, sua aplicação ainda carece de melhor entendimento e desenvolvimento, por parte de alguns autores.

Descritores: Pesquisa Qualitativa; Literatura de Revisão como Assunto; Técnicas de Pesquisa.


ABSTRACT

Qualitative research has increased its use by health professionals, especially in recent decades. Thus, the purpose of this study was to characterize the research in different areas of health and human sciences, particularly using clinical-qualitative methodology. It is an integrative review which covered national publications from 2000 to 2010, the databases CINAHL, PubMed and BIREME virtual libraries and SciELO, using the keywords qualitative research, clinical-qualitative method, clinical-qualitative methodology. Fifty five (55) were identified, of which 33 constituted the study sample. The results showed the growth in publications in the recent years. The application of this methodological framework presented is appropriate, especially in research related to health care settings, but we realized the shortcomings in the production of some of these articles, especially in relation to the methodological approach. Since it is a method of recent use, its application still requires better understanding and development, by some authors.

Descriptores: Qualitative Research; Review Literature as Topic; Investigative Techniques.


RESUMEN

La investigación cualitativa ha aumentado su uso por profesionales de la salud, especialmente en las últimas décadas. Así, el objetivo de este estudio fue caracterizar las investigaciones realizadas en las diferentes áreas de la salud y ciencias humanas, en particular utilizando la metodología clínica-cualitativa. Es un examen integrador que abarcó las publicaciones nacionales desde 2000 hasta 2010, en las bases de datos CINAHL, PubMed y bibliotecas virtuales BIREME y SciELO, utilizando las palabras clave: investigación cualitativa, método clínico-cualitativo, metodología clínica-cualitativa. Fueron identificados 55, de los cuales 33 constituyeron la muestra de estudio. Los resultados mostraron crecimiento en las publicaciones en los últimos años. La aplicación de este referencial metodológico presentado es apropiada, especialmente en materia de investigaciones vinculadas a settings de salud, pero nos dimos cuenta de las deficiencias en la producción de algunos de estos artículos, especialmente en relación con el enfoque metodológico. Puesto que es un método de uso reciente, su aplicación aún requiere una mejor comprensión y desarrollo, por parte de algunos autores.

Descriptores: Investigación Cualitativa; Literatura de Revisión como Asunto; Técnicas de Investigación.


 

 

INTRODUÇÃO

A pesquisa qualitativa vem ascendendo em sua utilização, por profissionais de saúde, nas mais diversas áreas, principalmente nas últimas décadas. Tal observação se deve ao número de artigos atualmente submetidos e aceitos em periódicos científicos. Sendo o homem o foco de interesse da pesquisa qualitativa, dentro de todo seu universo de razões e emoções, um ser subjetivo, particular e com toda sua complexidade, tais estudos tornaram-se ricos em sua análise para as descrições de vivências associadas ao ponto de vista do sujeito de pesquisa, ou seja, em seu aspecto êmico(1).     

A necessidade em compreender e comprovar a existência de fenômenos que cercam o processo entre a saúde e o adoecer, vivenciados pelos pacientes/clientes em seu completo significado, torna tal método muito eficaz, pois consegue trazer o que antes era subjetivo à realidade contextual e interpretativa da ciência.

A abordagem qualitativa refere-se a estudos que buscam os significados, as representações, as simbolizações, as percepções e o ponto de vista do sujeito estudado(1), o que a torna uma abordagem com pressupostos conceituais muito diferentes dos assumidos pelos métodos pautados pelo paradigma quantitativo.

O impulso à utilização de métodos qualitativos se deve a disciplinas como a sociologia e antropologia, principalmente nos estudos etnográficos por se preocuparem com os aspectos sociais e culturais dos povos. O método qualitativo é recente, sua utilização completa apenas um século dentro da história do conhecimento, onde sentimos que sua sustentação somente se solidificou como método a partir dos anos sessenta(2).

Dentro da denominação de “pesquisa qualitativa” encontram-se vários tipos de abordagens, pois cabe ao pesquisador definir qual delas se adéqua ao seu objetivo de pesquisa. Estas abordagens investigativas se apóiam em métodos como o interacionalismo simbólico, a etnometodologia, o materialismo dialético e a fenomenologia(3).

Outra abordagem utilizada atualmente é o método clínico-qualitativo que segue a linha qualitativa sobre um olhar clínico, partindo de dois métodos modelares: o das ciências da saúde e os tradicionalmente ligados a sociologia e antropologia(2).

