Artigo de Revisão

 

Oliveira CJ, Pereira CAR, Pontes JNC, Fialho AVM, Moreira TMM. Análise da produção científica na área da saúde sobre qualidade de vida no Brasil entre 2000 e 2005: um estudo bibliográfico. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2007;9(2):496-05. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v9/n2/v9n2a16.htm

 

Análise da produção científica na área da saúde sobre qualidade de vida no Brasil entre 2000 e 2005: um estudo bibliográfico1

 

Analysis of the scientific production in the health's area about quality of life in Brazil between 2000 and 2005: a bibliographical study

 

Análisis de la producción científica en el área de la salud sobre calidad de vida en Brasil entre 2000 y 2005: un estudio bibliográfico

 

 

Célida Juliana de OliveiraI, Carolina de Araújo Rodrigues PereiraII, Julieta Nársia Chaves PontesIII, Ana Virgínia de Melo FialhoIV, Thereza Maria Magalhães MoreiraV

I Enfermeira; Especialista em Enfermagem Clínica; Discente do Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde da UECE; Bolsista FUNCAP/CE; Contato: celidajuliana@yahoo.com.br

II Enfermeira; Especialista em Unidade de Terapia Intensiva; Discente do Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde – UECE. Contato: carolinaarp@oi.com.br

III Enfermeira; Especialista em Enfermagem do Trabalho; Discente do Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde – UECE. Contato: junarsia@hotmail.com

IV Enfermeira; Doutora em Enfermagem; Docente da UECE. Contato: anavirginiamf@terra.com.br

V Enfermeira; Doutora em Enfermagem; Docente da disciplina Pesquisa em Saúde e Metodologia Quantitativa no Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde – UECE. Contato: tmmmoreira@yahoo.com

 

 


RESUMO

A busca por temas relevantes e atuais é um desafio a ser superado na realização de pesquisas científicas. Por ser um assunto complexo e que sofre interferências de vários fatores, a qualidade de vida (QV) torna-se tema de grande interesse para a área da saúde. Objetivamos analisar a produção científica na área da saúde sobre “qualidade de vida”, entre 2000 e 2005. A pesquisa bibliográfica se deu com periódicos brasileiros QUALIS/CAPES nacionais “A” ou internacionais “C” ou “B”, disponíveis na Scientific Electronic Library Online (SCIELO). Foram analisados 82 artigos, sendo 26 (32%) publicados em 2005. As áreas da saúde que mais pesquisaram a temática foram a Medicina (31 artigos) e a Enfermagem (23 artigos). A abordagem metodológica quantitativa foi utilizada em 51 artigos (62%) e mais da metade do total (45 artigos) não fez referência a um conceito de qualidade de vida, relacionando-a com doenças crônicas. Sobre a utilização de instrumentos avaliativos da QV, destacaram-se o Short Form Health Survey e outros próprios da Organização Mundial da Saúde. Apesar de amplamente difundida, a qualidade de vida ainda é um termo complexo, pelas características subjetivas e dinâmicas, e pela influência sofrida por fatores intrínsecos e extrínsecos ao indivíduo, requisitando maiores estudos.

Palavras chave: Qualidade de vida; Enfermagem; Publicações de divulgação científica.


ABSTRACT

The search for important current themes is a challenge to be overcame in the  scientific researches accomplishment. For being a complex subject and it suffers interferences of several factors, the quality of life (QoL) becomes a great interest theme for the health’s area.  We aimed to analyze the scientific production in the health area about "quality of life” between 2000 and 2005. The bibliographical research felt with national brazilian newspapers QUALIS/CAPES "A" or international "C" or "B", available in Scientific Electronic Library Online (SCIELO). 82 articles were analyzed, and 26 (32%) were published in 2005. The more extensively researched areas of the health had been the Medicine (31 articles) and Nursing (23 articles). The quantitative methodological approach was used in 51 articles (62%) and more of the half of the total (45 articles) didn’t make to a quality of life concept  relating with chronic diseases. About the use of instruments for QoL avaliation, they had deserved prominence "Short Form Health Survey" and others of the World Organization of Health. Although widely spread out, the quality of life continues a complex term, for the subjective and dynamic characteristics, and for the suffered influence for intrinsic and extrinsic factors to the individual, requesting larger studies.

