Artigo Original
 

Lucchese R, Barros S. A utilização do grupo operativo como método de coleta de dados em pesquisa qualitativa. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2007; 9(3):796-805. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v9/n3/v9n3a18.htm

 

A utilização do grupo operativo como método de coleta de dados em pesquisa qualitativa

 

The use of operative group as a collection of data method in qualitative research

 

La utilización del grupo operativo como método de colecta de datos en investigación cualitativa

 

 

Roselma LuccheseI, Sônia BarrosII

IProfessor Adjunto da Universidade Federal de Mato Grosso, Faculdade de Enfermagem (FAEN). Membro do Grupo de Pesquisa Núcleo de Estudos em Saúde Mental. Doutor em Enfermagem pelo Programa Interunidades de Doutoramento da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) e Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERPUSP). E-mail: roselmalucchese@hotmail.com

IIProfessor Associado da Universidade de São Paulo. Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP). Livre-docente e Doutor em Enfermagem pela EEUSP. E-mail: sobarros@usp.br 

 

 


RESUMO

A pesquisa qualitativa como opção metodológica está cada vez mais presente nos estudos de enfermagem, modalidade que abre campo para utilização da tecnologia de grupos para coleta de dados. Trabalhar com grupo requer fundamentação técnico-teórica, assim, este artigo tem o objetivo de discutir a utilização do grupo operativo (GO) como método de coleta em pesquisa qualitativa e as implicações para o pesquisador quanto ao desempenho dos papéis de coordenador e/ou observador. A opção pelo GO como método de coleta de dados disponibiliza ao pesquisador o registro do discurso oral, das diversas outras formas de comunicação e das relações no campo grupal. A técnica norteia o planejamento, operacionalização e a análise do grupo e da própria pesquisa, possibilitando ao pesquisador/coordenador ações mais assertivas quanto a condução metodológica do estudo. Consideramos que a relevância da aplicação do GO na pesquisa qualitativa em enfermagem é significativa e, cabe ao enfermeiro interessado buscar a construção deste saber/fazer, vista que sua formação não privilegia o trabalho em grupo.

Palavras chave: Processos grupais; Pesquisa qualitativa; Pesquisa em enfermagem; Pesquisador.


ABSTRACT

The qualitative research as methodological option is more and more present in the nursing studies. It is a modality that allows the use of the technology of groups to collection of data. Technical – theoretical basis is required to work with a group. Therefore, this article aims to discuss the use of the operative group (OG) as a method of collection in qualitative research and the implications to the researcher referring to the performance of the roles of coordinator and/ or observer. The option of OG as collection of data method offers to the researcher the register of oral discourse, besides others diverse ways of communication and the relationship in the group. The technique guides the planning, the functioning and the analysis of the group and of the research itself. It makes possible to the researcher/coordinator more assertive actions referring to the methodological conduction of the study. We consider that the relevance of the OG application in the qualitative research in nursing is significant and, it is up to the interested nurse to seek the construction of such know-how, since in his or her formation the teamwork is not a privilege.

Key words: Group processes; Qualitative research; Nursing research; Research personnel.


RESUMEN

La investigación cualitativa como opción metodológica está cada vez más presente en los estudios de enfermería, modalidad que permite la utilización de tecnología de grupos para colecta de datos. Trabajar con grupo requiere embasamiento técnico-teórico. Así, este artículo tiene el objetivo de discutir la utilización del grupo operativo (GO) como método de colecta de datos en investigación cualitativa y las implicaciones para el investigador con relación al desempeño de las funciones de coordinador y/ o observador. La opción por GO como método de colecta de datos ofrece al investigador el registro del discurso oral, de las diversas otras formas de comunicación y de las relaciones en el campo grupal. La técnica orienta el planeamiento, el modo del operar y el análisis del grupo y de la propia investigación. Este proceso posibilita al investigador/coordinador acciones más asertivas con relación a la conducción metodológica del estudio. Consideramos que la relevancia de la aplicación de GO en la investigación cualitativa en enfermería es significativa y, le toca al enfermero que tiene interés buscar la construcción de este saber/ hacer, ya que su formación no privilegia el trabajo en grupo.

Palabras clave: Procesos de grupo; Investigación cualitativa; Investigación en Enfermería; Investigadores.