Tal metodologia é definida como: “... o estudo da construção dos limites etimológicos de certo método qualitativo particularizado em settings da Saúde, bem como abarca a discussão sobre um conjunto de técnicas e procedimentos adequados para descrever e compreender as relações de sentidos e significados dos fenômenos humanos referidos a este campo. A metodologia clínico-qualitativa utiliza-se das inquietações do pesquisador, como força motriz da origem do questionamento frente aos fenômenos, sendo esta uma luta interior para busca da compreensão das questões humanas(2).

O acolhimento do indivíduo no “setting” de cuidados à saúde e a valorização das angústias e ansiedades da pessoa entrevistada, em uma atitude clínica durante a coleta de dados é elemento fundamental de mobilização de interesse do entrevistador(2).

O método clínico-qualitativo apresenta outras características específicas como a preocupação com significados conscientes e inconscientes atribuídos pelos sujeitos estudados aos diversos fenômenos vivenciados.

O “pesquisador como bricoleur” é uma das características do método clínico-qualitativo, que se refere a um termo francês que determina aquele que compõe fatos à partir de fragmentos e o reconstrói para constituir um novo pensamento, utilizando-se de sua experiência e multiplicidade de referenciais teóricos capazes de embasá-lo.

Durante a pesquisa clínico-qualitativa o pesquisador deve apresentar de antemão conhecimento teórico e prático, ou seja, vivência do campo de estudo e de possíveis teorias que possam ser aplicadas no desenvolvimento do estudo, preservando assim a natureza teórica e prática como pontos simultâneos de partida.

Na utilização do referido método, outra característica marcante é o caráter indutivo das pesquisas qualitativas e é amplamente descrito na apresentação dos pressupostos dos métodos qualitativos(4).

Alguns autores(5-6) concordam que os fenômenos podem ser explicados num processo indutivo-dialético compreendido em sua totalidade. O processo para se chegar à essência de um fenômeno é indutivo, mas à medida que é descoberta sua aparência, está avaliando um suporte teórico que atua dedutivamente, só alcançando sua validade à luz da prática social(6).

A interpretação dos dados pode começar a acontecer durante a própria coleta de dados. O pesquisador deve estar atento, no momento da entrevista, para possíveis manifestações não verbais do entrevistado que possam lhe dar indícios interpretativos(5).

Diferente dos métodos quantitativos, que trabalham como ponto forte a possibilidade de conseguir o mesmo resultado em reteste do estudo, feito nas mesmas condições por outros pesquisadores(7-8), o método clínico-qualitativo apresenta a validade dos dados como fortalecimento do mesmo, ou seja, o grau que um procedimento gera um resultado correto e representativo da realidade empírica(1) e aceitável pela comunidade científica.

A trajetória do desenvolvimento epistemológico do método clínico-qualitativo imbrica-se com a criação do Laboratório de Pesquisas Clínico-Qualitativas (LPCQ) em 1997, núcleo de pesquisa vinculado ao Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria e Programa de Pós-graduação em Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas e a publicação do livro Tratado da metodologia da pesquisa clínico-qualitativa: construção teórico-epistemológica, discussão comparada e aplicação nas áreas da saúde e humanas(5).

A utilização desse livro hoje, como referência e aplicação, em diversos trabalhos qualitativos e nos settings de atenção à saúde em âmbito nacional, tem ajudado a preencher uma lacuna epistemológica e prática dentro da perspectiva das metodologias qualitativas, ou seja, a diminuir uma carência de produções e trabalhos teórico-metodológicos qualitativos com aplicabilidade na área da saúde.

Assim, o interesse pela metodologia e o advento de 10 anos de desenvolvimento da mesma, motivaram a realização de uma revisão integrativa sobre a produção científica publicada, que utilizou da pesquisa clínico-qualitativa na literatura brasileira, para a interpretação do conhecimento produzido na área e com o propósito de auxiliar no desenvolvimento de futuras investigações. É necessária uma análise crítica, detectando pontos e tendências da aplicabilidade deste tipo de pesquisa, observando acréscimos, lacunas e/ou vieses na produção científica que se vale desta metodologia específica.