Key words: Quality of life; Nursing; Publications for science release.


RESUMEN

La búsqueda de temas importantes y actual es un desafío para ser superado en el logro de investigaciones científicas. Por ser un asunto complejo y que sufre interferencias de varios factores, la calidad de vida (CV) se vuelve miedos de gran interés por el área de la salud.  Nosotros objectivamos analizar la producción científica en el área de la salud sobre "calidad de vida" entre 2000 y 2005. La investigación bibliográfica se sentía con los periódicos brasileños QUALIS/CAPES nacional "A" o internacional “C” o "B", disponible en Scientific Electronic Library Online (SCIELO). Se habían analizado 82 artículos, siendo 26 (32%) publicó en 2005. Las áreas de la salud más extensivamente investigadas habían sido la Medicina (31 artículos) y Enfermería (23 artículos). El acercamiento metodológico cuantitativo se usó en 51 artículos (62%) y más de la mitad del total (45 artículos) no se hizo a un concepto de calidad de vida, mientras relacionando con las enfermedades crónicas. Sobre el uso de instrumentos para el avaliación de CV, habían merecido la prominencia "Short Form Health Survey" y otros de la Organización Mundial de Salud. Aunque ampliamente el cobertor fuera, la calidad de vida continúa un término complejo, por las características subjetivas y dinámicas, y pela influencia sufrida por los factores intrínsecos y extrínsecos al individuo, pidiendo los estudios más grandes. 

Palabras clave: Calidad de vida; Enfermería; Publicaciones de divulgación científica.


 

 

INTRODUÇÃO

A busca por temas relevantes e atuais torna-se um dos maiores desafios a serem superados na realização de pesquisas científicas. Assim como é notável o avanço dos estudos em saúde, nota-se um interesse crescente sobre o tema “qualidade de vida” (QV), que surge como tema imprescindível de pesquisas desta área, já que seus resultados tendem a contribuir para avaliar a relação custo x benefício do cuidado prestado, auxiliar na definição de tratamentos(1), além de orientar o acompanhamento ao paciente.

Qualidade de vida pode ser definida como uma condição alcançada por meio da mobilização de diferentes dimensões da pessoa e do meio, que se compensam e harmonizam entre si, na nossa própria interpretação de vida, sendo que o estilo de vida seria uma dessas dimensões a serem avaliadas entre os determinantes da qualidade de vida (2).

Já o Grupo de Estudos sobre Qualidade de Vida da Organização Mundial da Saúde (WHOQOL Group) define qualidade de vida como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações” (3).

Entretanto, por ser um assunto complexo e que sofre interferências de vários fatores pertinentes ao indivíduo e seu meio, há um consenso universal que o conceito de qualidade de vida apresenta diferentes interpretações. A partir daí, cabe ao pesquisador buscar o que já existe sobre o tema e aplicar, ou então, “criar” seu próprio conceito, a partir das várias interpretações e de sua própria experiência.

Assim como a maioria dos conceitos pertinentes à saúde tem alto grau de abstração, são complexos, têm várias dimensões, são dinâmicos e continuamente incorporam novos conhecimentos, experiências, percepções e dados(4), nos despertou o interesse de conhecer as tendências de algumas das publicações científicas dos profissionais da saúde sobre o tema qualidade de vida.

Neste âmbito, somos auxiliados pela evolução do conhecimento: Publicações científicas são fundamentais no processo de produção do conhecimento científico, pois, pouco adiantaria todo o esforço em pesquisar soluções para os problemas e inquietações encontrados na saúde, se estas soluções não puderem ser compartilhadas e legitimizadas no meio científico. A produção do conhecimento pode ser entendida como um processo dinâmico e refinado, destinado a responder questões do cotidiano(5). Com a tentativa de resolução de tais questões da forma mais imediata possível, advém o beneficio do retorno deste conhecimento à sociedade.