 

 

INTRODUÇÃO

A pesquisa na modalidade qualitativa está cada vez mais presente nos estudos científicos de enfermeiros, fato constatado quando consideramos o número crescente de artigos publicados em periódicos, dissertações e teses norteados pelos diversos tipos metodológicos. Tal vez seja uma escolha facilitada pela possibilidade de alcançar as respostas para inquietações particulares que envolvem o cuidado e a assistência de enfermagem (1). Além das características sociais que compartilham tanto o processo de trabalho em saúde (como produção social) quanto à característica da metodologia qualitativa em preocupar-se com uma realidade que não pode ser quantificada, mensurada, assim, abarcando o universo dos significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes presentes nas relações e ações humanas (2).

Assim, os trabalhos produzidos a partir desse método vêm desvendando os fenômenos subjetivos da experiência humana no processo saúde-doença, contribuindo para construção do conhecimento na área de enfermagem (1). O núcleo básico de um trabalho qualitativo é a pretensão de lidar com o significado atribuído pelos sujeitos aos fatos, relações, práticas e fenômenos sociais, ou seja, “interpretar tanto as interpretações e práticas quanto as interpretações das práticas”. Há necessidade de esclarecer quais conceitos e teorias servirão de alicerce às articulações interpretativas (3).

Do mesmo modo que a pesquisa qualitativa conta com diversidade de tipos, a forma de obtenção de dados também é variada, desde observação de sujeitos/atores, uso de diário de campo, entrevistas abertas e as semi-estruturadas, dinâmica de grupo, documentos, relatos de vida, fotografias, áudios, e outros. A escolha por um método de coleta de dados deverá seguir o rigor da linha da pesquisa qualitativa, podendo optar por uma técnica específica ou por múltiplos métodos; lembrando, sobretudo, do rigor ético atendendo à Resolução nº. 196/96, do Conselho Nacional de Saúde - Diretrizes e Normas Regulamentares de Pesquisa em Seres Humanos (4).

Dentre os métodos de coleta de dados, este texto destaca a coleta por meio do grupo, distinto da conhecida ‘entrevista coletiva’ que promove um encontro pontual para discussão e resposta de questionamentos, colhendo-se, assim, os discursos dos sujeitos (5). O trabalho grupal como método de coleta de dados pode ser feito por diversos enfoques. No presente trabalho destacamos o grupo focal norteado pela técnica de grupo operativo (GO), tecnologia desenvolvida pelo psicanalista argentino Pichon-Rivière. Este instrumento vem se desvelando, em nossas pesquisas, como uma técnica que vai além da coleta de dados, vista que, proporciona trocas vivenciais entre os sujeitos pesquisados, possibilitando a revisitação e reflexão do cotidiano, exteriorização de sentimentos latentes, apropriação e reconstrução da realidade, em fim, um caminho para constituição do saber/fazer na área da saúde e também em pesquisa (6,7).

Partimos do determinante de que trabalhar com grupos (seja na assistência, ensino ou pesquisa) requer fundamentação técnico-teórica. É esta base que indicará o caminho para o coordenador de grupos constituir o próprio grupo, os meios para sua leitura e, sobretudo, auxiliará no enfrentamento do contexto e âmbito da dinâmica grupal (8).

Considerando este fator determinante, propusemos a elaboração deste artigo, cujo objetivo é discutir a utilização do GO como método de coleta em pesquisa qualitativa e as implicações para o pesquisador quanto ao desempenho dos papéis de coordenador e/ou observador. Em princípio, apresentaremos uma breve contextualização dos pressupostos teóricos do GO, na seqüência tratamos da caracterização do papel do coordenador nesta perspectiva, além de aspectos fundamentais na sua condução.

 

OS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS QUE SUBSIDIAM O GO

O GO é constituído de pessoas reunidas com um objetivo comum, o grupo centrado na tarefa mobilizado a aprender a pensar em termos de resolução das dificuldades criadas e manifestadas no campo grupal (9), isto é, para que pessoas que compartilham um mesmo espaço constituam um grupo, é necessário vinculação e interação, no sentido de um objetivo comum.

E o que devemos entender por tarefa? Tarefa é um conceito pichoniano dinâmico e dialético, é o caminho percorrido pelo grupo para alcançar os objetivos propostos. É a operatividade do grupo, “revelada pelos saltos qualitativos do coletivo, pelas apropriações de saberes e pelo nível de aprendizagem dos integrantes, bem como os instrumentos mobilizados no processo de aprender a realidade” (10).