Dessa forma foram objetivos dessa investigação: identificar as produções científicas que utilizaram metodologia clínico-qualitativa, desenvolvidas por pesquisadores brasileiros, na área de saúde; identificar os tipos de pesquisa, a coerência teórico-metodológica dos artigos e os resultados com a metodologia clínico-qualitativa e analisar descritivamente os resultados destas pesquisas produzidas para a construção do conhecimento na área.

 

PERCURSO METODOLÓGICO

Para o alcance dos objetivos deste estudo, optamos pelo método da revisão integrativa, que possibilita uma sumarização das pesquisas com temas afins, fenômenos vinculados aos cuidados à saúde, obtendo-se conclusões a partir de um tema de interesse(9).

A revisão integrativa exige minuciosa avaliação, promovendo rigor necessário aos trabalhos de caráter científico, tendo grande potencial informativo sobre pesquisas, além de recolher, definir e revisar evidências sobre a aplicação prática das ciências(10-11).

A revisão integrativa compreende algumas etapas a serem seguidas em sua realização. Neste estudo seguiremos as seguintes: seleção da temática, seleção da amostra, busca da literatura, análise dos dados, resultados e revisão integrada dos artigos(12).

O critério de inclusão e exclusão, para a seleção das pesquisas científicas da amostra foram aqueles de publicação em periódicos nacionais e internacionais, direcionado apenas, aos que utilizaram a pesquisa clínico-qualitativa em sua metodologia, produzida entre os anos de 2000 a 2010. Foram identificados dentro desta classificação 55 artigos, no entanto após a leitura dos textos completos, apenas 33 foram selecionados para a análise, pois os demais não continham a utilização do método clínico-qualitativo explicito em sua metodologia ou não o descreviam como tal. Desta forma a amostra foi formada por 33 artigos descritos como o método pesquisado nas diversas áreas da saúde. 

O levantamento do material bibliográfico foi realizado pela internet, atualmente a principal ferramenta para busca de artigos, auxiliando no desenvolvimento de pesquisa e na divulgação do conhecimento, responsável pela recuperação de grande quantidade das informações publicadas(13). Assim utilizamos as bases de dados Cinahl,  PubMed, e as bibliotecas virtuais Bireme e SciELO para nossa busca.

O agrupamento das palavras-chave durante a pesquisa nas bases de dados, foi utilizado de forma concomitante, sendo elas: pesquisa qualitativa, método clínico-qualitativo, metodologia clínico-qualitativa.

Neste estudo não utilizamos descritores e sim palavras-chave, pois após a busca dos descritores no DeCS/MeSH não encontramos descrições necessárias que apontassem a pesquisa clínica-qualitativa.

Por tratar-se de uma revisão bibliográfica, o método de busca se ampliaria para a amostra do estudo. Como o nosso interesse era analisar toda a publicação realizada com a utilização do método em artigos de produção nacional, nos últimos 10 anos, utilizamos as palavras-chave com maior probabilidade de aparecerem nos artigos de interesse.

É importante ressaltar neste trabalho, de forma a demonstrar os meios utilizados para alcance das referências, a diferença entre palavra-chave e descritor. A primeira não obedece a nenhuma estrutura, é aleatória e retirada de textos de linguagem livre, podendo ser em palavras ou frases. Para uma palavra-chave tornar-se um descritor, tem que passar por um rígido controle de sinônimos, significados e importância na árvore de um determinado assunto.

Os descritores são organizados em estruturas hierárquicas dentro da árvore morfológica, são trilingues facilitando a pesquisa e a posterior recuperação do artigo. Por isso, são de fundamental importância na consulta ao DeCS/MeSH e que sejam colocados os termos que melhor se ajustem ao assunto de pesquisa.

Assim conseguimos o levantamento dos mencionados artigos. Nesta busca, a primeira leitura exploratória se deu, partindo dos resumos feitos pelos autores. Estes apresentaram poucas descrições para o estudo e ao citarem a metodologia, não a classificavam como método clínico-qualitativo, mas apenas como pesquisa qualitativa.

Desenvolvemos uma planilha no Excel com os dados coletados, onde os artigos foram organizados, podendo assim situar o nome, profissão e titulação dos autores, periódico de publicação, população estudada, número de sujeitos da amostra, tipo de técnica e instrumentos de coleta de dados e análise dos dados e ano de publicação. Esta planilha foi ordenada de acordo com o ano de publicação dos artigos.