Devido aos aspectos anunciados, vê-se a importância de se investigar e descrever quais os temas vêm sendo pesquisados e debatidos sobre qualidade de vida por profissionais da área da saúde, documentados em periódicos de indexação nacional e internacional, contribuindo dessa forma para dimensionar a prática do trabalho desses profissionais.

Sendo assim, objetivamos analisar a produção científica na área da saúde acerca da temática “qualidade de vida”, em periódicos brasileiros indexados na base de dados da Scientific Electronic Library Online (SCIELO Brasil), no período de 2000 a 2005.

Como objetivos específicos, buscamos caracterizar os artigos quanto ao ano de publicação e natureza do estudo; identificar a área profissional da saúde com predomínio de estudos sobre “qualidade de vida” desde o ano 2000; verificar a utilização do conceito de “qualidade de vida” e instrumentos avaliativos desta pelos autores e identificar as principais nuanças referentes à QV abordadas nos artigos.

 

ABORDAGEM METODOLÓGICA

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica que compreende etapas, como a formulação do problema e escolha do tema a ser investigado, elaboração do plano de trabalho, formulação dos objetivos, identificação, localização e obtenção de fontes que sejam capazes de fornecer os dados adequados à pesquisa desejada, leitura do material obtido, análise e interpretação lógica dos dados e redação final do texto(6), com abordagem quantitativa.

Os periódicos foram selecionados dentre aqueles que estavam disponíveis na base de dados SCIELO e que fossem periódicos classificados no sistema QUALIS/CAPES como “A” nacional, “C” internacional ou “B” internacional, resultando em 15 periódicos nacionais diferentes.

As revistas científicas assumem uma importante função na divulgação, sendo que o Brasil exerce grande influência nesse processo, tanto pelo crescente número de produções, mas também por ser responsável pelo maior número de revistas na área da saúde editadas na América Latina(7).

Em relação aos artigos publicados sobre o tema em questão encontrados nos periódicos descritos acima, os mesmos foram selecionados a partir dos critérios a seguir: ser artigo escrito por, pelo menos um, profissional da área da saúde; estar publicado em um dos periódicos encontrados para o estudo; estar o artigo disponível na íntegra no banco de dados on line; apresentar o descritor “qualidade de vida”, “life quality”, “quality of life” ou “calidad de vida”; estar redigido nas línguas portuguesa, inglesa ou espanhola; ter sido escrito durante o período de 2000 a 2005.

Foram encontrados 225 artigos referentes à temática, sendo que 143 deles não se enquadraram nos critérios de inclusão delimitados anteriormente. Foram selecionados 82 artigos dos diferentes periódicos.

Após a confirmação de que o artigo entraria no estudo, houve a impressão de cada um, para poder facilitar sua leitura. A análise ocorreu no período de abril e maio de 2006 e se deu pela leitura do artigo para o preenchimento do roteiro de coleta de dados, que buscava investigar o ano de publicação, área profissional, natureza dos estudos, uso do conceito de qualidade de vida, utilização de instrumentos na avaliação da qualidade de vida e a temática abordada pelos artigos.

Quanto aos aspectos éticos, por se tratar de uma pesquisa bibliográfica, o presente estudo não necessitou passar por avaliação de um comitê de ética em pesquisa. Também não houve necessidade de solicitar permissão aos autores, visto que não houve prejuízo aos princípios da bioética em pesquisas e os mesmos, por serem publicações eletrônicas disponíveis nos bancos de dados on line da rede universal de dados (internet), são de livre acesso a todos, facilitando a difusão da produção dos profissionais de saúde.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram encontrados os seguintes periódicos: Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia; Cadernos de Saúde Pública; Ciências e Saúde Coletiva; Jornal Brasileiro de Pneumologia; Jornal Brasileiro de Urologia; Jornal de Pediatria; Jornal de Pneumologia; Psicologia USP; Revista da Associação Médica Brasileira; Revista Brasileira de Epidemiologia; Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia; Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia; Revista Brasileira de Psiquiatria; Revista Latino-Americana de Enfermagem; Revista de Saúde Pública. Os mesmos foram selecionados devido ao seu impacto nacional e internacional na literatura pertinente à saúde, visto que são exemplares de periódicos de alto alcance em várias áreas específicas da saúde.