O que conduz a tarefa é o contrato grupal, chamado de ‘objetivo contrato’, quando estabelecemos o funcionamento do grupo, definindo em conjunto seu(s) objetivo(s), o porquê, para quê e como será sua existência. Assim, o GO se estrutura numa técnica centrada na tarefa, com o objetivo de elaborar um esquema conceitual, referencial e operativo - ECRO comum, em favorecimento à comunicação e interação, emissor-receptor. Por meio do ECRO, há a apreensão da realidade que se propõe estudar (11).

Tal realidade é desvelada a partir da inserção de cada sujeito no grupo e, em dois níveis articulares: um relacionado à inserção da pessoa, verticalidade referente à vida pessoal de cada membro, e outro que é a horizontalidade, a história grupal, compartilhada entre os integrantes, que surge com base na existência do grupo até o momento presente. Estes níveis representam as histórias do indivíduo e do grupo que se fundem, conjugando o papel a ser desempenhado (12).

Neste contexto dá-se o interjogo de assunção e adjudicação de papéis que são funcionais, rotativos e complementares. São quatro os papéis desempenhados pelos sujeitos no contexto do GO, o porta-voz que é o depositário da ansiedade grupal, conjuga a verticalidade e a horizontalidade, isto é, fala de sua vida pessoal articulando-a com o processo atual que acontece no aqui e agora do grupo em relação à tarefa. Assim, emerge um conteúdo a ser interpretado pelo coordenador e integrantes, pois indica a operatividade do grupo. O segundo é o bode expiatório que é o depositário de aspectos negativos e atemorizantes do próprio grupo ou da mobilização em direção à tarefa. É visto como aquele que impede a realização da tarefa, representando os mecanismos de segregação e uma ameaça à integração e comunicação do grupo (9).

O líder é o terceiro papel e depositário de aspectos positivos do grupo, que por intermédio dos fenômenos grupais (no acontecer grupal) obtém a liderança dos demais. Há um destaque, para a íntima relação entre os papéis de bode expiatório e líder, no qual o surgimento do primeiro favorece a liderança, por meio de um processo dissociativo. O último papel é o de sabotador, que representa a liderança de resistência à mudança. Em alguns casos, o próprio grupo pode estereotipar este papel quando não desvanece o conteúdo emergente traduzido pelo porta-voz, considera-o fora de contexto e o visualiza como um sabotador (9).

A técnica de GO também conta com seis pontos de referência para interpretação do acontecer no campo grupal, chamados de vetores. São dispositivos qualitativos que nos permitem analisar a relação entre conteúdos explícitos e implícitos do grupo, que são:

  • Afiliação e pertença: afiliação ou identificação representa o primeiro momento da história do grupo, em que a pessoa guarda uma distância até se integrar ao grupo. Ao acontecer uma maior integração, a afiliação torna-se pertença, contribuindo para um mútuo reconhecimento resultando na melhoria de vínculos, conseqüentemente, aumentando o compromisso e a oportunidade grupal (9,10).
  • Cooperação representa a articulação das necessidades grupais e individuais, tendo como base os papéis diferenciados que, em prol da operatividade do grupo, devem ser assumidos por diferentes pessoas, indicando um caráter flexível e interdisciplinar. Neste momento, é que se encontram a confrontação da verticalidade e horizontalidade no grupo, discriminando distinções e elucidando diferenças (9,10).
  • Pertinência refere-se ao grau de ‘centramento’ do grupo na tarefa e, o quanto é capaz de esclarecer a mesma, de forma criativa e produtiva (9,10).
  • Comunicação aqui abrange qualquer tipo de comunicação, com seus elementos essenciais (emissor, receptor, mensagens, codificação e decodificação). Indicador que avalia: os papéis e as características comunicacionais, metacomunicacionais (o conteúdo veiculado da mensagem, o como ela se realiza e quem o faz) e os ruídos; assim como, a elaboração das contradições e seus pares que representam possíveis obstáculos à elaboração de vínculos e de conhecimento (9,10).
  • Aprendizagem é a mudança qualitativa do grupo, reflete o grau de plasticidade diante dos obstáculos, da resolução de ansiedade, adaptação ativa à realidade, criatividade, possibilidade de integração, superação de contradições. Assim, o grupo é capaz de elucidar seu próprio processo, em um espiral, acessando seu desenvolvimento, transformando dialeticamente quantidade em qualidade (9,10).
  • Tele é um conteúdo implícito, representando os aspectos latentes da história dos sujeitos e do grupo. Significa distância e, como as pessoas ampliam ou diminuem as distâncias entre elas. Traduz-se como transferência positiva ou negativa que se dá entre os membros do grupo e com o coordenador, em situação que o grupo encontra-se ante a mudança, despertando atitudes, que podem estereotipar ou mobilizar o ‘centramento’ da tarefa. Momento sensível que atinge as ansiedades básicas (descrita a seguir), necessitando de habilidade do coordenador em interpretá-los,(9,10).