A partir desta organização procedemos a análise estatística descritiva dos dados e conteúdos dos artigos selecionados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Inicialmente nos atentamos à apresentação dos resumos dos trabalhos, sendo que a maior preocupação dos autores foi demonstrar parte do conteúdo do texto abordado na introdução e itens dos resultados, deixando a desejar quanto à natureza da pesquisa realizada, as conclusões e novos direcionamentos. O resumo é de suma importância para os artigos, pois introduz o leitor ao texto, como um convite a leitura do artigo na íntegra. Este nada mais é que uma síntese das idéias de um texto, demonstrando a progressão e a articulação delas na formação da pesquisa. Ao não cumprir-se este fundamento, os autores comprometem futuras buscas do texto na íntegra, que possibilitaria a possíveis citações destes artigos em outros trabalhos.

Encontramos parte dos artigos durante a busca partindo da Bireme, onde oito artigos nos remetiam aos textos completos indexados na PubMed quatro e Cinahal dois. A maior parte dos artigos encontrados foi utilizando a biblioteca eletrônica SciELO (19).

O Quadro 1 ilustra a produção analisada, assim como o periódico e ano de publicação:

quadro1

Nesta busca observamos que o número de publicações em uso do método clínico-qualitativo vem aumentando, apresentando antes de 2005, 12% do total das publicações analisadas, após este período 88%. Fato que tem relação à solidificação e disseminação do método, considerando a data de seu surgimento no meio acadêmico. Considerando o ano de publicação, apresentou dois artigos publicados em 2002; dois artigos no biênio 2003/2004, cinco artigos no ano de 2005. Nos anos seguintes sua representatividade foi de sete artigos no ano de 2006, seis no ano de 2007, três em 2008, oito em 2009 e até o momento dois artigos no ano de 2010.

A produção destes artigos encontra-se voltada ao meio acadêmico, principalmente, vinculadas aos programas de Pós-graduação, hoje sendo um segmento já consolidado na educação brasileira, contribuindo para o desenvolvimento científico do país(14).

Ao verificarmos os periódicos de publicação dos artigos, não houve uma periodicidade estabelecida. São diversas as revistas indexadas nas bases que publicaram estudos com a abordagem procurada, predominando em periódicos destinados a área cognitiva, de saúde e psicologia.

As pesquisas foram realizadas em estados de todo o país e a maior concentração ficou na Região Sudeste, destacando-se a cidade de Campinas, onde a significância demonstra 73% das publicações, seguida da Região Sul e Centro Oeste com 18%. Os outros 9% dos estudos não identificaram onde foram realizadas as pesquisas. Tal representação está relacionada ao nascimento do método e a realização, neste município, das reuniões científicas do próprio Laboratório de Pesquisas Clínico-Qualitativas, no qual pesquisadores desenvolvem trabalhos científicos nesta linha. Porém observamos que seu conhecimento tem se difundido por outros estados como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Santa Catarina.

Quanto ao local de realização das pesquisas, estas aconteceram em clínicas e ambulatórios, sendo o último predominante, nas referidas regiões.  A ocorrência das pesquisas nestes locais pode ser explicada devido à população ser mais homogênea, geralmente, agregando especialidades médicas, onde o pesquisador pode utilizar de seu conhecimento comum, em um setting natural para ele, e seu objeto de estudo, um dos principais pressupostos do método clínico-qualitativo.

Observamos que a categoria ou área de atuação de profissionais da saúde que mais se utilizou do método foi predominantemente a médica (30%) em suas diversas especialidades, dentre elas: psiquiatria (3%), nefrologia (9%), oftalmologia (3%), dermatologia (3%), endocrinologia (9%) e oncologia (3%), seguida de enfermeiros (18%), com estudos voltados a sua área de especialização ou de interesse. Os fonoaudiólogos representam 9% dos artigos voltados à publicação de estudos cognitivos.

Na área de ciências humanas é marcante a autoria de profissionais da classe da psicologia (30%), fato este que parece estar ligado a dois fatores distintos: com a característica do método, em seguir os conceitos básicos da psicanálise em seus instrumentos auxiliares de pesquisa, assim como usa este referencial para a análise e discussão dos resultados(5), sendo a psicanálise uma prática desta área profissional. Outro fator é de que a representação social da imagem profissional está diretamente ligada por meio de um conjunto de conceitos, afirmações, explicações e é reproduzida pela ideologia originada da prática inerente a cada profissão(15).