A partir da identificação dos periódicos, iniciamos a busca pelos artigos, o que resultou em 82 artigos referentes à qualidade de vida.

Em relação ao ano de publicação 14 artigos foram publicados em 2000, quatro artigos em 2001, seis artigos foram publicados em 2002, 13 artigos em 2003, 19 artigos em 2004 e 26 artigos foram publicados em 2005. Nota-se que vem ocorrendo uma ligeira elevação do número de artigos publicados sobre “qualidade de vida” ano após ano, com exceção do período de 2000 a 2001, onde houve decréscimo (Tabela 1).

tabela1

Pode-se associar o pico de publicações no ano 2000 à ação do Grupo de Estudos em Qualidade de Vida da Organização Mundial de Saúde (OMS), que intensificou a divulgação da importância do tema para os profissionais da saúde(3). Já nos anos seguintes a 2001, o aumento do número de artigos escritos sobre qualidade de vida ocorreu, possivelmente, em decorrência à crescente importância que o tema vem ganhando na saúde.

Apesar de ser um tema discutido há muito tempo por diversos autores, foi somente com a mudança de paradigma da saúde, ocorrido a partir da segunda metade do Século XX, que se introduziu a qualidade de vida aliada às concepções de prevenção e promoção da saúde(8).

Em relação à área profissional que vem pesquisando o tema, a tabela 1 mostra que as áreas da saúde que mais publicaram sobre a temática foram a Medicina e a Enfermagem, com 31 e 23 artigos, respectivamente. Em se tratando da Medicina, tal fato pode ser explicado dado o grande número de especialidades que existem dentro desta área e também, porque o presente estudo analisou nove periódicos específicos da Medicina, dentre os 15 periódicos selecionados.

Já em relação à Enfermagem, nota-se um grande número de artigos, pois tal profissão, lidando no seu cotidiano com as ações de promoção e proteção da saúde encontra-se muito próxima dos aspectos relevantes para a promoção da qualidade de vida para seus clientes(8).

Foram observadas muitas associações entre áreas profissionais, mostrando a importância da multidisciplinaridade, que se apresenta como característica principal da qualidade de vida. Diante da complexidade das ações na saúde, não se permite abordagens fragmentadas; para proporcionar melhorias na qualidade de vida da população deve-se buscar ações coletivas, intersetoriais e transdisciplinares(9).

No ano 2000, as associações de áreas profissionais foram entre Saúde Coletiva e Psicologia (01 artigo) e Psicologia e Medicina (01 artigo). Já em 2004, as associações foram entre Fisiopatologia, Biologia e Medicina (01 artigo), Enfermagem e Medicina (01 artigo) e Fisioterapia e Terapia Ocupacional (01 artigo). No ano de 2005, encontramos associações entre as áreas de Medicina e Epidemiologia (01 artigo), Medicina e Fonoaudiologia (01 artigo), Medicina e Enfermagem (01 artigo), Enfermagem, Fisioterapia e Medicina (01 artigo) e Medicina, Psicologia e Fisioterapia (01 artigo).

A qualidade de vida apresenta um conceito multidimensional, proveniente de duas vertentes: a filosófica (onde o conceito de QV se mescla com os conceitos de bem-estar, felicidade, satisfação e preferências pessoais) e a vertente econômica (onde para se alcançar uma boa QV, o indivíduo deve ter suas necessidades básicas atendidas, sendo estas, responsabilidades extrínsecas ao indivíduo)(10).

Entendemos que a vertente filosófica pode ser melhor abordada por estudos de natureza qualitativa, enquanto a vertente econômica pode ser bem abordada por estudos quantitativos. Como grande parte dos estudos encontrados pretendeu avaliar a QV de grandes grupos ou populações do ponto de vista sócio-econômico e, instrumentos de avaliação da QV quantitativos foram utilizados, a abordagem metodológica quantitativa foi a mais utilizada pelos autores (51 artigos, representando 62%). Já 29 artigos tiveram uma abordagem qualitativa (36%) e dois artigos denominaram-se quali-quantitativos (representando 2% do total).