 

O PESQUISADOR NA ASSUNÇÃO DO PAPEL DE COORDENADOR E/OU OBSERVADOR

Nas produções científicas em enfermagem, são vários os pesquisadores que utilizam atividades e técnicas grupais no intuito de coletar dados de pesquisa, representando uma significativa exploração deste método na pesquisa profissional(13). Muitos destes referem-se à técnica de grupo focal, aplicada na obtenção de dados qualitativos, mobilizando discussão sobre um tema em particular, envolvendo sentimentos, emoções, opiniões e as relações dos atores envolvidos no processo. Os dados são coletados baseados na discussão mobilizada. A dinâmica de um debate refere-se a “uma troca de ponto de vista, idéias e experiências” (14).

Ao optar pela técnica de grupo para obtenção de dados empíricos, o pesquisador além de exercer a função de estudioso do fenômeno em questão, também congrega o fazer de coordenador do grupo.

Assim, a responsabilidade do pesquisador/coordenador de grupo se amplia. Como pesquisador é predicado a escolha de referenciais teórico-metodológicos, respeito ético-científico, elaboração do projeto/planejamento, operacionalização e divulgação do estudo. Como coordenador de grupo, é preciso compartilhar recursos inerentes à condição de coordenar grupos como em qualquer outra circunstância, como na capacitação de pessoal, na assistência ou no ensino (5).

Para coordenação de grupos é preciso discernimento quanto ao processo grupal, seu funcionamento, dinâmica e, sobretudo, que suas ações/intervenções sejam subsidiadas por pressupostos teóricos, que sustentarão tanto o planejamento, elaboração das intervenções, compreensão dos movimentos grupais e avaliação da metodologia (8).

Quanto aos pressupostos teóricos da técnica de GO, o pesquisador tem a sua escolha de um dos dois papéis: coordenador ou observador do grupo. Estes papéis têm função assimétrica em relação aos demais elementos que compõem o grupo, e interligam-se na análise do trabalho grupal. O “coordenador do grupo deve procurar facilitar o diálogo e estabelecer a comunicação, incluindo-se aqui o respeito aos silêncios produtivos, criadores, ou que significam um certo insight e elaboração”(15), além de se atentar aos ajustes plásticos de fins e objetivos aos meios disponíveis, auxiliando o grupo a desviar-se dos confrontos estereótipos.

Coordenar GO tem vários desdobramentos e, todos se relacionam à identificação das dificuldades do grupo em participar da tarefa. É essencial para operatividade do grupo que o coordenador centre sua tarefa nas pessoas que integram o grupo; ter o cuidado em não centralizar a comunicação do grupo em si; não fazer uso do discurso crítico e coercivo em suas intervenções; estar atento aos papéis que a ele são projetados, não se permitindo assumi-los. Atribui-se a este fazer três qualidades, interligadas e de igual valor: arte, ciência e paciência (15).

Atentar-se para o jogo de assunção e adjudicação de papéis no grupo, favorece a leitura do mesmo, indicando, por exemplo, o processo de comunicação e a pertinência à tarefa que o grupo assume e apresenta. Também possibilita desvelar os movimentos de tornar explicíto o implícito, por meio das relações grupais.

O coordenador cumpre seu papel ao ajudar os membros a refletirem, abordando o obstáculo epistemiológico representado pelas ansiedades básicas. “Opera no campo das dificuldades da tarefa e da rede de comunicações. Seu instrumento é a assimilação das situações manifestas e a interpretação da casualidade subjacente” (9).