Somente um artigo foi localizado na área de educação, sendo o autor mestre em educação física.

Os passos metodológicos são demonstrados explicitamente em 57% dos artigos. O restante aponta apenas os passos da metodologia mais marcantes para a execução dos estudos (43%). Como nesta pesquisa o foco de interesse era também analisar esse quesito, foi necessária a leitura exaustiva para a compreensão do caminho trilhado pelos autores na construção de seus trabalhos.

Os objetivos foram apresentados de forma clara, pelos autores, em 73% dos trabalhos, possibilitando maior assimilação do leitor, enquanto 27% não relatam os objetivos do estudo ou os deixam implícitos no corpo dos artigos. O objetivo é a apresentação do que se pretende alcançar com a pesquisa e constitui a ação proposta para responder a questão do estudo. Ele define a formalidade a se seguir na pesquisa qualitativa, quem será estudado, o conteúdo deste estudo, o número de pessoas e qual o método é mais apropriado para esta análise, sendo fundamental para a compreensão do artigo publicado(16).

A omissão ou não explicitação dos objetivos de pesquisa podem denotar a insuficiência de cuidados na organização dos autores quanto ao encaminhamento da mesma e, sobretudo para o que fundamentalmente se destina o estudo, além de, suscitar confusões aos leitores.

Os pressupostos de pesquisa não foram explicitados em 73% dos artigos, sendo que 27% estavam implícitos nos objetivos ou no decorrer da introdução. Este resultado nos remete a outros estudos, onde podemos supor que a ausência das hipóteses ou pressupostos está voltada ao fato da pesquisa qualitativa não seguir um único modelo ou padrão, estuda o ser social, fundamentada na compreensão da realidade e para isso flexibilidade é essencial(17).

Segundo estudo realizado sobre a omissão das hipóteses em pesquisa verificou-se que a ausência de hipóteses formais faz produções científicas vulneráveis, se afastando do método, e utilizando do senso comum como resposta para a sua motivação(16) “geralmente naqueles estudos em que o objetivo é o de descrever determinado fenômeno ou as características de um grupo, as hipóteses não são enunciadas formalmente(16)”.

A somatória das amostras (N) apresentou 340 sujeitos estudados, sendo 10% dependentes químicos, 6% renais crônicos, 6% de mulheres com acometimentos ginecológicos, 6% portadores de patologias oftálmicas, 4% pacientes obesos, 1% pacientes portadores de câncer, 1% portadores de HIV, 1% portadores de lesões de pele. Os estudos abordaram a família em 3% assim como 1% de profissionais.

Em 54% dos artigos, os autores não fazem qualquer menção aos critérios utilizados ou aos motivos na inclusão e exclusão dos sujeitos, o que deixa dúvida da representatividade destes sujeitos para os estudos. Percebe-se que apesar da utilização de técnicas como intencionalidade e saturação na conformação de amostras em estudos qualitativos é importante que haja um balizamento mínimo para que, segundo a intenção do pesquisador esta amostragem seja suficientemente homogênea ou heterogênea, dependendo do problema de pesquisa, para a obtenção de dados ricos e pertinentes à sua análise(18).

A submissão e aprovação dos projetos de pesquisa por um Comitê de Ética não foi citado em 60% dos trabalhos. Sabendo-se que desde o ano de 1996 foi regulamentada a Resolução 196/96, determinando que toda pesquisa envolvendo seres humanos deva ser submetida a avaliação ética e que atualmente diversos periódicos científicos exigem dos autores, no momento da submissão do artigo, a aprovação do projeto de estudo por um Comitê de Ética em pesquisa e sua menção no corpo da trabalho,  este fato nos causou surpresa.

A essência da metodologia clínico-qualitativa foi compreendida pelos autores onde ao descreverem o trabalho, demonstraram sua motivação traduzida em sinônimos como percepção, relação, experiência, representação e compreensão (77%), onde a busca por estes significados foi demonstrada nos estudos. O outro grupo (23%) busca demonstrar fenômenos expressos numericamente e práticas vivenciadas por si ou pela população estudada.

Na área assistencial 6% dos artigos abordam a saúde da mulher, 6% área social, 54% hospitalar. O restante 34% dos trabalhos são dirigidos a dependência, química, sociedade e comunidade.