Já em relação ao uso do conceito de qualidade de vida, mais da metade dos artigos analisados (45 artigos) não fizeram referência ao conceito de qualidade de vida, apesar de apresentarem o termo “qualidade de vida” como descritor. Os artigos que traziam conceitos se dividiram em:

  • Artigos que utilizaram o conceito da Organização Mundial da Saúde: “a percepção do indivíduo de sua posição de vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”(3) totalizando 10 artigos;

  • Artigos que utilizaram o conceito elaborado por outros autores ou pelos próprios autores dos artigos: são conceitos baseados na literatura pertinente ao tema qualidade de vida, presentes em 23 artigos;

  • Artigos que utilizaram o conceito dos sujeitos investigados no artigo: são os conceitos que os indivíduos, grupos ou comunidades atribuíram para qualidade de vida, nos artigos que tinham como objetivo descrever o que é qualidade de vida na ótica dos sujeitos pesquisados, somando quatro artigos.

Alguns autores pontuam que a busca pela compreensão dos conceitos é particularmente importante para a construção do corpo de conhecimento da saúde(4). Toda atividade de investigação científica lida com conceitos e, ao se desenvolver uma pesquisa o pesquisador deve operacionalizar cuidadosamente os conceitos de interesse, para que os resultados de sua pesquisa contribuam para o conhecimento.

No que se refere à qualidade de vida, existe a dificuldade de compreensão de seu conceito, pois cada indivíduo ou grupamento humano procura interpreta-lo de acordo com seus valores, princípios e interesses(2), resultando na diversidade e complexidade de interpretações do conceito de qualidade de vida. Sendo assim, o termo QV admite significados diferentes, em lugares e ocasiões diversas, sendo submetido a muitos pontos de vista, variando de acordo com a cultura observada, a época vivida, o local e até mesmo entre as diferentes classes sociais(11).

Quando foi investigado o uso de instrumentos (questionários, formulários, entre outros) de avaliação da qualidade de vida pelos autores dos artigos, obteve-se:

Os instrumentos mais utilizados foram o Short Form Health Survey (SF-36) e os instrumentos próprios da Organização Mundial da Saúde, desenvolvidos pelo Grupo de Estudos em QV (WHOQOL), que são o World Health Organization Quality of Life - 100 e o World Health Organization Quality of Life - Bref. Apesar de serem o mesmo instrumento, o WHOQOL-Bref contém menos questões a serem abordadas junto ao indivíduo do que a versão ampliada. Estes instrumentos já foram traduzidos, adaptados e validados para o Brasil, proporcionando maior segurança aos pesquisadores(3).

Para aferir a qualidade de vida, a maioria dos instrumentos é constituída de questionários que compreendem um determinado número de itens, reunidos sob domínios, onde o mesmo refere-se à área do comportamento humano que se está tentando avaliar (12).

Para que um questionário seja considerado adequado e validado, deve ser confiável, reprodutível e sensível a alterações, de fácil aplicação, compreensão e feito, preferencialmente, por meio de métodos quantitativos. A seleção de um instrumento deve ser feita considerando-se inicialmente a população-alvo, a clareza dos componentes, do questionário e a doença para a qual essas medidas foram desenvolvidas(13).

Nossa pesquisa mostrou que vários tipos de instrumentos estão sendo utilizados, pois, em geral, a população à qual se destina o estudo e a doença presente nesta população é que irá determinar qual a melhor forma de se fazer esta avaliação. Verificou-se a utilização de instrumentos específicos para portadores de doenças crônicas, para portadores de HIV/AIDS, crianças, idosos, pacientes com distúrbios mentais, entre outros. Quando a população-alvo não apresentava uma doença pré-determinada ou uma única doença, os instrumentos genéricos foram utilizados pelos autores.

Ao avaliar as nuanças (tema, objetos e sujeitos) dos artigos encontrados, encontramos que muitos autores abordam a qualidade de vida relacionando-a a alguma doença, principalmente às doenças crônicas.