Cabe neste momento, esclarecer as ansiedades básicas ou medos básicos: “medo da perda (ansiedade depressiva) das estruturas existentes e o medo do ataque (ansiedade paranóide) da nova situação, provindo esta última de novas estruturas nas quais o sujeito se sente inseguro por carência de instrumentação” (9). Estas duas ansiedades configuram a resistência à mudança e, elaborá-la constitui-se a tarefa do GO.

No contexto grupal, o coordenador transita entre os conteúdos explícitos e implícitos. Busca desvendar as resistências às mudanças ao explorar o não dito (não dito, mas presente nas entrelinhas das comunicações) a partir do foi dito, isto é, parte de uma realidade apresentada, que aos poucos revela conteúdos mais profundos dos sujeitos, por meio dos gestos, expressões, olhares e situações compartilhadas (16).

Em síntese, cabe ao coordenador de GO, habilidades específicas, como operar os núcleos de resistências diante do novo, desvendar as mensagens emitidas no campo grupal e, essencialmente explorar os medos básicos de perda e ataque, permitindo elaborar as contradições da realidade, promovendo atitudes de mudança. Esta condição tem íntima relação com a interação ou não das pessoas em direção à tarefa (16), para tanto, de fundamental importância para o pesquisador/coordenador avaliar sua metodologia.

Assim, há uma riqueza de dados disponibilizados numa pesquisa quando se aplica o GO, por não se restringir a uma técnica que registra o discurso do sujeito, mas, preocupa-se com as várias formas de comunicação e expressão ocorridas no campo grupal. Para tanto é necessário a atuação de um outro papel, o de observador para assegurar o registro das informações não-verbais (16,17), pois, as falas dos participantes podem ser gravadas em áudio, já o não dito, requer um registro especial, vista que, pode causar constrangimento quando captado por meio de gravação audiovisual, interferindo drasticamente na dinâmica grupal.

O papel de observador interage com o coordenador, também assimétrico quanto aos elementos do grupo, pela função diferenciada e, especificamente numa pesquisa, pode ser assumido pelo pesquisador ou por um pesquisador colaborador. É um fazer privilegiado para a operacionalização e processo de análise de uma pesquisa, vista que, exerce a função de “recolher todo o material, expresso verbal e pré-verbalmente no grupo, com o objetivo de realimentar o coordenador, num reajuste das técnicas de condução” (9). Mantendo-se numa distância adequada e registrando a ‘história do grupo’, o observador percebe o acontecer grupal, passa a compreender as normas que o próprio grupo desenvolve e sua dinâmica, analisando as reuniões em três categorias: abertura, desenvolvimento e encerramento.

Além de todo este conhecimento epistemológico, que atribui ao pesquisador/coordenador de GO condição necessária para compreensão do acontecer grupal e de conduzir a leitura da operatividade do grupo, existem outros cuidados que lhe são próprios, como o de estabelecer um objetivo contrato, juntamente com os integrantes do GO (que também são os sujeitos da pesquisa), com habilidade suficiente para integrar e sincronizar a tarefa grupal com os objetivos da pesquisa. Condição singular para fidedignidade dos dados e realização da pesquisa.

Escolher e preparar um ambiente tranqüilo, sem ruídos que interfiram nas gravações, que garanta privacidade e a mínima interrupção, iluminação, ventilação e mobília que proporcionem conforto (18).

São considerações que interferem na qualidade dos dados em pesquisa, o ambiente e disposição das pessoas devem facilitar a interação e o contato face a face, preferencialmente em círculo, que também permitirá melhor anglo para o observador e variáveis pontos para os gravadores. Quanto ao número ideal de pessoas para a operatividade de um grupo, diversos autores convergem na indicação de 8 a 12 pessoas; um número inferior poderia não oferecer o dinamismo necessário às interações e trocas uns com os outros; um número superior poderia tornar a comunicação inviável e contribuir para formação de grupos paralelos ou subgrupos (ruídos na comunicação).