Dentre os instrumentos mais utilizados para a coleta de dados, está a entrevista semi dirigida (48%), entrevista dirigida (3%), entrevista lúdica (3%) entrevista de intervenção psicológica (3%). A grande utilização da entrevista semi dirigida nos estudos analisados, se associa ao formato de tal técnica, sendo a mais apropriada aos estudos qualitativos, pois deixa que o pesquisador e o pesquisado dêem direção aos temas, possibilitando ao entrevistador retomar o comando do caminhar da entrevista(2) . As questões são elaboradas dentro do campo de interesse do autor, porém deixando as idéias do paciente surgirem ordenadamente, acompanhando a maneira que o fenômeno se revela em sua forma de compreensão para o mesmo.

Em relação a técnica de análise dos dados, 45% dos artigos avaliados empregaram a análise de conteúdo, enquanto 9% dos autores não apontaram o método ou a ferramenta utilizada para análise. Ao lermos estes trabalhos podemos dizer que a ausência no balizamento da análise pode gerar ou ocultar vieses de pesquisa. Na pesquisa qualitativa os passos metodológicos adotados devem ser explicitados de forma a conferir validade ao estudo.

A técnica de análise de conteúdo pode recuperar nas falas do ator toda sua expressão psicológica, avaliando o verbal, o não verbal e toda representação captadas pelo pesquisador. É um conjunto de técnicas de pesquisa que procura o sentido do documento, é a busca pelo significado exato das mensagens(19), fornece técnicas precisas e objetivas suficientes para garantir a descoberta do real significado(19-20). “É uma simples ferramenta capaz de retirar o véu de linguagem que encobre o que realmente se pretende descobrir: a significação profunda que preexiste a pergunta. Assim manifesta-se essa crença de que o dito equivale a uma informação com valor de verdade”(20).

Observamos que 100% dos trabalhos apresentaram conclusões coerentes e vinculadas aos resultados e temática desenvolvida. Estas são demonstradas de forma clara, o que facilita a melhor compreensão dos leitores. O resultado final das análises, responde as questões levantadas no trabalho e são interpretadas segundo o referencial e ponto de vista dos autores.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entre os artigos pesquisados para realização deste trabalho verificamos que os mesmos são, no geral, recentes demonstrando crescimento contínuo nos últimos anos e uma continua busca da consolidação do método de pesquisa clinico qualitativa. Porém observamos que alguns autores têm desconsiderado passos importantes e necessários a confiabilidade no uso da técnica, fortalecimento dos resultados e discussões dos trabalhos científicos. Frente a esse fato, sugerimos que os pesquisadores sejam realmente motivados pelo desejo da resposta a sua inquietação sendo fiéis a este, priorizando os pressupostos e as hipóteses, pois estes irão garantir o rigor científico.

Para tanto os pesquisadores devem identificar de forma mais clara e pontual os objetivos propostos durante o decorrer da pesquisa.

Tratando-se de pesquisas científicas, é necessário mostrar nitidez ao demonstrar ao leitor os passos metodológicos percorridos pelo pesquisador para sua busca em compreender as significações apresentadas pelos seus sujeitos de pesquisa. A força maior do método qualitativo está na validade, na construção de instrumentos coerentes e pertinentes de obtenção dos dados, desta forma, consideramos que quanto maior  a transparência dos passos utilizados na confecção do trabalho, maior será o grau de confiabilidade conferida aos seus resultados, visto que os critérios de replicabilidade dificilmente se aplicam à pesquisas que utilizam métodos qualitativos, pelo caráter polissêmico dos sujeitos.

O referencial teórico para a análise dos trabalhos deve ser citado de forma a sustentar a prática, e auxiliar o leitor na definição dos conceitos empregados, assim como a corrente filosófica adotada pelo autor.

Essas questões são importantes para que pesquisas futuras que utilizem o  método de pesquisa clinico-qualitativa cumpra a sua finalidade de fornecer a base de conhecimentos e continue a expandir-se no meio científico.

 

REFERÊNCIAS

1. Morse JM, Field PA. Qualitative research methods for health professionals. London, Sage Publication, 1995.

2. Turato ER. Tratado da metodologia da pesquisa clínico-qualitativa:construção teórico-epistemológica, discussão comparada e aplicação nas áreas da saúde e humanas. Petrópolis: Vozes; 2010.