A OMS considera que se deveria prioritariamente medir a qualidade de vida de cinco grupos (pacientes crônicos, seus familiares e pessoal de suporte, pessoas em situações extremas, com dificuldade de comunicação e crianças)(14) e pela Tabela 2, nota-se que os estudos não têm se concentrado somente em pacientes crônicos, apesar da literatura sobre qualidade de vida ainda ser essencialmente medicalizada (visão economicista da saúde). Estudos ressaltam, ainda, dois aspectos emergentes da temática, que são a investigação da QV em indivíduos com comprometimento de sua saúde e a percepção desse indivíduo sobre qualidade de vida(14).

tabela2

Quando se procurou verificar variações dentro das áreas profissionais, viu-se que a Enfermagem foi a categoria que mais investigou a influência e/ou interferência de doenças crônicas e traumas na qualidade de vida de seus clientes. Na enfermagem, os currículos de graduação e de pós-graduação ainda concentram seu foco na atenção curativista e hospitalar(15), o que pode explicar o grande interesse pela qualidade de vida de indivíduos já doentes.

A Medicina foi a categoria que mais publicou artigos entre 2000 e 2005 sobre tradução, adaptação e/ou validação de instrumentos específicos ou genéricos. Questionários doença-específicos vêm, continuamente, despertando maior interesse entre os profissionais, por serem utilizados para medir diretamente o impacto físico, emocional e social da doença, seus tratamentos, entre outros aspectos, sobre os doentes, familiares, grupos e/ou comunidade, onde são recomendadas a validação e adaptação às condições locais de questionários produzidos em países diferentes àquele onde o instrumento será utilizado(16).

Uma das tendências da avaliação da qualidade de vida é a incorporação da avaliação das perspectivas, crenças e sentimentos dos indivíduos abordados e não somente a avaliação dos parâmetros puramente clínicos rotineiramente empregados(17), também demonstrado pelos artigos encontrados, tanto no que se refere à avaliação da QV dos indivíduos e grupos, quanto à percepção que a pessoa tem sobre o conceito de qualidade de vida.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise de artigos sobre qualidade de vida, publicados por diferentes categorias profissionais da saúde entre os anos 2000 e 2005, em periódicos de circulação nacional e internacional evidenciou que o ano em que houve maior publicação de artigos sobre o tema foi o ano de 2005, sendo que, vem ocorrendo uma elevação no número de artigos escritos a cada ano.

A análise dos estudos foi predominantemente quantitativa, demonstrando que há meios para se “quantificar” um aspecto tão subjetivo e complexo como a qualidade de vida de um indivíduo.

A Medicina foi a área que mais publicou artigos referentes à temática qualidade de vida, entre 2000 e 2005, nos periódicos selecionados para o estudo, seguida pela Enfermagem. A maioria dos autores não fez referência ao conceito de qualidade de vida; aqueles que o fizeram, basearam-se em literatura apropriada e consistente.

Já os instrumentos de avaliação da qualidade de vida mais utilizados foram os genéricos, já reconhecidos e amplamente utilizados no Brasil, tendo sua validação e adaptação bem estruturadas, apesar de alguns autores referirem o uso de questionários específicos para determinadas doenças.

A tendência temática dos artigos foi a avaliação da QV de indivíduos, grupos ou comunidades, sendo bastante relacionada com a presença de doenças crônicas, além do grande número de artigos que se propuseram a traduzir, adaptar, testar e validar instrumentos de avaliação da qualidade de vida.

Apesar de ser um tema amplamente difundido, qualidade de vida ainda é um termo bem complexo, dadas suas características subjetivas, dinâmicas e por sofrer influência de fatores intrínsecos e extrínsecos ao indivíduo. É um tema sempre atual e que tem muita aproximação com a saúde humana, devendo ser estimuladas, cada vez mais, a pesquisa e a divulgação de estudos que envolvam esta temática.

 

REFERÊNCIAS

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Artigo recebido em 06.12.06

Aprovado para publicação em 27.08.07

 

 

1 Pesquisa desenvolvida a partir de trabalho de conclusão da disciplina Pesquisa em Saúde e Metodologia Quantitativa no Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde da Universidade Estadual do Ceará – UECE

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