 

O REGISTRO E ANÁLISE DO ACONTECER GRUPAL

Apresentadas os pressupostos teóricos da técnica de GO e as implicações dos papéis de coordenar e observar GO para o pesquisador, prosseguimos com as orientações para a constituição das crônicas das reuniões (16):

roteiro

Outro dispositivo que também pode ser aplicado é a elaboração simultânea de uma síntese, seguindo o protocolo: identificação dos vetores predominantes; o registro da contradição central que operou no GO; dos medos explícitos e latentes; das ansiedades eminentes; dos temas emergentes; dos referencias pessoais, institucionais e contextuais; do(s) principal(ais) obstáculo(s); da metacomunicação (conteúdo veiculado da mensagem, de como ela se realiza e quem o faz); das alianças e pactos; dos papéis emergentes (porta-voz, sabotador, líder e bode expiatório); das descobertas e inovações, dos saltos de qualidade na produção coletiva (16).

A elaboração da crônica e síntese, após cada GO, além de efetivar o registro da reunião, que pode configurar num diário de campo para a pesquisa, também avança na análise da mesma, principalmente, quando pode contar com uma construção conjunta entre observador e coordenador. Dito em outras palavras, ao se analisar a reunião e, sobretudo, quando referenciamos os vetores (pertença, cooperação, pertinência, comunicação, aprendizagem e tele) para a interpretação do acontecer grupal, já principiamos o tratamento dos dados de forma sistematizada, possibilitando uma conexão dos dados à formulação de alternativas para futuras categorias empíricas.

Em nossas pesquisas, para identificação de categorias empíricas, utilizamos como método de análise de dados, tanto para o discurso gravado, quanto para o diário de campo (crônica e síntese) a análise temática (6) ou a análise do discurso (7).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As bases teóricas que fundamentam a técnica de GO possibilitam múltiplas ações na saúde, ensino, trabalho e especialmente, na pesquisa. Como tecnologia em pesquisa qualitativa, o GO norteia o planejamento, operacionalização e a análise do grupo. É uma técnica desenvolvida a partir de uma teoria que explicita sua forma de pensar no sujeito, na sua relação com o objeto, tendo como base as relações e vínculos que as pessoas manifestam no grupo, num caráter dinâmico e interdisciplinar.

A técnica disponibiliza ao pesquisador/coordenador recursos que modelam a sua intervenção em grupo, permitindo um posicionamento mais assertivo na condução das reuniões e da própria pesquisa.

Consideramos que ao aplicar a técnica GO, o pesquisador/coordenador tem o privilégio de não só coletar e registrar dados comunicados oralmente (como ocorre numa entrevista), mas, existe a possibilidade de contar com o observador, que tem papel imprescindível para a captação da comunicação não-verbal, das impressões, emoções, além de contribuir na discussão e compreensão dos movimentos grupais. É uma atitude de complementação da coordenação do GO.

Destacamos, ainda, que pelas leituras freqüentes das reuniões de GO, o pesquisador/coordenador tem condições de acompanhar a pertinência à tarefa, o interjogo de papéis, as situações defensivas, as ansiedades mobilizadas diante dos temas trabalhados. Condição própria que permite avaliação continua da metodologia aplicada, assim, no decorrer da pesquisa, vão emergindo conteúdos que podem, antes do termino da coleta de dados, sinalizar alguns resultados. Acreditamos, então, que há possibilidade de flexibilidade e re-planejamento da pesquisa, sem negar os referenciais teórico-metodológicos propostos.

Por último é relevante comentar sobre o falso pressuposto de que a formação do enfermeiro nas instituições de ensino e de saúde privilegie o trabalho em grupo como espaço de mudança. O embasamento teórico sobre grupos, por muitas vezes, é negligenciado no processo ensino-aprendizagem e na educação permanente. É necessário que o enfermeiro busque a construção deste saber. Em específico, coordenar GO compreende o desenvolvimento de saberes e fazeres pautados no referencial teórico-metodológico pichoniano, requer formação apropriada e, quando associado à experiência de gerenciar grupos, abre espaço de múltiplas possibilidades na profissão.

 

REFERÊNCIAS

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5. Munari DB, Cardoso EE, Medeiros M. A utilização do grupo como estratégia em pesquisa. In:11 Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem, 2001. Anais do 11º Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem; 2001; Belém, Brasil. p.11-13

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16 - Gayotto MLC (organizadora). Liderança II: aprenda a coordenar grupos. Rio de Janeiro: Vozes; 2003.

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18. Munari DB, Furegato ARF. Enfermagem e grupos. 2ª ed. Goiânia: AB; 2003.

 

 

Artigo recebido em 23.05.07

Aprovado para publicação em 10.12.07

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