3. Godoy AS. Introdução a pesquisa qualitativa e suas possibilidades. RAE-eletrônica. [Internet]. 1995 [cited 2008 oct 10];32(2):57-63. Available from: http://www.rae.com.br/artigos/488.pdf

4. Bogdan R, Biklen S. Características da investigação qualitativa. In: Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora; 1994.

5. Turato, ER. Introdução à metodologia da pesquisa clínico-qualitativa: definição e principais características. Rev Port Psicossomática. 2000;2(1):93-108.

6. Triviños, ANS. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas; 1987.

7. Pope C, Mays N. Reaching the parts other methods cannot reach: an introduction to qualitative methods in health and health services research. BMJ. 1995;311(6996):42-51.

8. Turato ER. Métodos qualitativos e quantitativos na área de saúde: definições, diferenças e seus objetos de pesquisa. Rev Saúde Pública. 2005;39(3):507-14.

9. Mattje GD, Turato ER. Experiências de vida com Lupus Eritematoso Sistêmico como relatadas na perspectiva de pacientes ambulatoriais no Brasil: um estudo clínico-qualitativo. Rev. Latino-Am. Enfermagem 2006;14(4):475-82.

10. Whittemore R, Katheleel K. The integrative review: update methodology. J Adv Nurs. 2005;52(5):546-53.

11. Mendes KDS, Silveira PRCC, Galvão CM. Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem. Texto contexto - enferm. [Internet]. 2008 [cited 2010 jun 17]; 17(4). Available from: http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=507765&indexSearch=ID.

12. Silva GRF, Macedo KNF, Rebouças CBA, Souza AMA. Interview as a technique of qualitative research - a literature review. Online Brazilian Journal of Nursing [Internet]. 2006 [cited 2008 nov 25];5(2). Available from: http://www.uff.br/objnursing/index.php/nursing/article/view/382.

13. Évora YDM. As possibilidades de uso da internet na pesquisa em enfermagem. Rev. eletrônica enferm. 2004;06(03):395-99.

14. Almeida MCP et al. A pós-graduação na escola de enfermagem de Ribeirão Preto - USP: evolução histórica e sua contribuição para o desenvolvimento da enfermagem. Rev. Latino-am Enfermagem [Internet]. 2002 [cited 2008 oct 12];10(3):276-7. Available from: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v10n3/13338.pdf.

15. Silva GRF, Macedo KNF, Rebouças CBA, Souza AMA. Interview as a technique of qualitative research - a literature review. Online Brazilian Journal of Nursing [Internet]. 2006 [cited 2008 nov 25];5(2). Available from: http://www.uff.br/objnursing/index.php/nursing/article/view/382.

16. Turato ER, Machado AC, Silva DF, Carvalho GM, Verderosi NR, Souza TF. Publicações de pesquisas de campo em saúde: omissão de hipóteses e apresentação de conclusões do senso comum. São Paulo Med J. [Internet]. 2006 [cited 2008 dec 12];124(4):228-33 Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-31802006000400011&script=sci_abstract&tlng=pt.

17. Fontanella BJB, Mello GA, Demarzo MMPiva, Turato ER. Dependence syndrome perception by patients undergoing treatment. J. bras. psiquiatr. [Internet]. 2008 [cited 2010 Aug 01]; 57(3): 196-202. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0047-20852008000300007&lng=en.

18. Fontanella BJB, Ricas J, Turato ER. Amostragem por saturação em pesquisas qualitativas em saúde: contribuições teóricas. Cad. Saúde Pública 2008;24(1):17-27.

19. Campos CJG, Turato ER. Content analysis in studies using the clinical-qualitative method: application and perspectives. Rev Latino-am Enfermagem 2009;17(2):259-64.

20. Rocha D, Deusdará B. Análise de conteúdo e analise de discurso: aproximações e afastamentos na (re)construção de uma trajetória. Alea: Estudos Neolatinos 2005;7(2):305-22.

 

 

Artigo recebido em 26.08.2009

Aprovado para publicação em 31.08.2010

Artigo publicado em 31.12.2010

Licença Creative Commons A Revista Eletrônica de Enfermagem foi licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Unported.

Faculdade de Enfermagem / Universidade Federal de Goiás - Rua 227, Qd. 68, Setor Leste Universitário. Goiânia, Goiás, Brasil. CEP: 74605-080.
Telefone: +55 62 3209-6280 Ramal: 218 - E-mail: revfen@gmail.com